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Fundamentalismo ou nacionalismo?

Luiz Carlos Bresser-Pereira, Folha de S. Paulo, 20/08/06

Os europeus conquistaram os povos da América em nome do cristianismo; agora a conquista é realizada em nome da democracia

HOJE ESTÁ claro o sentido da “guerra ao terrorismo” que o presidente Bush declarou em 2001. É a forma através da qual os Estados Unidos, a Grã-Bretanha e Israel exercem supremacia sobre os países muçulmanos do Oriente Médio. Os motivos podem variar: o petróleo aparece sempre em primeiro lugar; para os Estados Unidos, existe um problema de húbris nacional; para Israel, um problema de segurança. A justificativa, porém, não apresenta novidade. Da mesma forma que os colonizadores europeus conquistaram os povos da América em nome do cristianismo, agora a conquista é realizada em nome da democracia.

Já o sentido do “terrorismo” é menos claro. Esse é um fenômeno ambíguo e contraditório que as potências envolvidas têm todo o interesse em definir como movimentos religiosos islâmicos fundamentalistas. Dessa forma, o problema é reduzido a uma “guerra de civilizações” ou à luta do bem contra o mal, que tudo justifica. Minha interpretação é diferente.

Os movimentos islâmicos são essencialmente movimentos políticos nacionalistas empenhados na luta para dotar as respectivas nações de um Estado que lhes sirva de instrumento de ação coletiva. A religião está fortemente presente, mas é a arma ideológica usada na sua luta pela soberania nacional. Não há novidade nessa prática. A primeira nação moderna, a Inglaterra, fundou uma igreja -a Igreja da Inglaterra, que até hoje é a religião oficial da Grã-Bretanha- para afirmar a sua própria independência em relação ao papado e mais amplamente ao continente europeu.

A luta pela libertação nacional será tanto mais dura quanto mais perniciosa for a dominação estrangeira. No Oriente Médio, ela tem sido profundamente desestruturadora do tecido social nacional. Antes de serem submetidas, essas sociedades possuíam instituições, ainda que precárias. A dominação externa as destruiu sem ter sido capaz de substituí-las por outras, implantou um sistema generalizado de corrupção e abriu espaço para a ação de “senhores de guerra” (“war lords”) e para o restabelecimento e a prosperidade do tráfico de drogas. Foi o que aconteceu com o xá que o imperialismo impôs ao Irã; foi o que vimos recentemente no Afeganistão e na Somália; é, somado a uma guerra civil, o que estamos vendo no Iraque depois da sua invasão pelos exércitos dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha.

Não é preciso ler publicações de esquerda para saber disso: basta ler “The Economist”. No seu número de 14 de julho, por exemplo, há uma grande reportagem sobre o Afeganistão. Depois de um período em que a ocupação estrangeira parecia ter êxito, havendo sido capaz de eleger um governo, a situação deteriorou-se nos últimos meses. O Taliban está de volta. Já domina grande parte do sul do país, financiando-se pela imposição de tributos ao tráfico de drogas, que ele próprio condena. Como explicar o poder desse grupo fundamentalista que agora renasce? O fundamento religioso nada explica; não há no Islã nada que leve necessariamente à violência ou à Jihad. Sempre houve movimentos islâmicos violentos, mas os movimentos cristãos igualmente violentos não lhes ficam nada a dever.

Só o nacionalismo pode explicar a força do Taliban. Esse grupo sabe que, quando uma nação consegue se dotar de um Estado e de um território, ela terá o instrumento necessário para buscar os objetivos nacionais de ordem e desenvolvimento. A religião muçulmana é o instrumento intermediário que o Taliban usa para transformar o povo afegão em uma nação e dotá-lo de um Estado realmente autônomo. Para isso, a rigidez religiosa é útil. Quando faltaram instituições civis, a alternativa sempre foi buscar as religiosas. Os inimigos não são apenas as potências imperiais. São também os colaboradores internos, como o atual presidente afegão, cujo governo já está imerso na corrupção e comprometido com os senhores de guerra que vivem do tráfico de drogas. O próprio Taliban se aproveita do tráfico, mas, quando estava no governo, não hesitava em condenar à morte os traficantes. Hoje, sob o domínio democrático das potências imperiais, o tráfico corre solto: a desmoralização nacional é profunda.

A indignação dos povos árabes contra a dominação estrangeira -não apenas nos países citados mas em muitos outros países árabes- é profunda e, sendo impotente, acaba se manifestando através do terrorismo. Não é, porém, com a “guerra ao terrorismo” que esse fenômeno terrível poderá ser enfrentado, mas com uma revisão radical da forma pela qual os Estados Unidos e a Grã-Bretanha encaram suas relações com os países do Oriente Médio. O nacionalismo árabe só abandonará a violência fundamentalista que hoje o caracteriza se esses dois países compreenderem que não precisam dominar a região para ter acesso ao seu petróleo. E que a sua segurança só aumentará com essa mudança.

LUIZ CARLOS BRESSER-PEREIRA, 72, professor emérito da Fundação Getúlio Vargas, ex-ministro da Fazenda (governo Sarney) e da Reforma do Estado e da Ciência e Tecnologia (governo FHC), é autor de “As Revoluções Utópicas dos Anos 60” (Editora 34), entre outras obras.

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz2008200609.htm

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