Golias e o humor do homem simples
Ronald Golias representou de modo perfeito alguns tipos que constituem o cerne do modo de ser e de pensar do homem comum na demorada e inacabada transição da sociedade brasileira para a modernidade. Fixou um modo de vida característico dessa população, a rua como cenário de um viver sem medo e ingênuo, recados sendo mandados para a mãe mediante o berro: “Ô Cride, diz pra mãe…” E lá vinha uma notícia insólita, desgrudada do cotidiano e da vida familiar, a rua como lugar de banalização da informação. Nesse grito, era também o moleque de vizinhança, verdadeiras instituições – rua e vizinhança – que declinaram com os prédios de apartamentos, as ruas tomadas pelos carros e subtraídas ao lazer da molecada.
Desse personagem, Golias reproduziu em outro, o Bronco, da família Trapo, o componente propriamente da rua: falava num tom acima do tom da fala dos atores com os quais contracenava, como se estivesse sempre na rua e como se o interlocutor estivesse longe. Levava a rua para dentro de casa e nisso ressaltou a importância que teve e continua tendo a rua na socialização e no modo de vida do homem simples. A casa como o oposto do que é nas sociedades e nas classes sociais que deram origem à vida privada e a cultivaram como lugar do decoro, proteção contra a plebe. Mas a rua como cenário da consciência debochada porque crítica.
Como é próprio do humor popular, o humor de Golias estava no falsete desse estar fora do lugar. Na “Família Trapo” (e em “O Cunhado”), Golias era o incômodo parente que parasitava a família da irmã que, pelo casamento com o estrangeiro rico, experimentava a ascensão social. Era a sobrevivência do que a família queria esquecer, a origem humilde, os costumes grosseiros. A vida familiar e privada desconstruída continuamente pelo cunhado que trazia a rua para dentro de casa nos gestos, na mentalidade, no desalinhamento do vestir, no falar alto. À luz de seu modo de ser os êxitos econômicos do marido da irmã não pareciam frutos justos do trabalho e da competência, mas resultados de uma conduta que não se diferençava da do boa vida e oportunista.
De certo modo, Bronco era o questionamento da ideologia da ascensão social pelo trabalho, que começou a surgir entre nós nas últimas décadas do século dezenove, com o fim da escravidão. Era ela a única promessa que nossa tropical sociedade podia fazer aos novos trabalhadores livres. Em troca, o trabalho árduo mal remunerado permitiu um adiamento consentido do tempo de colheita dos frutos do sacrifício e da privação. Essa mentalidade sobreviveu desde a abolição da escravatura até o final dos anos cinqüenta. Teve seu grande momento na era Vargas, quando Golias começava sua carreira artística.
O contraponto de Bronco em relação ao cunhado mostrava o quanto de postiço havia naquela família que fingia ser o que não era e que procurava corresponder às complicadas exigências de comportamento de quem mudara de posição e de situação social, tentando esconder o que fora, o grosso, o cafona. As caretas e os trejeitos de Golias deram a mais expressiva face que se poderia dar à duplicidade humana que pode haver naqueles que subiram na vida e precisam aparentar o que não são ou não sabem ser.
Num outro personagem de Golias, o professor Bartolomeu Guimarães, decrépito e antiquado, um homem vivendo fora de seu tempo, alheio às mudanças de costumes e de mentalidade, encontramos uma outra dimensão das grandes mudanças sociais que sustentavam o humorismo de Golias. A modernidade que ri dos imodernos, instituiu o duplo sentido na comunicação humana, na conversação, no trato entre as pessoas. A historinha da procissão de São Benedito, tantas vezes lembrada nos desempenhos do ator, é antológica. Ao ver passar a procissão, o velho professor sai à rua e grita inocentemente para todos ouvirem: “Mangueira!”. Quase foi linchado, por acharem os devotos que era ofensiva referência à religião e ao santo preto, como se o formalíssimo mestre na sua habitual confusão pensasse tratar-se de uma escola de samba e de um desfile de carnaval. Reiniciado o cortejo, a imagem do santo carregada no andor bate a cabeça no galho de frondosa mangueira, cai e se espatifa, pois o perigo para o qual os alertara o desligado ancião não fora percebido pelos piedosos, compenetrados e cabisbaixos participantes do ato de fé.
Golias personificou em seus tipos essa dupla característica dos insuficientemente socializados, dos marginalizados das sociedades transicionais: fora do lugar e fora do tempo. São os deslocados em face da história que os deixa de lado e os deixa para trás, que os priva de participação e compreensão de como de fato essa história é. Golias retoma a matriz do humor brasileiro que floresce nos anos vinte sobretudo com Cornélio Pires, que elegera o atrasado caipira como a figura de referência do nosso humor nos descompassos e injustiças da modernização seletiva e elitista. Golias não é, porém, o caipira contrapontístico de Cornélio Pires. Já é o homem comum urbano que, sem substanciais mudanças de identidade, agregou-se à sociedade do êxito pessoal, mal assimilado espertalhão e boa-vida pela elite dos novos ricos. Ele é o lembrete de uma história que não acabou, uma sobrevivência, um filósofo da acomodação, um intelectual do riso, não do silêncio.
Ele foi também, provavelmente, o último protagonista competente do homem simples, como figura de referência de uma cultura popular que ganhou seu melhor espaço no rádio e na televisão, na careta crítica e na fala descontextualizada que, em vez de assumir a pauta de quem define convenções e de quem manda, improvisa sua própria pauta e sua liberdade. Mas o homem simples já não é a figura da sociedade civil bem humorada. Mudou-se para Brasília, virou Estado e governo, presidente e deputado, convertido no seu contrário, na melancólica sisudez da governança. O homem simples criou seu próprio espetáculo, seu próprio fingimento e já não faz rir. Nem por isso se tornou sério.
José de Souza Martins é professor titular de Sociologia da Faculdade de Filosofia da Universidade de São Paulo





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