Irã x EUA
O mundo vive hoje em crescente estado de insegurança e incerteza pela multiplicação de focos de tensão e de conflitos localizados: terrorismo, proliferação de armas de destruição em massa, Iraque, Líbano, Israel, Palestina, Coréia do Norte, Irã, Estados falidos (Sudão e Haiti). De todos os “hot spots”, talvez o Irã seja o mais delicado, pelas imprevisíveis conseqüências do agravamento da crise atual com os EUA.
A firme decisão do governo do Irã de manter seu programa nuclear e levar adiante atividades de enriquecimento e reprocessamento de urânio, o que, na prática, daria a Teerã o domínio do ciclo nuclear e a capacidade de produzir bombas nucleares, foi contestada pelos EUA, com base na violação do Tratado de Não-Proliferação (TNP) e na ameaça à segurança da região.
Com o apoio dos membros permanentes do Conselho de Segurança se abriram negociações com a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) e com a ONU. Depois de sucessivas rodadas de negociações, foi estabelecido pela ONU um prazo, que expirou em 31 de agosto, para o Irã suspender o enriquecimento e o reprocessamento.
Os EUA insistem na aplicação de sanções, mas a Rússia e a China não deverão apoiá-las. Na tentativa de evitar a escalada da crise, a União Européia solicitou conversações adicionais com Teerã, deixando Washington isolado. Dificilmente, porém, as sanções da ONU ou a suspensão de algumas negociações comerciais com a Europa e o Japão poderão convencer Teerã a suspender o processo de enriquecimento de urânio. A maior e mais imediata preocupação do Irã é sustar um ataque militar contra as instalações nucleares por parte dos EUA ou de Israel e evitar que o Conselho de Segurança decida impor sanções.
Com uma visão de longo prazo, o Irã apresenta-se como uma potência regional e como o grande fornecedor de petróleo na Ásia. A liderança civil e religiosa iraniana tem enfatizado o direito inalienável de desenvolver o programa nuclear. Com isso busca reforçar sua própria legitimidade, estimular o sentimento nacionalista e mostrar o grau de desenvolvimento industrial e tecnológico. O programa visa também a ser percebido como uma opção de dissuasão contra adversários nucleares, como EUA e Israel.
A crescente influência iraniana, sobretudo no Iraque e no Líbano, despertou preocupação nas capitais árabes de maioria sunita. A retórica anti-Israel, que objetiva ganhar respaldo para o Irã entre a opinião publica árabe, preocupa Tel-Aviv e, por conseguinte, Washington. Indo além do Oriente Médio, o Irã coloca-se como um campeão das nações em desenvolvimento e construiu fortes laços com a Índia, a China e a Venezuela.
Tendo em mente o precedente aberto no TNP pelos EUA ao reconhecer a Índia como potência nuclear, apoiando-a técnica e politicamente, o Irã recusou aceitar qualquer precondição para iniciar conversações sobre a suspensão de seu programa nuclear. Apesar de tudo isso, Teerã tem procurado evitar uma confrontação militar com Israel ou os EUA e permanecer dentro dos limites do TNP, apesar das repetidas ameaças de se retirar do regime de não-proliferação.
Do lado norte-americano, posições igualmente fundamentalistas, apoiadas por grupos ultraconservadores (neocons), têm prevalecido e a retórica oficial está se tornado cada vez mais agressiva em relação ao Irã, reiteradamente chamado de “eixo do mal”. Ao anunciar, em março, a atualização de sua Estratégia de Segurança Nacional, reiterando a política de ataques preventivos e prevendo “confrontação” com o Irã, caso os esforços diplomáticos não convençam o país a abrir mão do programa nuclear, Bush adotou linguagem mais dura do que a utilizada em setembro de 2002 em relação ao Iraque. Mais recentemente, no início de setembro, ao divulgar a nova Estratégia Nacional para combater o terrorismo, Bush elevou o tom, referindo-se aos fascistas islâmicos e comparando a ameaça dos líderes iranianos com o perigo representado pelos terroristas da rede Al-Qaeda. Os EUA não tolerarão essa situação, afirmou Bush. O Congresso divulgou relatório afirmando que o Irã está enriquecendo urânio em porcentagem necessária para produzir a bomba, o que levou a AIEA a denunciar o trabalho como equivocado e com informações falsas.
Na percepção do atual governo de Washington, a luta entre Israel - fortemente apoiado pelos EUA - e o Hezbollah - respaldado pelo Irã - é uma guerra indireta entre os EUA e o regime teocrático de Teerã, visto por Bush como a ameaça mais séria à estabilidade na região e aos interesses estratégicos dos EUA. Diante das dificuldades políticas, Washington deverá desenvolver uma dupla estratégia: continuar as conversas, por intermédio da Europa, e gradualmente aumentar o peso das sanções, como a proibição de viagens para a liderança iraniana, o congelamento de bens no exterior e as restrições financeiras aos bancos iranianos.
Não parece possível um ataque preventivo norte-americano nem uma tentativa de mudar o regime iraniano, como ocorreu no Iraque, dado o atual engajamento militar dos EUA em mais de um cenário de guerra. A possibilidade de um ataque cirúrgico às instalações nucleares iranianas, como fez Israel em 1985 no Iraque, contudo, está sendo discutida abertamente em Washington. Embora sendo altamente improvável que todas as instalações (algumas subterrâneas) sejam destruídas na hipótese de um ataque, as conseqüências militares, políticas, econômicas certamente são imprevisíveis. “Nunca descarte no Irã a opção mais irracional, pois a escolhida pode ser ela”, ouvi de um diplomata.
Caso se fortaleça a percepção de que o programa nuclear iraniano levará à construção de artefato nuclear, ameaçando concretamente Israel, os EUA não hesitarão em atacar com mísseis de alta precisão as instalações nucleares no Irã, apesar de vozes moderadas ou realistas verem um eventual ataque preventivo como um ato contrário aos interesses maiores dos EUA.
Rubens Barbosa, consultor, presidente do Conselho Superior de Comércio Exterior da Fiesp, foi embaixador do Brasil nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha
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