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Machado, cultura e política

Marco Maciel, Folha de S. Paulo, 08/12/08


O culto que prestamos a Machado de Assis propicia uma reflexão sobre pontos de interseção entre o mundo da cultura e o da política

O TRANSCURSO do centenário da morte de Machado de Assis parece unir o sentimento de toda a nação ao fazer memória da vida e obra do escritor, fundador e primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras (ABL). Pela densa contribuição ao enriquecimento cultural do país, à vertebração da identidade de nosso povo nas diversas áreas da literatura e das artes, o criador e a criatura, o homem e a instituição constituem efemérides que não podem deixar de ser festejadas.

Joaquim Aurélio Machado de Assis, no seu primeiro discurso na ABL, afirma que o desejo da casa é “conservar, no meio da federação política, a unidade literária” e que “o batismo de suas cadeiras [...] é indício de que a tradição é o seu primeiro voto”.

Em fins de 1897, Machado anuncia que a “Academia [...] buscará ser, com o tempo, a guarda da nossa língua. Caber-lhe-á, então, defendê-la daquilo que não provinha das fontes legítimas -o povo e os escritores-, não confundindo a moda, que perece, com o moderno, que vivifica”. “Guardar” -salienta- “não é impor; nenhum [...] tem para si que a academia decrete fórmulas. E, depois, para guardar uma língua, é preciso que ela se guarde também a si mesma, e o melhor dos processos é ainda a composição e a conservação de obras clássicas.”

Joaquim Nabuco, então secretário-geral da ABL, observa: “A pátria e a religião são, em certo sentido, cativeiros irresgatáveis para a imaginação, condições do fiat intelectual”. E acrescenta: “A política, isto é, o sentimento do perigo e da glória, da grandeza ou queda do país, é uma fonte de inspiração de que se ressente em cada povo a literatura toda de uma época, mas, para a política pertencer à literatura e entrar na academia, é preciso que ela não seja o seu próprio objeto; que desapareça na criação que produziu, como o mercúrio nos amálgamas de ouro e prata”.

Neste ano, importa igualmente assinalar, foram assinados na sede da ABL, pelo presidente da República, quatro decretos que tratam do novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. Acordo esse que unifica nos países falantes do idioma a forma oficial da escrita, objetivo pelo qual a academia tanto se empenha por considerar ser a língua fundamental para nossa maior presença nesses tempos de mundialização. Além disso, a ABL realiza, por iniciativa própria ou em parceria com entidades públicas ou privadas, encontros que aviventam no Brasil o debate e o estudo da fecunda obra do “bruxo do Cosme Velho”.

A “cultura une e a política divide”, disse com o seu habitual ceticismo o filósofo italiano Norberto Bobbio.

Sem desejar infirmar tal sentença, cabe, por oportuno, recordar que o culto que prestamos a Machado de Assis propicia uma reflexão sobre pontos de interseção entre o mundo da cultura e o da política, já que ambos se alojam no campo dos valores sem os quais não se torna possível o travejamento de autênticas sociedades democráticas nem se convive sob o sol da liberdade.

Ademais, é necessário ter presente que se deve buscar entre o que nos separa aquilo que nos pode unir, porque, se queremos viver juntos na divergência, princípio vital das sociedades abertas, estamos condenados a nos entender.

Conquanto tivesse Machado de Assis “tédio à controvérsia”, como certa feita revelara, sempre demonstrou, ao contrário do que alguns asseveram, seu interesse pelas grandes questões nacionais e expendia, com freqüência, suas opiniões.

Em “O Velho Senado”, livro novamente reeditado pelo Senado, retratou com argúcia e verve as sessões do colegiado no segundo reinado. Foi por meio das crônicas nele reunidas que Machado levara para o jornal a síntese dos debates, vendo de perto os grandes líderes do Império, realçando-lhes os méritos, criticando-lhes os desacertos, descrevendo-lhes o íntimo, compondo-lhes as imagens com a riqueza de seu estilo.

Machado era abolicionista e apreciava o sistema semiparlamentarista que se adotara no segundo reinado. Embora não fosse contra a República como forma de governo, temia que sua implantação afetasse a estabilidade política de que o país desfrutava.

A vastíssima obra de Machado e a concisão do seu estilo o consagraram como escritor que perpassou novas fronteiras, tornando-o admirado universalmente como um clássico. Não por outra razão Augusto Meyer diz: “Machado de Assis continua a ser o “único” na história da literatura brasileira [...] Cresceu em variedade relativa, dentro da mesma profundidade”.

MARCO MACIEL, 68, é senador pelo DEM-PE e membro da Academia Brasileira de Letras. Foi vice-presidente da República (1995-2002), ministro da Educação (governo Sarney) e governador de Pernambuco (1978-1985).

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