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E ponto final.

Luiz Carlos Mendonça de Barros, Folha de S. Paulo, 27/10/06

Estatais privatizadas viraram empresas fortes e competitivas, contribuindo para o desenvolvimento

NA COLUNA de hoje, faço uma última reflexão sobre o processo de privatização. Não tenho dúvida de que, após o segundo turno das eleições, esse tema deixará de ter uma presença maior nas discussões sobre os destinos do Brasil. E por que digo isso? Porque o objetivo do presidente Lula, com sua violenta campanha contra a venda das principais estatais brasileiras, já terá sido atingido: ganhar os votos da parte da esquerda que não votou nele no primeiro turno.

Mas meu objetivo não é denunciar a mais nova esperteza eleitoral de nosso presidente, mas deixar plantadas algumas sementes de racionalidade. O Brasil, ao longo de 50 anos, soube utilizar-se de forma eficiente da presença do Estado na economia. Entre 1940 e 1950, as empresas estatais foram responsáveis por tirar o Brasil de um subdesenvolvimento clássico. Vale do Rio Doce, Fábrica Nacional de Motores, Companhia Siderúrgica Nacional e Petrobras foram instrumentos para o Brasil entrar na era industrial.

Posteriormente, com Juscelino, esse processo foi reforçado com a presença do setor privado, nacional e internacional, chamado para tornar mais eficiente e intenso esse movimento em direção a uma economia moderna. Naquele momento, o Estado não tinha capacidade financeira para levar seus investimentos além das fronteiras já desbravadas, e Juscelino percebeu isso. Homem de visão foi esse mineiro de Diamantina.

Sob a ditadura, a presença do Estado na economia voltou a crescer, dessa vez a partir dos sonhos de potência mundial dos militares da Escola Superior de Guerra. Foi um desastre de proporções amazônicas, e bilhões de dólares de dinheiro público foram enterrados em projetos megalomaníacos e sem sentido econômico. Pior ainda, nossas fronteiras foram fechadas para viabilizá-los e o Brasil atrasou-se décadas no processo de integração com a economia mundial. A aventura culminou com a crise da dívida externa e a paralisia dos investimentos estatais nos anos 80.

Nos anos 90, houve uma reversão desse processo, com a privatização de um grande número de empresas públicas, acelerada a partir de 1995, no governo FHC. Com a economia brasileira sendo vista como uma das que mais poderiam aproveitar-se do processo de globalização, foi possível chamar o setor privado para assumir o controle de empresas como a Vale, a Telebrás, as grandes siderúrgicas, as empresas petroquímicas, a Embraer e outras menores.

O objetivo principal desse movimento estratégico era dotar as empresas de capacidade financeira e gerencial para expandir suas atividades e enfrentar a crescente competição mundial, com benefícios para o país.

Como subproduto desse programa, o governo poderia obter uma redução da dívida pública do governo federal, parte dela criada no passado para sustentar os grandes prejuízos dessas mesmas empresas. Cito como exemplo o aporte de mais de US$20 bilhões, feito nas empresas siderúrgicas antes da privatização, para compensar seu patrimônio líquido negativo em razão dos prejuízos altíssimos do passado.

Eram os chamados esqueletos, a maioria deles criada ainda na época dos militares e escondida em câmaras frigoríficas no Tesouro. O governo FHC teve a coragem de trazê-los à luz.

Mas não poderia terminar estas minhas reflexões sem citar um exemplo exitoso de uma ex-estatal brasileira: a Embraer. A empresa tem hoje mais de 18 mil empregados (mais que antes da privatização), exporta bilhões de dólares e é uma das líderes mundiais desse setor de alto conteúdo tecnológico.

Como isso é possível em um país pobre como o Brasil?, perguntou-me um economista inglês recentemente. Minha resposta foi simples e direta. Isso é possível porque o governo fez inicialmente uma escola de qualidade - o ITA - para criar uma inteligência na área de aeronáutica. Muitos anos depois, quando já havia massa crítica de conhecimento, foi criada uma empresa estatal para acumular conhecimento no campo da produção de aviões. E, finalmente, quando a empresa já produzia aviões, foi privatizada para que tivesse condições de enfrentar seus concorrentes estrangeiros.

Essa é a receita de bolo que serviu para que antigas estatais, criadas quando não havia condições para uma empresa privada assumir essa responsabilidade, transformassem-se em empresas fortes e competitivas, mudando o rumo de nossa economia e contribuindo para o desenvolvimento nacional. A privatização foi a última e crucial etapa desse ciclo.

LUIZ CARLOS MENDONÇA DE BARROS, 63, engenheiro e economista, é economista-chefe da Quest Investimentos. Foi presidente do BNDES e ministro das Comunicações (governo FHC).
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http://www1.folha.uol.com.br/fsp/dinheiro/fi2710200606.htm

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