A fé e a política à beira do rio
A greve de fome do bispo de Barra (Bahia) representa muito mais do que o protesto solitário de um religioso inconformado com o projeto de transposição de águas do rio São Francisco. Essa greve resume, e está longe de encerrar, o processo histórico do advento da religião e dos religiosos como protagonistas de ação política no Brasil moderno. Trata-se de um cenário complicado em que está em jogo mais do que um protesto radical contra uma ação de governo.
O envolvimento da Igreja Católica no questionamento do governo ganhou consistência e se institucionalizou durante o regime militar, quando os partidos políticos foram fragilizados, a diversidade partidária foi mutilada e a expressão política do povo brasileiro ficou reduzida à opção contra o governo ou a favor do governo. O inconformismo popular buscou e encontrou alternativas de ação política nas igrejas. Desde então a religião se mesclou com a política e comprometeu antes do nascimento o campo de atuação dos partidos que surgiriam com o declínio do regime autoritário.
Desde o início da década de setenta, a Igreja Católica vinha montando a rede de suas pastorais sociais, como o Conselho Indigenista Missionário e a Comissão Pastoral da Terra, além da Pastoral Operária. Agia em nome da defesa dos direitos humanos de populações gravemente atingidas pelas ações do governo no favorecimento subsidiado do grande capital na ocupação da Amazônia. E, também, na política salarial que reduziu substantivamente as condições de vida da classe trabalhadora. É a época da intensa expansão do número de favelas nas grandes cidades. A engenharia da pobreza tornava o Brasil um país competitivo em face das florescentes economias da Ásia.
As comunidades de base e as concepções da Teologia da Libertação se difundiram pela rede altamente organizada, eficiente e corajosa dessas mediações eclesiais, convidando os católicos, e também algumas igrejas protestantes históricas, como a Luterana, à ação política inspirada na fé. Essa mudança criou canais de manifestação e de luta social para populações que no geral estavam à margem da política e dos partidos, historicamente condenadas à manifestação do inconformismo social através dos movimentos messiânicos e milenaristas e através do chamado banditismo social.
Durante todo o tempo da ditadura ainda surgiram movimentos messiânicos no centro-oeste e na Amazônia, como o movimento religioso de Maria da Praia, bem como bandoleiros sociais, identificados com os pobres, no estilo de Antônio Silvino, como Chapéu de Couro, em Pernambuco, e Quintino, no Maranhão. A Igreja, pela primeira vez, não hostilizou esses movimentos, ao mesmo tempo em que criou as bases alternativas que menciono e que fizeram com que a multidão dos descontentes, sobretudo no campo, pudesse se expressar no âmbito da política sem abrir mão de sua fé e de sua religiosidade antiga e simples.
Não fosse isso, muito provavelmente teríamos recuado às formas primitivas de descontentamento social que prevaleceram até os primeiros anos da Revolução de 1930. A ação da Igreja foi a grande responsável, embora não a única, pela redução da incidência política do clientelismo sertanejo de base patrimonial. Se houve alguma modernização política neste país, ela se deve também à Igreja, embora modernização conservadora.
Os partidos políticos, sem exceção, ficaram longe dessa radical mudança tanto na concepção de povo como na concepção de política e de ação política. Mesmo o PT, que foi arbitrariamente escolhido para representar na política o povo de Deus, como é chamado, não tem a menor idéia do que é isso, simplesmente parasitando da maneira mais descaradamente oportunista esse novo e estranho sujeito político, sem consultá-lo, sem ouvi-lo, sem entendê-lo, sem desejá-lo no foro das decisões políticas efetivas. Lula os definiu como xiitas. Apenas colhendo seus votos, numa espécie de coronelismo de esquerda, tão de direita quanto o dos coronéis do sertão.
O proclamado silêncio dos intelectuais petistas revelou-se particularmente grave na incapacidade, ou mesmo desdém ou desinteresse, de conhecer, compreender e interpretar essa novidade política, e no desprezo pela voz e pelos textos dos que desvendavam com riqueza de detalhes o advento de novos e decisivos sujeitos do processo político brasileiro. É especialmente o caso dos diferentes grupos de organização política mobilizados pela militância católica, como o MST. A alocação de postos secundários, decorativos e irrelevantes no governo a representantes da facção religiosa do partido foi a forma oportunista de vetá-los. Tardiamente, vários nomes representativos desse grupo começaram a perceber a trama e a deixar o governo muito cedo, não raro fazendo duras objeções a Lula e ao governo como um todo.
A greve de fome do bispo de Barra sintetizou as aspirações frustradas desses descontentes. Mas nem por isso o bispo deixou de se confessar petista de muito tempo e de continuar a sê-lo. Apesar de ser o problema da transposição das águas um problema infinitamente menor do que o espetáculo da apuração da larga e espantosa corrupção no partido, o bispo ainda tem esperança de salvar Lula das garras do demônio do capital, como declarou na semana passada. A opção do bispo pelo martírio político como meio de governar sem mandato o governante com mandato, contém uma concepção política ingênua, mas nem por isso menos eficaz.
Essa concepção primitiva e pré-política da política, pensada como um movimento pendular entre o bem e o mal, e o governante concebido como monarca de um absolutismo popular, não muda o cenário político dramático e grave com que nos defrontamos. Somada aos efeitos populistas do Bolsa-família, poderá presidir nas bases remotas do país, distantes das ilusões da modernidade, as eleições do próximo ano. Eleições que poderão ser usadas mais uma vez para tentar tirar Lula (e o PT) do cerco do demônio na suposição de que corrupção é apenas pecado venial e não crime.
José de Souza Martins é professor de Sociologia da Faculdade de Filosofia da USP





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