Sobre                        Contato                        Arquivo

Verniz fino

Eduardo Graeff, 27/01/12

Dilma Rousseff não é tão loquaz quanto Lula, mas mostra a mesma facilidade para mudar de discurso conforme a platéia. Em São Paulo, homenageada por Gilberto Kassab, ela posou de boa moça. Horas depois, em Porto Alegre, deu declarações incompatíveis com a dignidade do seu cargo.

Notícia da Folha (para assinantes):

Em reunião fechada ontem com movimentos sociais em Porto Alegre, a presidente Dilma Rousseff fez críticas contundentes à reintegração de posse na área conhecida como Pinheirinho, em São José dos Campos (a 97 km de São Paulo).

A Folha ouviu seis participantes do encontro. Segundo eles, Dilma se referiu à operação da Polícia Militar paulista como “barbárie” e disse que não esperava que ocorresse dessa maneira.

O que houve em Pinheirinho foi o cumprimento de uma ordem judicial, executada pela polícia com os cuidados possíveis, diante da reação violenta de minorias que querem porque querem fabricar mártires em São Paulo.

Barbárie foi o que as mesmas minorias tentaram fazer com Kassab na saída da catedral da Sé.

Dilma, como seu secretário-geral, Gilberto Carvalho, incita conscientemente a violência dessas minorias ao imputar violência às autoridades constituídas do estado de São Paulo.

O contexto semi-clandestino das declarações - em “reunião fechada” - só agrava a falsidade do seu teor.

Como é fino o verniz da civilidade!

política · dilma rousseff, estado de direito, violência política
Twittar   Compartilhar   Enviar   Imprimir   Comentar

Flor do pântano

Eduardo Graeff, 26/01/12

Luiz Cláudio Cunha relata no Observatório da Imprensa uma história cabeluda de corrupção e cerco à liberdade de imprensa. O pivô é um irmão do ex-governador do Rio Grande do Sul, Germano Rigotto. A vítima, além da fazenda pública, é um jornal local chamado JÁ, que fechou depois de dez anos de perseguição.

Um personagem secundário da história chama atenção porque virou presidente da República. Dilma Rousseff, quando assumiu a Secretaria de Minas e Energia do governo Alceu Collares, em 1995, herdou uma sindicância da Companhia Estadual de Energia Elétrica sobre os desmandos do irmão do ex-governador.

“Eu nunca tinha visto nada igual”, diria Dilma, eletrificada com o que leu, pouco depois de botar o dedo na tomada e pedir uma nova investigação. Ela não falou mais no assunto porque, em nome da santa governabilidade, o PDT de Collares precisava dos votos do PMDB de Rigotto para aprovar seus pleitos na Assembleia. Mesmo assim, antes de deixar a secretaria, em dezembro de 1994, Dilma Rousseff teve o cuidado de encaminhar o resultado da sindicância para a Contadoria e Auditoria Geral do Estado (CAGE)…

Reconhecem o padrão de conduta? Os antigos diziam que a virtude está no meio. Para Dilma, a virtude, parece, está em não se comprometer com a corrupção nem com o combate à corrupção.

política · corrupção, dilma rousseff, liberdade de imprensa
Twittar   Compartilhar   Enviar   Imprimir   Comentar

Louco amor

Eduardo Graeff, 22/01/12

No capítulo de hoje de A História de Mora, Jorge Bastos Moreno lembra que um dia Orestes Quércia se queixou de Fernando Henrique Cardoso para Ulysses Guimarães:

- Eu nunca tive raiva do Fernando Henrique. Ele é que tem ódio de mim. É compreensível: intelectual não gosta de caipira.

Fernando Henrique respondeu:

- Intelectual gosta, sim, de caipira. Intelectual não gosta é de ladrão!

Pode ser. Mas o amor dos intelectuais esquerdistas pelo operário Lula, esse é incondicional.

política · fhc, lula, orestes quércia
Twittar   Compartilhar   Enviar   Imprimir   Comentar

Rio alto astral

Eduardo Graeff, 21/01/12

O Globo faz um merchandising caprichado do verão do Rio de Janeiro:

Turistas estrangeiros elogiam hospitalidade, limpeza e segurança da cidade

Dá vontade de pegar a ponte aérea e ir lá aproveitar.

