No Brasil do Anhangabaú
Há um outro Brasil na torcida desorganizada do Vale do Anhangabaú, em São Paulo. Durante o mês da Copa de 1998, não houve um crime no centro da cidade: nem roubo, nem assalto, nem briga, nem ferimento, nem morte. Na época, eu monitorava diariamente as ocorrências de linchamento no Brasil, dois a três por semana. Não houve um único linchamento em todo o país durante aquele mês. O primeiro ocorreu numa cidade do Nordeste, uma hora depois do jogo da derrota contra a França.
Há um outro Brasil oculto nas dobras da nossa consciência coletiva. Um Brasil irreconhecível, avesso do que podemos ver todos os dias em todas as partes. Contrário de nossas suposições tão pouco generosas em relação a nós mesmos. É possível encontrá-lo, de vez em quando, expondo-se timidamente nas fraturas da ordem. E as fraturas estão em toda parte. Bobeou, lá vem ele pra fora, curando feridas, remendando os trapos, inventando saídas, sonhando cores. É o Brasil que se reinventa de vez em quando, até o momento de retornar à solidão do conformismo impotente do repetitivo e da falta de imaginação.
Na terça-feira, dia do primeiro jogo do Brasil nesta Copa do Mundo, havia muitas permanências e muitas mudanças na multidão que se formava ali no Anhangabaú, em relação à multidão de 1998. Reconheci várias pessoas. O homem gordo e moreno, vindo de Osasco, mantinha o figurino que usara no mesmo local, na Copa de 98. Naquele ano, usava um chapéu alegórico e uma espécie de batina densamente verde, com adornos amarelos. Reencontrei-o vagando pela avenida Paulista, como eu e outros tantos, na Copa de 2002, em que não houve telão no Anhangabaú. Os jogos eram de madrugada. Procurava a multidão inexistente, vestia o mesmo traje da Copa anterior. Em 2006, encontro-o praticamente no mesmo lugar em que o vira pela primeira vez, em 1998. Mas o traje agora é xadrez, verde-amarelo.
Em 1998, não havia medo, ninguém chegava ao Anhangabaú como suspeito. A multidão se constituiu pela dissolução das barreiras imaginárias que nos separam uns dos outros todos os dias. A Copa é um dos detergentes do que tolhe a alegria e a festa, a vida. Nem houve a pretensão de impor à multidão uma ordem na ocupação daquele espaço público tão nosso. A própria multidão cuidou disso. Havia o telão diante da passarela que ficava debaixo do Viaduto do Chá. A multidão ia chegando, descendo para o Vale. Sobre a comprida mureta de um canteiro, uma longa linha de policiais-militares vigiava. E só. Ninguém pisou nos canteiros de grama. Em vários pontos, moradores de rua, trombadinhas, trombadões, mendigos, catadores de papel, recebiam os chegantes com um sorriso, conversavam, compartilhavam opiniões. Era como se os recebessem na sala de visitas de sua casa.
Ninguém ficou de pé em cima dos bancos. Eram para as pessoas mais velhas, para pais com crianças. Ou para a moça grávida, a barriga verde-amarelo de fora, batom verde nos lábios. Ninguém estranhava ninguém. Amizades instantâneas, conversas francas, gargalhadas, troca de opiniões entre pessoas que se encontravam pela primeira vez. Alguns, com pose de mais experientes, tentavam acalmar os que manifestavam dúvidas sobre nossas chances na Copa. Circulei pelo Vale inteiro, pelo meio da multidão. Vi a Copa, fotografando, de costas para o telão, nos olhos e nas expressões das pessoas. Era evidente que o Brasil existia, que tem uma alma. A Copa é um pretexto pelo qual escapa e se deixa ver esse Brasil litúrgico, cansado de manipulação, de enquadramentos e de solidão.
Volto a 2006. Desta vez, uma empresa de bebidas patrocina o telão e administra o espaço. Todo o local está cercado por módulos metálicos, articulados. Não se pode chegar ao Vale por qualquer ponto. Há uma espécie de portaria crivada de policiais. A multidão desce alegre e barulhenta pelas calçadas dos jardins que ficam ao lado do Municipal. É evidente que grupos inteiros vem juntos dos bairros distantes, trazendo bandeiras do Brasil, panos verdes e amarelos, faixas, tiaras. Logo, uma adolescente e dois adolescentes vindos de Itaquera me pedem para fotografá-los, na alegria ingênua de quem descobre o centro como o lugar da celebração e da memória. A pose é incrivelmente solene.
Um grande palanque dominado pela cor vermelha é o camarote dos que vão ver os jogos sem misturar-se com o povaréu barulhento e colorido. Coitados! No meio do Vale, a multidão que comunga se organiza em tufos nos pontos em que se pode ver bem o telão. Do outro lado do Vale, o lado das escadarias de acesso à rua Líbero Badaró, há dois grandes ressaltos de granito, como se fossem arquibancadas. Também estão recintados pelas grades articuladas. Dentro desses dois espaços refugiaram-se os mendigos, os moradores de rua com seus cobertores e suas tralhas, com as crianças, com os cachorros. Parecem proteger-se contra a multidão, já que normalmente acampam por ali. Alguns cochilam. Outros apenas esperam que tudo termine. Lá no meio, vejo “seu” Carlos, educado morador de rua que conheci há alguns meses, na Líbero Badaró. Perdera o emprego, viera de Minas. Viu que eu estava fotografando edifícios antigos, puxou conversa, deu-me uma aula sobre o Sampaio Moreira e o Martinelli, os primeiros arranha-céus de São Paulo. Chamei-o e dei-lhe a foto que dele tirara e lhe prometera. Estive várias vezes à sua procura e não o encontrei. Ele me reconheceu, sorriu porque me lembrava de seu nome, agradeceu, apertou minha mão. E voltou a sentar na pedra para descansar o semblante triste e os cabelos grisalhos de sua negritude desbotada pela vida.
Nesta Copa de 2006, a multidão do Anhangabaú tem uma cara nova, a cara do medo e da segregação. Está fragmentada em três humanidades distintas, confinadas em espaços demarcados. No mesmo cercado dos mendigos, ali adiante, um menino de uns 7 anos de idade, cheira cola, alheio ao ruidoso colorido da festa. Os olhos turvos fixos no saco de papel que contém o ingrediente químico do seu delírio. Há um outro Brasil na torcida do Anhangabaú.
José de Souza Martins é professor titular de Sociologia da Faculdade de Filosofia da Universidade de São Paulo.
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