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A resposta aos infiéis depositários da esperança

José de Souza Martins, O Estado de S. Paulo , 17/07/05

Na sua burocratização e ânsia de poder, o PT deixou escapar as novas gerações. E elas podem surpreender

Algumas das figuras cuja penugem vem sendo sapecada no fogaréu de denúncias e de ocorrências desconcertantes destas últimas semanas personificam o enigma propriamente histórico dos acontecimentos. Os dois Josés mais notórios da crise nasceram politicamente lá atrás, num momento histórico cujo colapso abriu o tempo que levou à gênese e ao triunfo eleitoral do Partido dos Trabalhadores. O que estamos presenciando nestes dias tem muito a ver com esse colapso, que pariu novos sujeitos do processo político, cujo colapso, por sua vez, estamos presenciando agora. Neste incômodo momento, vivemos o fim de um ciclo histórico, o esgotamento de uma alternativa política que, por excessivas contradições, não se confirmou senão fragmentária e incompletamente. Não vejo nenhum indício de que estejamos vivendo o começo de uma nova era, a era de não ter medo de ser feliz. Estamos bem longe dessa consigna meramente publicitária e enganadora, gerada para ganhar eleição, mas não para mudar um país.

O que vemos é o final de um projeto político, de quando os dois Josés eram jovens e expressaram de diferentes modos seu inconformismo com a ordem social e política e de diferentes modos representaram a opção política da juventude de classe média dos anos 60 por um novo Brasil. Era a geração dos que não confiavam em quem tinha mais de 30 anos, idade que nesta altura já ultrapassaram. Um a expressou na agitação estudantil e urbana de 1968, circunscrita e sem apoio, esgotada em sua forma na decretação do Ato Institucional nº 5 e no recrudescimento da ditadura. O outro a expressou na radicalização juvenil decorrente desse esgotamento, a opção pela luta armada descontextualizada e sem apoio popular e pelo sacrifício cruento na guerrilha rural.

O Brasil passou ao largo dessas opções, arrastado pelo nosso conformismo crônico, amaciado por uma certa cultura política carneiril do passado que limita nossos horizontes e cala a nossa boca. Sempre tem alguém querendo mandar no nosso modo de pensar e no modo de fazer a mudança, mesmo quem diz que vai mudar. É aquela cultura dos que têm medo da criação, da invenção, do sonho, da imaginação. Episódios de intolerância e corporativismo no PT, nas universidades, nas igrejas, na chamada militância, dizem muito o que não gostamos de reconhecer. Prefiro, porém, a hipótese de que, nessa aparente indiferença, o Brasil tenha sido levado à condição de espectador silencioso pela prudência madura de um povo que, gato escaldado, se recusa a ser objeto da aventura alheia.

Ambos envelheceram no modo de fazer política, protagonizaram com destaque, mas não sozinhos, a esquerdização dos vícios da política brasileira e das tradições da dominação patrimonial e populista que, no fundo, é o que estamos vendo nesse vai-e-vem de denúncias. Criaram o neo-ultrapassado e arrastaram consigo forças generosas e novas, que não foram compreendidas, cooptando-as e institucionalizando-as como energia supletiva do poder pelo poder. Nesse cenário de dilemas e surpresas emergem também as indiscutíveis virtudes desta sociedade, sua paciência no resistir e combater o que lhe parece errado. É admirável a maturidade política que este país está demonstrando em face de uma circunstância que o tornaria ingovernável.

Os dois Josés não estão sozinhos nessa trajetória. Se são culpados de algo, é de terem uma compreensão incrivelmente pobre do que representaram e representam numa circunstância de imensos débitos sociais, políticos e históricos. Eles e o partido. Perderam a juventude na burocratização partidária e na ânsia de poder.

Lula não é estranho a esse processo de esvaziamento. Também ele padece o esgotamento das vibrantes manifestações operárias dos anos 70. Tornou-se obsoleto em face da classe social em nome da qual fala. O cenário social da fábrica é hoje de deplorável fragilização do trabalho em face do capital.

O chamado novo sindicalismo esvaiu-se na fascinação do poder. As circunstâncias da história mudaram e muito, transfiguraram os protagonistas e sua obra. Na escolha de parceiros da tradição fisiológica e populista, na assimilação do maquiavelismo da corrupção “cívica”, a corrupção “de esquerda”, dos fins que justificam os meios, que não são necessariamente os dos abomináveis embolsos pessoais, iludem-se e tentam nos iludir. Passam a melancólica impressão de que o partido optou pelo roteiro de Cristóvão Colombo: indo pela direita, um dia chegaremos à esquerda.

Nas entrelinhas do silêncio, as novas gerações esperam. Os últimos 40 anos trouxeram à vida política milhões de novos brasileiros, que não conhecem os compromissos do passado e querem compromissos com o futuro, o seu futuro. Dos extremismos solitários dos anos 60 e 70 aos dias de hoje, temos um lento esvaziamento do radicalismo juvenil, abatido pela repressão, primeiro, e pela desilusão, depois. Esse é o ponto grave. O último episódio de indignação dos jovens foi o das marchas dos caras-pintadas, contra a corrupção no governo Collor.

Lembremo-nos: os jovens ficaram praticamente sozinhos. Resta saber o que farão agora. É próprio da juventude recolher a herança da utopia e do sonho, ignorar os compromissos que os esvaziam, reinterpretar o sentido da mudança, encontrar o próprio caminho até as raízes das carências sociais, dos absurdos, das alternativas desprezadas. Ilude-se quem pensa que as novas gerações se deixam enganar pelo discurso autoritário e auto-indulgente de que as patifarias do presente são legítimas porque “todos fizeram e fazem isso”. Em primeiro lugar porque não é verdade. Em segundo lugar porque fecha as portas para a mudança e torna compulsório o que é inaceitável, o presente. É sociologicamente previsível que novas inquietações estão gestando um novo e radical inconformismo juvenil, novos personagens, novos sujeitos substitutivos dos infiéis depositários da esperança, os que dela fizeram mero pretexto de ascensão política.

* José de Souza Martins é sociólogo e professor na Universidade de São Paulo

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