O sagrado e os nós da secularização
A crescente repercussão da publicação de caricaturas de Maomé pelo jornal Jyllands-Posten, da Dinamarca, amplia conflitos onde são evitáveis. Doze desenhistas foram convidados a retratar o profeta, numa crítica aos grupos fundamentalistas islâmicos. A reação crescente e disseminada desses grupos ao que interpretam como um sacrilégio, teve corporativa resposta de jornais da Europa e de outras regiões, em nome da liberdade de expressão. O direito a essa liberdade, com razão, atrai facilmente as nossas simpatias. Tal invocação, porém, pode ser questionada já que o âmbito próprio da ocorrência é provavelmente outro.
A secularização do mundo, que dá sentido a essa liberdade e a outras, desde a Revolução Francesa ao menos, tem sido admitida com um processo inexorável e crescente, constitutivo mesmo da sociedade moderna. Não faz muito, nos meios intelectuais do mundo ocidental, ter uma crença era tido como uma espécie de defeito de caráter, alienação em relação à atualidade própria e inevitável de uma sociedade secularizada. As religiões, de modo geral, recuaram para o âmbito específico da religiosidade, praticadas como assunto privado. O âmbito do propriamente público e secular, das relações e concepções que asseguram a universalidade dos direitos, ficou relativamente protegido como território imune aos direitos das particularidades.
Mas as coisas não eram bem assim. Quando mais se imaginava que a secularização era já um fato dominante e as religiões apenas resíduos de crenças que haviam perdido o sentido numa sociedade dominada pela razão, começaram a ocorrer crescentes manifestações de religiosidade em todas as partes, desde a intensa revitalização do Islã até o reavivamento cristão – católico e protestante. Em todos os casos em aberta disputa com o poder político secularizado.
Aqui mesmo, o que é julgado equivocadamente como uma vitória política da esquerda, a ascensão política de Lula e do PT, não foi mais do que a primeira grande expressão latino-americana do advento político do catolicismo renovado por um sistema conceitual de esquerda e escassamente marxista. No México, a revolta zapatista nutre-se de concepções similares e o mesmo ocorreu na Nicarágua sandinista e na tragédia de El Salvador. Uma nova esquerda de base religiosa se difunde em aliança com setores residuais e órfãos do marxismo. Aliança em que a teoria perdeu a consistência que lhe dava sentido, reduzida às conveniências fundamentalistas da vulgarização.
O mundo está sendo alcançado por uma onda crescente de religiosidade política e por um cerco notável ao terreno em que o secularismo se considerava em posse definitiva. É o retorno da religião e de uma religiosidade que, mesmo quando supostamente no marco da esquerdização das crenças, são profundamente conservadoras, hierárquicas, corporativas e fundamentalistas. Contêm um núcleo denso e complexo de débitos a cobrar por séculos de espoliação identitária, desenraizamentos, expropriações territoriais, banimentos e exploração econômica, não raro cruel, como é o caso da escravidão.
A cobrança da fatura da história de formação e consolidação da sociedade moderna está diante de nossos olhos e nos atinge a todos. E atinge da pior maneira: como regressismo, como empenho em fazer a roda da história girar em direção ao passado, a uma suposta época de ouro de inteireza, liberdade, segurança e abundância. Esses grupos guardaram na memória e na experiência preciosos fragmentos de suas culturas de origem e com eles tentam reconstituir o vaso de alabastro que a história ocidental espatifou e à custa do qual a sociedade ocidental se constituiu. É o que lhes resta.
Nos cacos dessa história perdeu-se o sentido político da superação das contradições e adversidades e perdeu-se, portanto, o sentido político do historicamente possível que se inscreve nas entrelinhas do presente. Esse é o ponto mais grave das tensões crescentes, sobretudo porque há nelas a presença de componentes religiosos, mesmo aqui entre nós, que são aqueles próprios das religiões de conversão. São elas baseadas não raro nos pressupostos totalitários da verdade única e da crença sem espaço para a diferença e a diversidade das formas e variações do crer e do ser. Instaura-se a monotonia e a tirania do único.
No incidente da Dinamarca e na reação corporativa dos jornais europeus faltou a compreensão de que o que parecia um justo direito ao divertimento da sociedade fragmentária e secularizada, mais do que direito de expressão, podia ser interpretado pelas vítimas da ironia, e o foi, como um ato adicional numa história de desrespeito e espoliações. Uma invasão do último reduto da esperança para os que foram privados de toda espécie de esperança que não a religiosa, um ataque frontal ao que resta de identidade não só aos atingidos diretamente, mas a tantos e diversificados grupos sociais em tantos lugares.
Estamos em face da intolerância e nesse cenário não há inocentes. A intolerância não é apenas dos que tem religião. No Brasil temos tido preocupantes episódios tanto de intolerância à religião, como se deu em tentativas de usar símbolos religiosos em desfiles de Carnaval, quanto de intolerância religiosa. Foi o caso que ficou conhecido como o “chute na santa”, no programa de televisão de um pastor pentecostal; ou o ataque de um evangélico com problemas mentais à imagem de Nossa Senhora Aparecida, no próprio santuário; ou mais recentemente o ataque de um crente à imagem substitutiva de Nossa Senhora de Nazaré, em Belém do Pará. Tantos anos depois da abertura ao ecumenismo por iniciativa de João XXIII, os ressentimentos dos que eram historicamente definidos como acatólicos, demonizados sistematicamente pelos católicos, bem mostra a vitalidade de uma mágoa que se tornou antes de tudo cultura de ressentimento e vendeta. Mesmo na manifestação de indivíduos isolados, a repetição dos casos nos sugere um conjunto persistente de referências para explosões de intolerância.
José de Souza Martins é sociólogo e professor





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