Nada é mais letal do que a desesperança
Só os tolos não vêem as lindas calças de veludo que veste o presidente do Brasil. Só os tolos não sabem que ele é um exemplo, uma lição para o mundo, porque governa com três CPIs em curso. Imagine-se a humilhação dos outros chefes de estado que, coitados, não tiveram a chance de mostrar suas habilidades, indo para as esquinas equilibrar no ar as CPIs que não têm.
Seremos nós, os eleitores, de fato, estes tolos?
De tudo que vem acontecendo no Brasil, o mais chocante é o desprezo pela inteligência da população, o abismo que separa a opinião pública dos centros de poder onde decisões são tomadas, como se a população não existisse.
O que antes se dizia em voz baixa — corrupção, nepotismo, interesses pessoais, estratégias para captar os votos dos trouxas — tudo, de repente, é dito às claras; entra no texto político o que só se murmurava nos bastidores. Na platéia, a população, com cara de boba, ouvindo o debate público, sobre como melhor ludibriá-la. Em cartaz, perdôo-te por te trair.
Houve quem esperasse desse processo um enfrentamento da verdade do país, que é tosco, já sabemos, e roído pela corrupção. Teria sido assim e teria valido a pena se tudo isso redundasse naquela lição que nos ensinavam na infância: o crime não compensa. Mas se não for assim, não se acredite que fica tudo como dantes. Não fica. Não acaba em pizza; mais cedo ou mais tarde pega fogo a pizzaria. Restarão as cinzas de anos de construção democrática.
Se a impunidade prevalecer sinalizará para os políticos que, doravante, tudo é permitido. Porque o que terá sido testado e desmoralizado é o temor à opinião pública. Não respeitarão mais nada, nem ninguém. Serão piores do que antes. A perda da vergonha, que já se anuncia no sorriso cínico dos deputados que esperam escapar das punições e se recandidatar a representantes do povo, pode ter conseqüências assustadoras na psicologia social. A população poderá concluir que, a ela também, tudo é permitido. Em um encontro de jovens, alguém declarou, comentando as tramóias de Brasília: daqui pra frente, é cada um por si. No Pará, uma cidade inteira queimou os prédios públicos. Alguém viu nisso um sintoma? Às vezes eles só são reconhecidos a posteriori .
A impunidade é, para muitos, um sinal verde à criminalidade e à desordem. Para outros tantos, a anomia leva à desistência.
Nada é mais letal a uma sociedade do que a desesperança. Aparentemente ela traz consigo a depressão. Mas a depressão não é passiva, ela age pelo avesso: descrença na participação, individualismo exacerbado, agressividade sem objeto. Quando uma população descrê das instituições o que está em risco é a vida democrática.
A democracia — e quanto lutamos por ela — impôs-se contra os regimes autoritários do Leste europeu e contra as ditaduras latino-americanas. Não é concebível que em nosso país ela seja corroída por uma versão farsesca dela mesma. Instituições corruptas— em particular a Justiça quando não é confiável — são fatais à democracia como foi a ditadura militar. Dinheiro, favores e vantagens substituem os atos de força, quebram as vontades e impõem silêncios com instrumentos menos agressivos, igualmente eficazes.
O desafio que se coloca ao Brasil de hoje não é menor do que foi a luta contra a ditadura. Trata-se de reconstruir as instituições, com a imensa vantagem que temos do nosso lado, o voto. Quem renunciar a ele, por desânimo ou descrença, estará não só ferindo a memória dos que lutaram para garanti-lo às novas gerações, mas sobretudo pisando na armadilha de uma forma enviesada de ditadura, a da corrupção.
Porque é disso que se trata. A corrupção esvazia o significado das instituições enquanto que o autoritarismo as anulava. Um governante que mente, um legislador que se vende, um juiz que trafica sentenças roubam a substância mesma da democracia e levam o cidadão ao amargor e ao sentimento de derrota e de impotência.
O autoritarismo nos confiscava pela força o direito de votar, roubava-nos a liberdade que nos era preciosa. E, por isso mesmo, despertava revolta e encontrava resistência. O momento atual nos enfraquece a vontade de participar, o que é bem mais triste e perigoso; vence-nos pelo desencanto. Ninguém o proíbe, é você que desiste que renuncia ao seu direito, que já não crê nele.
Insidiosa, vai-se instalando a ditadura da corrupção. Reconhecê-la e chamá-la pelo nome, identificar essa nova figura política é a condição mesma para combatê-la. Contra ela há que sacudir o desânimo e articular uma resistência tão irredutível quanto foi aquela à ditadura militar.
ROSISKA DARCY DE OLIVEIRA é escritora e presidente do Centro de Liderança da Mulher.





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