O segredo de aborrecer é dizer tudo
Gosto de uma frase de Voltaire, a que recorro freqüentemente: “O segredo de aborrecer é dizer tudo”. Que, como sabem, sigo fielmente. Às vezes parece que bato antes para perguntar depois. Não é o caso. Se bato, aí bato direito e bem. E também tomo porrada. É do jogo. Perguntam-me em e-mail se endosso o comportamento dos procuradores que vazaram a denúncia antes de qualquer apuração ou verificação. Não, não endosso.
Quem endossava era Palocci nos tempos em que era deputado federal e integrava a tropa de choque anti-FHC, que incluía fatias do Ministério Público, deputados petistas e imprensa. O procurador de agora, ao menos, deu uma coletiva. As estrelas do MP no petismo “vazavam” informações, muitas falsas, para jornalistas “farejadores”. Em algumas reportagens só faltava a assinatura de Luiz Francisco.
O PT criou o monstrengo e agora reclama. Quando, durante o governo FHC, se quis criar uma regra ou código de conduta para o MP, o partido de Lula cravou: “É a lei da mordaça! É a ditadura tucana!”. Chegando ao poder, a primeira coisa que Dirceu tentou foi justamente conter o Ministério Público. Os tucanos nem gritaram. Os próprios promotores o fizeram. Acostumaram-se.
Cadê o procurador Luiz Francisco, o ogro de Eduardo Jorge Caldas Pereira? Este senhor nunca apresentou uma miserável prova de nada. Certas áreas do MP, com a ajuda de setores da mídia, inventaram um “caso EJ”. Não! Não havia delação de ninguém; não havia gente rompendo o círculo de amizades e compadrios. Havia, sim, rigorosamente isto: um procurador vazava uma história para um jornalista, este publicava, aquele pegava a “reportagem” e anexava como prova contra a sua vítima.
Quantas condenações Eduardo Jorge tem? Nenhuma! Quantas provas Luiz Francisco apresentou contra ele? Nenhuma! Quantas matérias foram produzidas contra ele, inclusive feitas a partir de envelopes apócrifos largados nas redações? Todas.
Vejam lá nas edições anteriores. O site rejeitava esse expediente e dizia que era preciso haver alguma regra para casos dessa natureza. “Tucanos!”, gritava a canalha. Sim, senhores, Primeira Leitura continua contrário aos expedientes luiz-franciscano (é acusando que se constrói o reino dos céus), mas reconhece que o de agora, embora indefensável, é bastante diferente, embora também não o defenda.
Mas censuro com ainda mais vigor o fato de haver no poder um partido que, quando na oposição, vê virtudes no crime e, quando no poder, se necessário, vê crimes até na virtude.





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