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Farc ensina seqüestro a PCC e CV, afirma juiz

Agência Estado, 03/07/05

Por José Maria Tomazela, enviado especial Ponta Porã, 3 (AE)

O juiz federal Odilon de Oliveira, de Ponta Porã, na fronteira de Mato Grosso do Sul com o Paraguai, obteve evidências da atuação de guerrilheiros das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) no treinamento de bandidos ligados ao Primeiro Comando da Capital (PCC) e ao Comando Vermelho (CV) para seqüestros. Segundo as apurações de Oliveira, quadrilhas de narcotraficantes do Brasil são os principais clientes da América do Sul na compra da cocaína produzida pela facção colombiana.

“Um dos treinamentos foi filmado e dá para se ouvir, no vídeo, a voz de um brasileiro”, contou o juiz. Seqüestros com fins econômicos garantem uma receita anual de US$250 milhões para as Farc, o equivalente a 25% do orçamento da facção. O juiz acredita que a guerrilha colombiana pode estabelecer bases no País para fazer seqüestros, tanto com fins econômicos como políticos.

“Eles já estão estabelecidos no Paraguai e agora miram o Brasil, onde o potencial para esse crime é maior”, disse. “Eles treinam brasileiros lá para agir aqui.” A cocaína representa outros 45% da receita das Farc, que produzem 39% da droga colombiana. Segundo Oliveira, os traficantes brasileiros passaram a negociar com a guerrilha a compra da droga, eliminando os intermediários colombianos. A cocaína é levada para o Paraguai antes de chegar ao Brasil. O pagamento é feito em dólares ou armas de guerra. Um exemplo é o bando de 12 integrantes liderado por Luiz Carlos da Rocha, o Cabeça Branca, e Carlos Roberto da Silva, o Charles, que usava sete aviões para levar a droga da Colômbia para o entreposto paraguaio. Ela comprava das Farc e, em menor escala, de produtores da Bolívia e do Peru. A droga entra no Brasil pela fronteira com Mato Grosso do Sul, principalmente pelas regiões de Ponta Porã e Corumbá, e é levada para São Paulo e Paraná, para distribuição no País e no exterior. De acordo com Oliveira, o tráfico por aviões migrou para o Sul por causa da Lei do Abate, que permite à Força Aérea Brasileira derrubar aviões não identificados.

“A região amazônica é bastante vigiada pelos sistemas de rastreamento de aeronaves.” Mas a cocaína também cruza a fronteira de carro e ônibus, em pacotes de 10 a 50 quilos. O juiz lembra que os grandes traficantes deixaram de trabalhar com maconha, preferindo a cocaína, que tem menor volume e grande valor agregado. Mas cerca de 80% da maconha que entra no Brasil sai do Paraguai, onde a produção é dominada por brasileiros. Odacir Antonio Dametto, de Dourados (MS), tem 19 fazendas em terras paraguaias usadas para produzir soja e maconha. Extraditado, está no presídio de segurança máxima de Campo Grande. Outro criminoso que seria extraditado, Igor Fabrício Vieira Machado, comparsa do traficante Fernandinho Beira-Mar, conseguiu fugir de um presídio de Assunção assim que soube do pedido. Teria pago US$50 mil para escapar.

O juiz também tem pistas da ligação de traficantes com o terrorismo do Oriente Médio, a partir da prisão de bandidos de origem árabe, como Joseph e Jorge Rafaat Toumani. “Há indícios de remessa de dinheiro para sustentar o terrorismo.”

Segundo Oliveira, o Banco Central apontou Ponta Porã como a segunda cidade do País em lavagem de dinheiro, atrás de Foz do Iguaçu (PR). Ele encheu uma sala de 12 metros quadrados com processos sobre esses crimes. Um dos casos, envolvendo o ex-gerente de banco Elesbão Lopes de Carvalho Filho, revelou a lavagem de R$3 bilhões do tráfico. Oliveira o condenou a 172 anos de prisão e multa de R$358 mil, a maior pena já aplicada para esse crime. O esquema envolveu somas altíssimas depositadas em contas de laranjas - os principais, como Rodolfo Castro Filho e Pedro Paulo Romero, receberam R$1 bilhão em semanas. O juiz suspeita que os laranjas também estivessem a serviço de políticos.

Ostentação - O traficante Fahd Jamil Georges, o Turco, condenado a 20 anos e 3 meses de prisão e multa de R$233 mil pelo juiz federal Odilon de Oliveira, mandou construir uma mansão inspirada na Casa Branca, sede do governo americano, em Ponta Porã (MS). A casa, tem escadarias de mármore de Carrara com corrimão banhado a ouro. Avaliada em R$5,8 milhões foi confiscada pelo juiz assim como R$2,1 milhões encontrados em uma conta bancária do traficante e outros oito imóveis. Turco era considerado “dono da cidade” e depositava só em uma agência bancária R$1 milhão por mês. Andava em Mercedes blindadas, sempre cercado de seguranças. Desde a sentença, publicada no início de junho, está foragido. O juiz acredita que ele se escondeu no Paraguai ou fugiu para o Oriente. Turco comandava uma rede de tráfico que incluía políticos como Landolfo Fernandes Antunes, de Ponta Porã, que está preso.

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