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Como mentir com as estatísticas

Walter Barelli, O Estado de S. Paulo, 09/11/05

No chiste de Roberto Campos, “as estatísticas são como o biquíni: mostram muito, mas escondem o essencial”. Nas aulas da Universidade de São Paulo aprendíamos, a partir do livro de Darrell Huff, Como mentir com as estatísticas, de que modo a realidade podia ser distorcida, se alterássemos as escalas de uma tabela ou se comparássemos números de bases diferentes, e outras formas de manipulação passíveis de enganar pessoas menos atentas.

Um dos acontecimentos que deram publicidade a um líder metalúrgico do ABC - o hoje presidente Lula - foi sua posição contra a manipulação dos índices de inflação em 1973. A partir de documentos divulgados pelo jornalista Paulo Francis, iniciou-se uma grande mobilização sindical em pleno regime militar para recuperar as perdas salariais. Essa campanha foi responsável pela nova atitude dos sindicatos e pelo nascimento, anos depois, das Centrais Sindicais. Foi assim que Lula passou a ganhar expressão nacional, baseando sua reivindicação em estudos técnicos feitos pelo Dieese.

Esperava-se que a opinião pública não fosse mais enganada por informações falsas. Mas a história se repete e a farsa agora parte do mesmo personagem-chave que ajudou com as denúncias no tempo da ditadura. O presidente Lula e seus repetidores afirmam que este governo está criando 135 mil empregos a cada mês, quase 17 vezes mais do que os 8 mil empregos mensais criados nos dois governos FHC.

É necessário denunciar que se trata de manipulação de números e de conceitos. Primeiro, as séries do atual governo não são comparáveis com as do governo anterior. O Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), a partir de janeiro de 2002, mudou a metodologia do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados, o Caged, que mede a criação de empregos formais. Em janeiro de 2002, o Caged passou a contabilizar imediatamente todos os empregos notificados. Isso superdimensiona as notificações, pois se sabe que muitos desses postos não são realmente novos, porque podem ter sido formalizados pela ação de fiscalização ou mesmo de alterações formais no registro de empresas, com a manutenção do mesmo quadro funcional. Seriam postos de trabalho “reciclados”, não novos. Até 2001, o MTE não lançava no cadastro nenhuma primeira notificação de emprego, um procedimento que visava a compensar essa inconsistência metodológica.

Estão mentindo com as estatísticas. As séries não são comparáveis, portanto não se pode relacionar uma com a outra.

A realidade também mudou. No governo anterior, criou-se o Simples, que vem incentivando a formalização das pequenas e microempresas. Dados da Previdência Social mostram que mais de 50% dos novos contribuintes são empresas menores. É impossível afirmar se antes esses trabalhadores eram contratados sem carteira. Mas, se trabalhavam antes e agora foram formalizados, nenhum emprego foi criado. Apenas aumentou o número de trabalhadores com carteira assinada, o que também aparece nas verdadeiras pesquisas de emprego, tanto do IBGE como do Seade/Dieese.

Também o ambiente econômico é diferente nos dois governos. Enquanto FHC foi obrigado a enfrentar seis crises econômicas internacionais, no atual governo o cenário mundial é de tranqüilidade, o que exigiria um desempenho econômico pelo menos igual ao dos demais países emergentes, com um número elevado de empregos criados, o que não vem ocorrendo.

Para terminar, emprego e desemprego são levantados por índices próprios, que tanto o IBGE como o Seade/Dieese fazem mensalmente, mas somente em algumas regiões metropolitanas.

Neste governo, verificaram-se as maiores taxas de desemprego desde que ambas as instituições passaram a calculá-las. Por serem levantados somente em algumas regiões metropolitanas, não constituem o índice nacional de desemprego ou emprego. Se emprego fosse importante para a ação governamental, o desemprego seria levantado em amostras representativas de todos os domicílios nacionais, dotando o País de estatísticas que se refiram ao conjunto da população economicamente ativa.

Por sua vez, o Caged nunca objetivou medir emprego nem desemprego. É uma contagem de quem tem carteira assinada. Mede o estoque de postos formais. Pode ajudar a formar políticas contra a rotatividade e a conhecer, se comparado com a Relação Anual de Informações Sociais (Rais), as características do emprego no Brasil.

Já seria insuficiente usar o Caged para se falar de emprego, mas manipular seus dados é querer mentir para quem se impressiona com números, como forma de mascarar a realidade. Basta de mentir com as estatísticas.

Walter Barelli, deputado federal pelo PSDB de São Paulo, foi ministro do Trabalho (governo Itamar Franco) e secretário do Emprego e Relações do Trabalho do Estado de São Paulo (governos Covas e Alckmin).

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