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Na Itália, uma padaria derrotou o McDonald’s

O Estado de S. Paulo, 13/01/06

Em Altamura, população levou rede a fechar loja

THE NEW YORK TIMES

Não é uma notícia nova, mas a história de como a cidade que faz o melhor pão da Itália obrigou o McDonald’s a fechar as portas nunca foi contada na íntegra. Estão presentes todos os elementos de uma peça em que o bem vence o mal – arrogância corporativa do McDonald’s, a vitória da comida tradicional sobre o produto industrializado, um Davi na forma de um humilde padeiro contra um Golias expansionista americano.

Inevitavelmente, isso inclui os franceses. Foi o jornal de esquerda francês Libération que, na semana passada, publicou o relato mais completo do que aconteceu em Altamura, no Sul da Itália, a “Cidade do Pão”.

“O longo tapete vermelho foi levado embora secretamente durante a noite”, informou o jornal, observando que o “enorme M” sobre a Piazza Zanardelli também foi retirado de forma sub-reptícia.

As janelas foram cobertas “como um sudário de uma vítima de um campo de batalha culinário. Hoje, não há mais Big Macs ou batatas fritas industrializadas em Altamura”.

O que o Libération deixou de dizer é que o McDonald’s fechou em dezembro de 2002. Mas não importa. Os protagonistas daqui de Altamura estão vibrando com essa atenção atrasada e a distinção de que a comida da cidade é tão boa que fechou um McDonald’s.

“O que aconteceu foi uma guerrinha entre nós e o McDonald’s”, disse Onofrio Pepe, um jornalista aposentado que fundou uma associação dedicada às delícias locais. “Nossas balas foram a focaccia, as salsichas e o pão. Foi uma guerra pacífica, sem sangue.”

Pepe e vários cidadãos com mentalidade semelhante de Altamura, uma cidade com 65 mil habitantes, compuseram uma ala do Exército. Eles dizem que batalharam principalmente por orgulho e em favor de sua culinária, que inclui um cogumelo chamado cardoncello, focaccia, mussarela e, acima de tudo, um pão de trigo integral famoso há séculos em toda a Itália.

O pão é protegido como uma exclusividade numa regulamentação da União Européia, que observa que, em 37 A.C., Horácio considerou-o “de longe o melhor pão, tão bom que o viajante esperto pega um suprimento para levá-lo na sua jornada”.

Quando o McDonald’s abriu, no início de 2001, Pepe não se opôs, e até acolheu com boa vontade os cerca de 25 empregos criados. “No começo”, disse ele, “pareceu uma modernização”.

Depois, o moderno pareceu tomar conta de tudo. O McDonald’s ergueu os enormes arcos num mastro perto do centro da velha cidade, entrando em choque com a catedral do século 13 próxima, irradiando néon amarelo 24 horas por dia e perturbando, segundo Pepe, os pequenos falcões que faziam ninho nas árvores vizinhas.

“Isso passou a sensação de uma cidade sendo ocupada”, disse. “Foi considerado um desafio. Não um desafio a ser confrontado com raiva, mas com um sorriso. Eles trouxeram os produtos deles e nós tínhamos os nossos.”

Assim, seu grupo promoveu protestos discretos para ressaltar a culinária local, ao mesmo tempo em que uma outra frente de guerra foi aberta. Um padeiro de quatro gerações, Luca Digesu, de 35 anos, abriu a Antica Casa Digesu, uma pequena padaria bem ao lado do McDonald’s. Ele não teve a intenção de confrontá-lo, apenas aproveitar o movimento dos clientes atraídos ao local pela novidade.

Logo houve uma migração dos moradores da cidade, que preferiram sua própria versão de fast-food como grandes pedaços de focaccia espessa. Parte do motivo pareceu econômico, pois uma grande fatia de focaccia custava o mesmo que um hambúrguer do McDonald’s.

O McDonald’s revidou com promoções. Numa delas, instalou uma TV para os clientes assistirem a jogos de futebol. “Eles assistiam ao jogo, e quando a partida terminava, saíam e iam comer focaccia”, disse Pepe. O McDonald’s fechou a loja, por falta de lucratividade.

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