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O Dia da Pátria

Roberto DaMatta, O Globo , 07/09/05

Menino de 9 anos, fui levado por meu pai para assistir à Parada de 7 de Setembro. Era uma iniciação ver aquela solenidade militar com as autoridades apartadas em palanque, todos de fraque e uniformes de gala, as ordens sendo transmitidas pelo toque estridente das cornetas. Tudo complementado pelo olhar risonho de feriado e folga no rosto das pessoas. Naquela época (estamos na década de 1940), o desfile militar não ocorria no Panteão de Caxias, situado em frente ao Ministério da Guerra, mas na Avenida Rio Branco, que ainda guardava na sua paisagem os traços de nossa primeira modernidade.

Tenho vivos na memória o ruidoso e envolvente som das bandas militares e o entusiasmo de papai ao me suspender em seus ombros quando da passagem dos famosos Dragões da Independência, regimento que desfilava a cavalo e surgia como um conjunto de seres portentosos nos seus capacetes emplumados, acima do barulho estrondoso dos cascos de suas montarias no asfalto negro na avenida.

Tempos depois, desfilei como soldado, juntando-me a centenas de outros militares que garbosamente vibravam, como se dizia em linguagem de quartel, numa homenagem ao Brasil lido naquele contexto ritual como pátria e símbolo cívico nascido de um rito de passagem histórico, quando, naquele mesmo dia, mas em 1822, Pedro I, num grito e às margens do Ipiranga, cortou os laços que nos prendiam a Portugal.

Foram certamente essas experiências que me levaram a uma leitura do Brasil por meio dos seus ritos nacionais: o carnaval, onde tudo ficava de ponta-cabeça; a Semana Santa, onde a paixão e a ressurreição de Cristo eram dramatizadas; e a Semana da Pátria, da qual o Sete de Setembro era o ponto culminante. Qualquer que tenha sido o processo histórico e as transformações sofridas por cada um desses ritos, minha interpretação descobria e oferecia como hipótese o fato de que o Brasil se lia a si mesmo como uma sociedade risonha e malandra (no carnaval), como uma corporação profundamente religiosa (na Semana Santa) e como um país ou Estado nacional na Semana da Pátria.

De um lado, há o conjunto paradoxal de regras carnavalescas que se destinam a esconder pela festa e pelas fantasias a dura realidade da vida diária feita de tantas injustiças, incompetências e tragédias. De um outro lado, existem as festividades religiosas, onde um outro mundo é implantado para dar alento ao que acontece neste “vale de lágrimas”. E, finalmente, numa terceira perna disto que chamei no meu livro “Carnavais, malandros e heróis”, de “triângulo ritual brasileiro”, há o Sete de Setembro, a celebrar a nossa entrada no clube das nações como um Estado nacional moderno, capaz de se haver com normas instituídas pela vontade do povo e honrada pelas autoridades constituídas.

Mas se o carnaval e as festividades da Semana Santa se modificam e prosperam, o Sete de Setembro tem tido um trajeto de retraimento. Primeiro, pela rejeição ao autoritarismo do regime militar que destruía as liberdades cívicas em nome de uma caçada irracional aos “comunistas” e “corruptos”, vistos como conspiradores; depois porque tem sido justamente na área cívica que o Brasil tem tido suas maiores decepções.

Realmente, o que surge como falha na “política” é justamente o fracasso na construção de instituições públicas capazes de atuar de modo igualitário, visando ao bem comum e não aos interesses de pessoas, famílias, partidos ou ideologias. Até hoje temos dificuldades em traduzir o civismo, que é a matéria-prima da celebração do Dia da Pátria, em atitudes que conduzam ao respeito pelas regras que devem nos administrar como cidadãos. Separando democracia de pátria, ainda temos vergonha de assumir o nosso cuidado e amor pelo Brasil, algo que ficou absurdamente ligado não só à falta de gosto, mas a uma imperdoável ingenuidade intelectual.

A atrofia do Sete de Setembro acusa pelo menos dois problemas. O primeiro tem a ver com uma concepção evolucionista da ordem social. Nela, a sociedade tem estágios que só podem ser ultrapassados por meio de instrumentos especiais de aceleração social. O Estado seria um desses parteiros do amadurecimento e da cura do país. O outro, mais moderno, seria o partido político visionário, sábio e transformador. A descoberta de que o Estado por si só não muda coisa alguma ainda está para vir à tona. A do partido escolhido como farol do povo sofrido está somente agora sendo retalhada e reformulada. O fato é que nossa concepção republicana de sociedade fundada no evolucionismo de Comte e não na idéia de religião civil de Rousseau ou no relativismo perturbador de Tocqueville, que lia o regime igualitário como uma alternativa às hierarquias aristocráticas, ambos contendo perdas e ganhos, torna complicado sair da pressuposição de que todos os problemas sociais só têm “solução” no Estado.

Daí esse soturno Sete de Setembro de crise, que mais uma vez esfrega em nossa cara o quanto estamos longe desse civismo moderno que exige um mínimo de sinceridade, de competência e de lealdade para com um Brasil lido menos como coisa a ser consertada ou corrigida (e nas entrelinhas, roubada), e mais como um lugar onde nascemos e seremos um dia enterrados. Tudo isso, enfim, que o PT jogou pelo ralo do sectarismo, do poder sem limites e da desonestidade.

ROBERTO DaMATTA é antropólogo.

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