Com os pés no chão
Lágrimas amargas
O antropólogo Roberto DaMatta analisa as reações extremadas do torcedor e da mídia depois da derrota da Seleção para a França e sai em defesa dos jogadores
Carlos Marcelo
Da equipe do Correio
Professor de antropologia social da PUC-RJ, Roberto DaMatta assistiu Brasil x França ao lado dos netos. Revela que, para eles, integrantes de uma geração que já saiu às ruas para comemorar duas copas do mundo, a vitória no jogo do último sábado era tida como certa. “Para mim, não: hoje que sou um jovem de 70 anos, estou mais consciente dos caprichos dos deuses que comandam o futebol”, conta ao Correio. “Ademais, quando vi o presidente Lula manipulando a seleção naquela ridícula entrevista em que ofendia Ronaldo e criava um clima péssimo entre o selecionado e o bom senso, com todo o canibalismo armado pela mídia em torno do selecionado, comecei e enxergar um peso insuportável do nosso sucesso futebolístico. E temi que ele fosse nos esmagar. Foi o que, tristemente, ocorreu”, comenta um dos mais renomados antropólogos brasileiros. “O sucesso tem o seu anestésico, ele situa as pessoas no cume e, uma vez lá, você só pode mesmo descer”, constata.
O mais recente livro de Roberto DaMatta, A bola corre mais que os homens (Editora Rocco), como ele mesmo define, usa o futebol como foco para discutir a sociedade, a competição, a incerteza e o estar no mundo moderno em geral. Em entrevista por email, DaMatta recusa a tese que faltou amor à camisa aos jogadores radicados na Europa (viver no exterior não faz ninguém ficar menos brasileiro, muito pelo contrário), critica o patriotismo negativo do torcedor que ficou perplexo com uma revanche inexistente e afirma que, apesar dos pesares, o que mundializa o esporte ainda é a dimensão atingida pelos jogadores brasileiros.
Por que o Brasil (o torcedor) não se enxergou no Brasil (os jogadores) que entrou em campo durante toda a Copa da Alemanha e, especialmente, no último jogo?
Porque o Brasil jogou mal e perdeu. O “torcedor”, que entrou de cabeça, corpo e alma na dimensão arrogante do nacionalismo brasileiro — um patriotismo negativo que nos coloca acima de todos os outros e não vê virtude em ninguém; ou seja, um sentimento incapaz de relativizar-se, de se colocar em relação — ficou perplexo com uma “revanche” que não a conteceu. Ora, qual é o enredo das “vinganças”? A derrota, a aniquilação total do outro, do inimigo – e isso não aconteceu naquele jogo entre Brasil e França. Em suma o Brasil reagiu mal à desagradável surpresa de jogar contra uma equipe que estava bem e foi infantilmente envolvida por ela, como aliás, ocorre em quase todos os jogos de futebol. O esporte, diferentemente da política, impede a identificação com os apáticos, os broxas, os perdedores, os incompetentes e, sobretudo, os desonestos.
O senhor acredita que o processo de globalização dos jogadores, ídolos de clubes mundiais e máquinas de fazer dinheiro, afetou a relação desse grupo com o fato de integrarem a Seleção Brasileira? Eles sentem menos identidade com seu país de origem e mais como cidadãos do primeiro mundo? A apatia demonstrada durante o jogo, e tão comentada nos últimos dias, pode ser decorrente desse processo?
Não creio que isso afete a ponto de fazê-los perder o foco e a motivação. Veja bem como sua indagação é maliciosa e, no limite, irracional: ninguém melhor do que esses jogadores sabe que foi o futebol do Brasil que os fez milionários cosmopolitas. Eles, muito mais que nós, sabem o que futebol pode proporcionar. Ademais, e disso eu posso falar com sinceridade e candura, viver no exterior não faz ninguém ficar menos brasileiro, pelo contrário: faz com que o sentimento de pertencer ao Brasil seja eventual e normalmente exaltado. Só o nosso nacionalismo às avessas pode imaginar que u m sujeito que sai do Brasil justamente porque é um representante legítimo do futebol do Brasil pode tornar-se um Calabar — um traidor — e esquecer a pátria. E isso no contexto de um jogo decisivo para o seu time, para o seu destino profissional. Esses jogadores, justamente por serem profissionais, são os mais conscientes de suas perdas. A meu ver eles seriam os últimos a pretender a derrota. Mas entre a vontade e a realidade, há a bola que, como eu digo no meu livrinho, corre mais que homens…
Em um dos ensaios incluídos no último livro, o senhor afirma que o Brasil subverteu a lógica do esporte inventado na Europa e passou a dominá-lo. Na Copa da Alemanha, contudo, quatro seleções européias chegaram às semifinais e assim o continente, ao menos por quatro anos, retoma a supremacia sobre o jogo que inventou e desenvolveu. O que isso representa para a auto-estima do europeu e do sul-americano?
