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Futebol: Conflito social ritualizado

José de Souza Martins, O Estado de S. Paulo, 07/07/06

Não é casual que a cada quatro anos, na Copa do Mundo, os brasileiros se encontrem acima das classes e das diferenças sociais, identificados com um time só, recobrando sua estranha identidade cíclica através dessa modalidade ritual de guerra, que é a disputa futebolística. O futebol, nascido na Inglaterra, é uma invenção da conflitiva sociedade industrial. Nela desempenha as funções rituais de afirmação de identidades ameaçadas pelas tensões que a constituem e solapam ao mesmo tempo. O futebol tem sentido nessa sociedade. Em outras, seu sentido e função social acabam sendo reinventados.

Uma das surpresas de um amigo antropólogo, estudando a sociedade dos índios Xerente, no Brasil Central, foi justamente o modo como a tribo assimilou o futebol. Não havia dois times, mas um só. E todos corriam atrás da bola, disputando-a entre si e perseguindo-a para chutá-la no gol. O futebol não tinha sentido para eles porque uma partida pressupõe uma situação de conflito. Nas sociedades tribais não há conflitos internos do tipo que conhecemos em nossa sociedade dita civilizada. São sociedades simples, organizadas em bases comunitárias e de cooperação. As diferenças são de outro tipo. O futebol foi por eles assimilado como a representação ritual de uma caçada, que tinha sentido, já que, com a expansão territorial dos brancos, caçar se tornava cada vez mais difícil.

Mas também na nossa sociedade competitiva e conflitiva há inventividade e criatividade social em torno do futebol. A TV Cultura apresentou há poucas semanas um excelente documentário sobre esse esporte, rodado em dois bairros vizinhos na periferia de São Paulo. Trata-se de Preto contra Branco, de Wagner Morales (Co-produção: Pólo de Imagem/Fundação Padre Anchieta–TV Cultura, 2004). É um filme sobre os moradores de dois bairros de trabalhadores da cidade de São Paulo, o bairro de São João Clímaco e a favela de Heliópolis. Esses bairros basicamente se originaram nos anos cinqüenta, quando do “boom” da indústria automobilística na vizinha região do ABC, em boa parte com a numerosa imigração do Nordeste e de Minas Gerais, com acentuado número de mulatos e negros.

Em 1972, os moradores do bairro, que costumam se encontrar, depois do trabalho, num dos botecos da região para conversar e bebericar, tomaram uma decisão insólita: realizar, no último fim de semana antes do Natal, uma disputa futebolística de pretos contra brancos. A maioria deles nasceu ali mesmo, brincaram juntos nas ruas e nos campos de várzea, começaram a trabalhar cedo na vida. No botequim, como são amigos e como é comum nos bairros operários, passam o tempo falando de futebol. Quando os ânimos se acirram, no desencontro de opiniões, lá vem a desvalorização do outro com alusões depreciativas de natureza racial. ‘Você é descendente de macaco…” “Tua mãe…” E por aí vão. Numa sociedade atravessada por preconceitos, o preconceito não é só contra negro. É também contra branco.

É o conflito racial explodindo no interior de uma situação social de classe que amarra reciprocamente os destinos de brancos e negros, independentemente de cor e raça. Estão irremediavelmente juntos, porém antagonizados por separações e diferenças persistentes, bem mais antigas do que as que foram produzidas pela industrialização. Tudo terminando em risadas, abraços e afagos. Mas a virulência dos estereótipos negativos, sobretudo contra os negros, é ainda hoje evidente, mesmo com muita ironia no meio, jeito de remendar a conflitividade e as rupturas.

Sociologicamente, o filme etnográfico de Morales documenta como o futebol, dessa experiência social singular, exacerba propositalmente a polarização racial, com expressões de rancor recíproco. Na forma de um confronto esportivo, esse rancor é canalizado para a moldura social de uma disputa, em que as duas partes que se hostilizam são reciprocamente necessárias, pois sem uma a outra não pode jogar esse jogo.

De certo modo, uma vez por ano o grupo organiza ritualmente a expressão exacerbada do preconceito racial para, em seguida à partida, realizar no boteco ou num churrasco comunitário a segunda parte do ritual. Nela, o reforço da amizade, ameaçada pela estigmatização da raça, a comunhão do comer e beber juntos, no comentário bem humorado sobre os desacertos da partida e os xingamentos racistas. Nesse rito de dois momentos sucessivos, levam ao extremo o antagonismo. Em seguida, restabelecem, como vizinhos e trabalhadores que cresceram juntos, a comunidade vicinal que em seu cotidiano se sobrepõe às diferenças, rancores e dissensões raciais. Como houve ali muitos casamentos interraciais, não havendo na situação do jogo lugar para o meio termo, a nova geração de mulatos deve optar pelo grupo com que se identifica, rebuscando no fundo da consciência o pertencimento racial, para serem diferentes por opção e não por estigmatização.

O futebol chegou ao Brasil no momento em que se constituía entre nós a sociedade de classes. As diferenças sociais foram imediatamente assimiladas pelos confrontos do novo esporte. A politicamente mais significativa foi a dos clubes de fábricas do operariado que nascia. Geraram identidades que sobrepunham à classe social e à origem nacional ou regional a referência da comunidade trabalhadora de um mesmo estabelecimento fabril em disputa com outro.

Através do futebol, o conflito de classes foi drenado para a competição entre os próprios operários, em nome das fábricas em que trabalhavam. A mais importante das virtualidades do futebol aparece aí. Desse modo, conflitos histórica e politicamente propostos como conflitos de ruptura social, se transformam em conflitos ritualizados, socialmente confinados e repetitivos, fora do eixo de referência social da classe. O futebol se transformou na cerimônia que exorciza o conflito principal, o conflito da ruptura estrutural, desviando-o para formas de conflito rotineiro e reparatório, de reconstituição cíclica do tecido social rompido.

José de Souza Martins é professor titular do Departamento de Sociologia da USP

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