O Brasil silencioso
“...quando o mar tem mais segredo
é quando é calmaria…”
(Sueli Costa e Cacaso)
Há cerca de um ano, tive oportunidade de participar de um seminário na Universidade Harvard, como visiting scholar, no Centro David Rockefeller de Estudos Latino-Americanos. Ali, Andy Baker, jovem professor de ciência política da Northeastern University, apresentava sua pesquisa sobre contexto social e volatilidade eleitoral em sistemas partidários fracos, com foco na compreensão do que identificava como “mudança de preferência” nas eleições de 2002 no Brasil. A interpretação do pesquisador, tomando então como base análise de resultados parciais de sua pesquisa, era a de que nós brasileiros somos volúveis no momento de votar. Segundo ele, temos um determinado ponto de vista, que pode mudar no último segundo, por qualquer apelo. Somos imprevisíveis, portanto.
Como se tratava de seminário de debates e estudos, argumentei que seria necessário ter uma visão um pouco diferenciada do Brasil, que é a de que nunca se sabe o que o brasileiro está pensando efetivamente. Ou seja, não se trata de ser imprevisível por mudança súbita de opinião, mas de ser imprevisível por desconhecimento do observador externo de qual seria efetivamente a opinião que busca conhecer. Argumentei ainda que é possível que a comparação entre resultados de pesquisas e resultados de eleições – que o pesquisador procurava investigar – não são necessariamente os mesmos, não porque os brasileiros mudem de opinião ou de preferência – assim, da noite para o dia –, mas porque muitas vezes não respondem as pesquisas com rigor, preferindo guardar suas opiniões para si, até por medo.
Trata-se de fruto de um autoritarismo encruado na história e na cultura do país, que pode tomar colorações políticas variadas, porém mantendo a estrutura central. Sobretudo no que se reflete no cotidiano, são perdas privadas que ocorrem em razão de se sustentar posições em relação a questões públicas. Ou seja, é o outro lado da moeda, gerado por quem se vale do público para beneficiar-se particularmente na esfera privada. Ora, ocultar o que se pensa acaba sendo, minimamente, prudência e, sobretudo, uma forma de autodefesa.
É por isso que nossos censos não são totalmente confiáveis em questões que não sejam muito objetivas (como o número de cômodos da casa ou anos de escolaridade). Tudo o que possa trazer perigo, ou que em algum momento da história nacional pôde trazer, é tratado conforme a conveniência. Questões de cor/raça e de religião são exemplos desse medo, filho calado da discriminação, em que muita gente se manteve “branco” ou “socialmente católico” para o IBGE, e mesmo para ritos culturais amparados nos religiosos, enquanto freqüentavam outras alternativas, que às vezes já teriam sido proscritas legalmente em outros tempos.
Mesmo no ambiente profissional, expor claramente opinião pode ser motivo de perda de emprego, ainda que a intenção do sujeito seja a de colaborar com a instituição ou empresa em que trabalha. “Manda quem pode, obedece quem tem juízo” faz-se lei informal de ferro e tradição de silêncio. Ambientes em que votações ocorrem, para tomar decisões, quando são de tamanho reduzido, que permita o monitoramento oculto ou não-dito das escolhas, freqüentemente desvanecem o sentido de votações secretas, porque se torna simples mapear quem votou assim ou assado. Contudo, a liberdade de consciência é um bem inviolável e análises que tendem a justificar tudo pelo marketing perdem a oportunidade de ouvir a voz do silêncio.
Em São Paulo, em 1988, a eleição de Erundina para a prefeitura teve um pouco esse caráter, ainda que na ocasião não houvesse o segundo turno. A boa votação de Lula em 1989 tinha essa direção, sendo por isso diferente da eleição de 2002, em que mandaram as alianças, mais do que se tenha testemunhado a manifestação do silêncio – que de toda forma também estava lá e ainda está nos apoios que se mantêm a Lula (e aí, a manifestação é o grito do silêncio contra a indiferença e a frieza das elites).
A semana fora interessante, digamos. A surpresa dos “cassáveis”, em sua maioria, não renunciarem, mesmo com todas as oportunidades que lhes foram dadas, indicava no gesto de grande parte um braço de apoio ao deputado José Dirceu, não a consciência de que fossem inocentes (dizem). O mesmo deputado conseguiu ter para si a exposição do Supremo Tribunal Federal ao constrangimento de seu presidente forçando resultado, em rede nacional – mas o resultado gritou forte que há limite para tudo (os sete votos e, em particular, o voto do Ministro Celso de Mello lavaram a alma da cidadania ali silenciosa). Em meio à crise, uma viagem presidencial, com o papa impossibilitado de receber o presidente do Brasil (“passe mais tarde, por favor, estamos ocupados no momento”), mas fotos dulcíssimas na Praça Vermelha (quem não quer?), enquanto decidiu arriscar-se e publicar seu voto “sim” no referendo, na Folha de São Paulo. Figura exemplar para as análises da psicologia política, o presidente Lula cometeu ali mais um ato falho, pois acabou por provocar, pelo menos em parte, o referendo à Chavez que houvera manifestado desejo de fazer de seu governo no início da crise, e do qual, logo depois, estrategicamente desistiu.
Ora, da imagem célebre dos três macaquinhos, a cidadania tem ficado apenas com o “não falo”, porque o “não vejo” e o “não ouço” ficam por conta de quem, desavisado, não percebe que o fato de não falarem o que viram e ouviram, não faz desaparecer a consciência que adquiriram dos fatos. Ali fica, a fermentar, criando interpretações e derivações, conclusões. Sobretudo um sentimento de desamparo, desesperança, desilusão, desânimo, nada do que se vendeu como “cordialidade”, mas que Sergio Buarque de Holanda alertou: é a cordialidade de “cordis”, de quem responde com o coração – nem sempre brando ou bondoso, às vezes sabendo comer o prato da vingança, aquele que se come frio.
O “não” vitorioso do referendo de ontem, assim, são muitos “nãos”. Um referendo feito em hora inoportuna, de forma imprópria, com pergunta mal formulada, como já se disse à exaustão, apenas confirmou a lógica invertida presente em quem não perguntou o universal “sim ou não?”, mas “não ou sim?”. Até votos por engano pode ter havido, mas, sobretudo, não há homogeneidade. Não é um não volátil ou volúvel, mas um não multifacetado, complexo, diversificado, que responde também ao que não perguntaram. De toda forma, silenciosamente vindo das entranhas. Das autoridades, nos três Poderes, quem for sábio ouvirá.
Roseli Fischmann é pesquisadora e professora do Programa de Pós-Graduação em Educação da USP





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