Sua pergunta responde: o estilo brasileiro de jogar está hoje inscrito no futebol mundial — é exatamente isso que faz com que esses times sejam bons… É essa semelhança brasileira o marco globalizador do futebol. Ou seja: o que mundializa o futebol é essa dimensão brasileira. O dedinho indicador balançando quando o jogador marca, o pulo e o murro no ar quando explode o gol, a finta de corpo (e não de perna), o toque de bola que pretende desprezar o adversário, colocando-o no seu lugar e revelando com quem ele está jogando (ou falando), o chapéu, a bicicleta, a pedalada… Enfim, tudo o que hoje é praticado por todos mas que, de fato, foi inventado pelo Brasil. Creio que por trás da compreensível frustração da derrota, temos que ainda assim ler o triunfo do estilo brasileiro de praticar o esporte. Quanto mais não seja porque o Felipão, apóstolo do nosso estilo, propagador de nossa mensagem futebolística, mesmo não chegando à final, conseguiu participar desse momento derradeiro do campeonato.
Em entrevista ao Estado de S.Paulo, publicada no último domingo, o filósofo argentino Nestor Canclini afirma que o futebol ficou transnacional. E completa: Ronaldinho Gaúcho, hoje, é um jogador brasileiro ou um craque do Barcelona? Há tensão nessa pergunta porque certamente identidades estão sendo reconfiguradas. Concorda com a afirmação? Estamos efetivamente vivendo um período de reconfiguração de identidades?
Eu não tenho dúvida que vivemos um momento de reconfiguração de identidades. Mas, pergunto, quando é que não foi assim? No final do Império Romano, quando o Imperador se convertia à religião dos oprimidos, dos miseráveis e dos marginais, dos que acreditam na compaixão e na caridade, no amor ao próximo como valor supremo e, pior que isso, num outro mundo e num Deus único? No final da Segunda Guerra Mundial, quando a Alemanha saía do sonho nazista do Reich de mil anos? Da Renascença, quando se redescobriam valores greco-romanos e, com isso, toda a estética medieval era reescrita? Quando os europeus realizaram a partilha da África? Ou quando a família real portuguesa fugiu para o Brasil? Ser humano, já dizia Gilberto Freyre, para não ser ouvido por nenhum brasileiro, é reconfigurar-se. Só os animais e os extremistas não têm nenhuma dúvida sobre o que são e, portanto, não são “trans” alguma coisa.
Para o Nestór Canclini, cuja obra eu muito admiro, tudo é trans, multi ou pan alguma coisa. Eu não o culpo. Ele, como muitos dos meus colegas, enxergam demais, quando — penso eu — às vezes é preciso enxergar de menos. Não sei, por exemplo, como um Ronaldinho Gaúcho pode ter essa personalidade excêntrica ou ser um sujeito descentrado quando ele vive com a mãe gaúcha que todo o dia lhe prepara um filezinho com ovo, arroz e feijão no melhor estilo nacional, ele fala um espanhol que dá para o gasto… ou seja: o que conhece da cultura ibérica não deve ir além das boate s, dos bons restaurantes e das lojas de revenda de carros e roupa de grife e joga sabendo e tendo certeza que tudo o que é e faz se liga ao Brasil! Ademais, sempre que pode (e esses caras podem muito), ele se junta com seus colegas brasileiros para fazer uma roda de samba. Se há angústia no Ronaldinho é aquela de não poder voltar logo para o seu país; de ser obrigado a, de vez em quando, virar espanhol e de viver uma imensa e indizível saudade do Brasil.
O ‘torcedor’, que entrou de cabeça, corpo e alma na dimensão arrogante do nacionalismo brasileiro — um patriotismo negativo que nos coloca acima de todos os outros e não vê virtude em ninguém — ficou perplexo com uma ‘revanche’ que não aconteceu.
Bola dividida
O futebol ficou transnacional. Ronaldinho Gaúcho, hoje, é um jogador brasileiro ou um craque do Barcelona? Há tensão nessa pergunta porque certamente identidades estão sendo reconfiguradas.
Nestór Canclini, filósofo argentinoPara o Nestór Canclini, tudo é trans, multi ou pan alguma coisa. Eu não o culpo. Ele, como muitos dos meus colegas, enxergam demais, quando — penso eu — às vezes é preciso enxergar de menos.
Roberto DaMa tta, antropólogo brasileiro





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