Os meios de comunicação do Rio, começando pela Globo, jogam para cima a cidade deles. Refletem e realimentam o sentimento do público local. Há uma ampla e ativa coalizão na sociedade carioca, das elites ao povão, passando pela classe média, para salvar o Rio da violência, do crime organizado e do caos urbano. Meu amigo André Urani foi um dos grandes estimuladores disso.

Em São Paulo não há nada parecido, talvez porque não existe a mesma sensação que a cidade precisa ser salva. A polarização PT-PSDB também deve trabalhar contra uma frente ampla a favor da cidade. Os meios de comunicação refletem isso, tratando a cidade e as ações dos governos municipal e estadual na cidade num tom sempre mais crítico.

No tema da segurança, por exemplo, a diferença é clara. A Globo comemora a queda dos homicídios no Rio. A queda bem mais acentuada em São Paulo - um case mundial - é apenas registrada pela mídia local. As UPPs nas favelas cariocas são um show. As “operações saturação” da polícia paulista (está certo que o nome não ajuda) quase não são notadas.

Não vou dizer que os cariocas gostam mais da cidade deles do que nós, paulistanos, da nossa. Mas que tenho alguma inveja da atitude positiva deles, lá isso tenho. Sem contar o pequeno detalhe das praias…

cidades · imprensa, rio de janeiro, são paulo
Twittar   Compartilhar   Enviar   Imprimir   Comentar

Dedões a mil

Eduardo Graeff, 20/01/12

Ruy Castro, na Folha (para assinantes), preocupado com a obsolescência do dedo polegar:

...com o avanço da tecnologia, a vida parece se resumir a digitar teclas de uma maquininha - às vezes, uma única tecla -, e ela faz o resto. Tal gesto, de fato, é mais apropriado para o indicador.

Parece que ele nunca digitou nem prestou atenção num garoto digitando num celular. Olha aí em cima, Ruy Castro.

comunicação · celular, internet
Twittar   Compartilhar   Enviar   Imprimir   Comentar

Moscou dançou. Te cuida, Pequim

Eduardo Graeff, 05/01/12

O governo chinês mandou cortar o que considera excesso de programas de entretenimento na TV. O presidente Hu Jintao escreveu que a infiltração cultural é a frente principal de um “complô para ocidentalizar a China e dividi-la”, informa Clóvis Rossi (para assinantes).

Acho que a China é grande e forte demais para ser ocidentalizada. Se corre risco de se dividir, será por causas lá dela, mas isso também me parece improvável.

Jintao está certo sobre o perigo da cultura de massas ocidental, em todo caso. Vacilou, ele pode acabar na ala VIP da platéia de um concerto de rock na Praça da Paz Celestial, como seu colega Vladimir Putin no concerto de Paul MacCartney na Praça Vermelha. Dançando e batendo palma.

Para quem não viu o concerto na Praça Vermelha, postei o grand finale acima e recomendo o DVD. Além do concerto propriamente dito, de arrepiar, tem um making of que é um documento histórico, mostrando o que os Beatles representaram para os russos oprimidos pelo regime soviético.

Se o regime chinês está inquieto, deve ser porque sente a terra se mexer debaixo dele. Debaixo, não de fora. Os símbolos podem vir do ocidente. Os significados, os anseios, são os chineses que produzem.

comunicação · autoritarismo, china, indústria cultural, tv
Twittar   Compartilhar   Enviar   Imprimir   Comentar
Mais posts

Corrupção de Sarney a Lula

image O ebook Corrupção de Sarney a Lula pode ser baixado gratuitamente em três formatos: PDF (para imprimir), EPUB (para iPad) e MOBI (para Kindle). Uma versão em inglês (capa acima) está a venda na Amazon.com.

Artigos


Crime mata menos, polícia mata mais

Leandro Piquet Carneiro, Folha de S. Paulo, 27/01/12
Nos quatro anos cobertos pelo levantamento, 62% dos conflitos com mortes ocorreram no atendimento de casos de roubo ou furto. A vítima consegue ligar para o 190, a PM envia uma viatura e quando ocorre o encontro com os assaltantes há troca de tiros e o desfecho violento.

Crack - hora de unir responsabilidades

Gilberto Kassab, O Estado de S. Paulo, 25/01/12
Não é hora de apontar culpados nem de alimentar pendengas eleitoreiras. É hora, sim, de também prover de mais recursos as forças que combatem os traficantes. Mais investimento e maior concatenação de ações certamente trarão resultados ainda melhores. É hora de os protagonistas da área jurídica se debruçarem sobre os limites legais que ainda impedem internações urgentes e necessárias.

