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As cinzas da nossa consciência

José de Souza Martins, O Estado de S. Paulo, 26/12/05

Mais de cem anos da história da loucura em São Paulo foram consumidos pelo fogo em poucas horas, na semana que passou: prontuários, livros, documentos essenciais para a compreensão de nós mesmos, do que somos. Até cartas trocadas entre o medico Osório César, companheiro de Tarsila do Amaral, e Freud. No fogaréu do Juqueri ardeu a nossa consciência social, o espelho de nossa alma coletiva. Não foi um descuido de agora. Pesquisadores já haviam notado a conservação amadorística daquele arquivo e de vários outros.

Todos temos sido internos do Juqueri. Se aparentemente estamos fora, é porque atravessamos a malha de valores e regras que esta sociedade estabeleceu para decidir a liberdade ou o confinamento de seus membros. Mas parte de nossa alma está lá, aquilo que conseguimos suportar e aquilo que conseguimos esconder é o que nos mantém aqui fora. A história do peneiramento cruel virou cinzas. Ficará mais difícil meditar sobre nós mesmos. O estudo dos fatores socialmente repressivos e alienistas de nossa cultura e do nosso modo de vida, não raro ocultos, foi gravemente inviabilizado. Já não temos como examinar a nossa consciência coletiva: perdemos uma parte da memória, enlouquecemos. É que a loucura não é apenas a loucura individual desta pessoa ou daquela. Sociedades sem memória são sociedades loucas, sociedades que não se decifram.

Subestimar esse incêndio do Juqueri é uma renúncia coletiva, um sinal grave de que perdemos o horizonte, de que achamos que nada temos a ver com isso, quando temos tudo a ver, quando desconhecemos que os internos do Juqueri são e tem sido ao longo do tempo uma parte fundamental do nosso nós. O descuido em relação àquele arquivo é alienação, uma outra dimensão da mesma enfermidade dos reclusos.

Estou falando do nós de que carecemos para ser gente, fundamento de nossa condição humana, a memória não só como documento, mas como cimento de nossa identidade e de nossa unidade interior. Os índios Suruí, de Rondônia, não se chamam Suruí. Chamam-se a si mesmos Paíter, isto é, nós, gente. Muitas outras tribos indígenas deste país tem em outras línguas auto-designações idênticas. Não conhecem o eu do individualismo moderno. Mas conhecem o nós fundamental que nós, “brancos”, desprezamos. Eles tem guardiães e contadores de mitos, sínteses de sua estrutura social básica, arquivos vivos. Sem isso, morreriam como povos. Nós, ao contrário, matamos nossos arquivos, deixamos que se queimem ou se afoguem, não temos ação preventiva apropriada, instalações tecnicamente adequadas para abrigar a documentação de nossa história. Somos modernos na ambição e atrasados na lembrança. Vamos nos perdendo ao longo do caminho.

Não é a primeira vez que nossa memória se queima. Em 1946, na véspera da transferência da propriedade da São Paulo Railway para o governo federal, caducado o contrato de concessão da ferrovia, a estação da Luz pegou fogo de madrugada. Foi quase toda destruída. Boa parte do arquivo virou cinzas. O que sobrou foi, não faz muito, literalmente despejado para um barracão nas vizinhanças. A estação da Luz, vazia de história, vai ser, por anti-histórica decisão do governo, um centro da língua portuguesa. Havia ali espaço suficiente para a nossa história e a nossa língua.

Nossa memória também se afoga. Há alguns anos uma parte do arquivo do Tribunal de Justiça de São Paulo, que estava instalado num enorme galpão impróprio na Vila Leopoldina, ficou sob as águas podres do Rio Pinheiros numa das inundações da área. Era algo previsível. Mas a Justiça foi injusta com sua própria memória. Não só a história do crime e da criminalidade foi alcançada. Também a história política. Os mais de cem preciosos volumes do Inquérito Policial-Militar da Revolução de 1924 viraram sopa. Além dos depoimentos, os documentos pessoais dos revoltosos, dos acusados, inocentes ou não, dos meramente suspeitos, dos descontentes com a ordem política iníqua da República Velha.

Funcionários administrativos tentaram salvar os documentos pondo-os para secar ao sol, diariamente, milhares de papéis. Conseguiram. Os documentos do Judiciário nos falam de desordem e repressão, portanto de busca e resistência, descontentamento e esperança, justiça e injustiça, os embates que fazem um país. Lembro com dor no peito de quando vi um prestativo funcionário do arquivo tentando separar as fotografias da Revolução, coladas umas nas outras pelas águas sujas. Pedi-lhe que não fizesse aquilo. A tentativa removia a película fotográfica e danificava completamente a imagem. Um dia haveria recursos técnicos para separar e preservar aquelas centenas de fotos. Os nossos arquivos públicos e privados se afogam também no amadorismo, nas instalações impróprias. Ali mesmo, vários volumes de processos antigos estavam cobertos de fezes de pombos, que se abrigavam no madeirame do pavilhão.

Muitos documentos do DOPS, a antiga polícia política, foram deliberadamente queimados por um policial no quintal de sua própria casa, quando a repressão decidiu acabar com as evidências das brutalidades e arbitrariedades cometidas nas masmorras da ditadura. A própria polícia colocava no lugar dos fatos a versão fabricada para se inocentar de crimes que pudessem ser apurados.

Embora uma lei federal de 1991 estabeleça que os arquivos públicos e privados de interesse histórico devam ser preservados, quem os preserva? O que faz o governo nesse sentido? Arquivos de empresas desaparecem ou estão mal cuidados. Foi o que aconteceu com boa parte do arquivo pessoal de Roberto Simonsen, grande empresário e grande pensador do nacional-desenvolvimentismo. Foi queimado.

O drama da destruição de nossos arquivos históricos não acontece por acaso. Somos um país que volta e meia quer refabricar a própria história, quer negar seu passado. Um país que prefere o passado da fabulação ideológica ao passado doloroso de dilemas e contradições. Preferimos esquecer a lembrar e interpretar. Vagamos ao acaso da história.

José de Souza Martins é sociólogo e professor da Universidade de São Paulo

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