Eu me deixei trair
— Fui traído, reclamou Lula no pronunciamento à nação.
Em outras palavras: não tenho nada com o que está acontecendo. Caixa 2, compra de votos, evasão de divisas, pagamento de mensalões? Estou fora.
Brasileiros vão atrás. Repetem a frase presidencial de norte a sul do país. Falam como se não tivessem responsabilidade com o quadro que escandaliza até os PCs Farias da vida.
A voz passiva se presta ao escapismo. O sujeito não pratica a ação. Sofre-a. Quem faz e acontece é o agente. No caso, não sou eu. É o outro. Quem? Sei lá. A coisa ganha dimensão diferente quando se diz:
— Eu me deixei trair.
Na voz ativa, a culpa deixa de ser do outro. Passa a ser do falante. Aí reside o xis da questão. O presidente é, sim, responsável pelo que acontece no governo. Chefe, tem a caneta na não. E tem a última palavra. Se abdicou do poder que as urnas lhe concederam, precisa conjugar o verbo assumir. Bancar a vítima não convence ninguém. Só dá raiva.
E nós? Jogamos no mesmo time. Não fomos traídos. Nos deixamos trair. Compramos um produto embalado pelo Duda Mendonça. Sem questionar, acreditamos na propaganda. Talvez confiando nos acessórios — quadros do mais alto quilate. Lula lideraria um senhor ministério. Seria o primeiro governo de um não descendente da linhagem direta de Pedro Álvares Cabral.
Qual o quê! Lula inchou o Estado. Criou ministérios inúteis. Recheou-os com companheiros medíocres (boa parte derrotada nas urnas). O PT só teve 20% dos votos nacionais. Mas abocanhou 80% dos postos. Com desprezo pela democracia, o presidente esnobou o Congresso. Abusou como ninguém das medidas provisórias.
Deixou os aliados (co-responsáveis pela vitória petista) chupando o dedo. Mas (surpresa?) eles ajudaram a pisar a Constituição. Aprovaram projetos pra lá de polêmicos. Entre eles, a taxação dos aposentados. A troco de quê? De mensalões, tráfico de influência e pagamento de propina. Nós não vimos nada. Ou melhor: não quisemos ver. Azar nosso. Paguemos a conta.





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