O incômodo silêncio da oposição

Marco Antonio Villa, O Globo, 24/01/12
O silêncio da oposição incomoda. Desde 1945 — incluindo o período do regime militar — nunca tivemos uma oposição tão minúscula e inoperante. Vivemos numa grande Coreia do Norte com louvações cotidianas à dirigente máxima do país e em clima de unanimidade ditatorial. A oposição desapareceu do mapa. E o seu principal partido, o PSDB, resolveu inventar uma nova forma de fazer política: a oposição invisível.

Reação da sociedade

Rubens Barbosa, O Estado de S. Paulo, 24/01/12
A revista Interesse Nacional, em sua edição especial de janeiro, dedica-se integralmente à discussão do Poder Judiciário e reúne artigos de respeitados nomes da área jurídica que, ao mesmo tempo, são protagonistas e foram artífices das transformações empreendidas nos últimos oito anos.

Controle da magistratura

Ives Gandra da Silva Martins, O Estado de S. Paulo, 21/01/12
A decisão inicial do ministro Marco Aurélio Mello, de suspender o exercício da competência do CNJ até manifestação do plenário me parece equivocada. De início, porque desautoriza seis anos de atuação do CNJ no exercício das competências atribuídas pela Constituição; depois, porque autoriza todos os que foram punidos pela instituição a pedirem imediata reintegração nas funções exercidas e indenizações por danos morais.

Contra a censura

Cora Ronai, O Globo, 21/01/12
A rede com que colaboramos e que se formou graças ao conteúdo produzido e compartilhado por nós mesmos se transformaria numa estufa censurada onde só se encontraria o que passasse pelo crivo da indústria do entretenimento americana. Os efeitos dessa censura local, contudo, teriam alcance mundial, já que boa parte da web passa pelos Estados Unidos.

Um tempo sem nome

Rosiska Darcy de Oliveira, O Globo, 21/01/12
A libido, seja por uma maior liberalização dos costumes, seja por progressos da medicina, reclama seus direitos na terceira idade com uma naturalidade que em outros tempos já foi chamada de despudor. Esmaece a fronteira entre as fases da vida. É o conceito de velhice que envelhece. Envelhecer como sinônimo de decadência deixou de ser uma profecia que se autorrealiza. Sem, no entanto, impedir a lucidez sobre o desfecho.

Quando querer é poder

Roberto Lent, O Globo, 20/01/12
A imprensa noticia regularmente as grandes dificuldades burocráticas que retardam fortemente a importação de materiais e equipamentos para os laboratórios de pesquisa brasileiros. Como resolver o impasse? Talvez seja mais simples do que pensamos. O país atribuiria “passe livre” para os pesquisadores brasileiros credenciados pelas agências de fomento do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação.

Sombras do passado

Nelson Motta, O Globo, 20/01/12
O assassinato do prefeito Celso Daniel completa dez anos sem culpados nem condenados, e pior, desde o início das investigações sete testemunhas e investigados já foram assassinados ou morreram em circunstâncias misteriosas. O principal acusado é digno de um pulp fiction: o Sombra.

Mais segurança pessoal, menos desigualdade

Fernando Henrique Cardoso, entrevista a The Economist online, 19/01/12
Em 12 de janeiro o chefe da nossa sucursal em São Paulo entrevistou Fernando Henrique Cardoso, presidente do Brasil de 1995-2002, no Instituto FHC. Eles discutiram os desafios do Brasil e seu poderio global crescente.

BNDES - mais recursos do Tesouro?

Roberto Macedo, O Estado de S. Paulo, 19/01/12
A conta do prejuízo vai para os contribuintes. E não há excluídos dessa cobrança, pois neste país mesmo mendigos pagam muito imposto, dada a pesada carga tributária que onera bens e serviços que adquirem. Quanto a quem leva o subsídio do BNDES, predominam grandes empresas, cujos acionistas estão mais no alto da escala de rendimentos.

Por que o povo aprova Dilma?

Carlos Alberto Sardenberg, O Globo, 19/01/12
Se a população considera ruins os serviços que recebe e, ao mesmo tempo, aprova o governo federal, só pode ser porque não considera a presidente responsável por aqueles problemas. Ora, carimbar a culpa no governo é o papel da oposição, em qualquer do mundo.
Mais artigos