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Obama e o mito do presidente negro (nos EUA…)

Roberto DaMatta, O Globo, 16/01/08

O talento extraordinário de Monteiro Lobato nos legou, em 1926, a história de um presidente negro. Não neste nosso Brasil onde vigora o hibridismo e, para os mais afoitos, uma democracia racial, mas nos Estados Unidos. Justo na terra dos linchamentos, da segregação e de uma inominável Ku Klux Klan.

No Brasil ainda sonolento de escravismo dos 1920, dono de uma preponderante população negra e mestiça, a hipótese de ter um presidente (ou um candidato “de cor”) era impensável. Estava na categoria das sátiras desvairadas, como imaginar uma pessoa que não pedisse emprego ao parente ministro; não escapasse de uma multa por ser do governo; ou encontrar um político que não fosse terrivelmente apaixonado por si mesmo.

Mas naqueles Estados Unidos que Lobato tanto admirava e que havia conhecido em 1927, tal hipótese seria possível porque o igualitarismo americano levaria inevitavelmente não só a um presidente negro, mas, também, à emancipação das mulheres que, no livro “O choque das raças ou o presidente negro”, aparece no conflito entre o Partido Masculino e o Feminino. A esta admirável percepção cabe apenas um escasso reparo: a consagração de um político negro e o feminismo acontecem agora (com conflitos, é certo, mas sem hecatombes), não num longínquo 2228.

Vindo de uma sociedade na qual brancos, negros e as centenas de categorias intermediárias tinham consciência aguda dos seus lugares numa hierarquia, Lobato estremece diante do brutal confronto segregacionista americano que, pela violência, tentava pôr os negro nos seus devidos lugares.

O tom da relação conflituosa entre brancos e negros nos Estados Unidos surge nitidamente no uso pelos brancos de um aparelho de “raios ômega”, com o objetivo de esterilizar os negros e assim destruir sua eventual hegemonia eleitoral e demográfica.

Reduzido a uma questão biológica, a questão das “raças” teria uma solução biológica.

Esquecidos dos fatores sociais e das práticas políticas, as percepções exageravam a dinâmica das diferenças.

O que Lobato viu como uma virtual guerra racial, tem se resolvido pelo liberalismo. Pela maneira igualitária de lidar com os problemas entre os diferentes, que, no liberalismo, têm o direito à diferença.

As conseqüências imprevisíveis da igualdade como valor produziram nos Estados Unidos esses pré-candidatos negros e mulheres. Aquilo que para Monteiro Lobato seria possível apenas pelo recurso à mais delirante ficção, leva a pensar no poder da negociação e do debate, marcados pela justiça e pelo igualitarismo liberal como instrumento efetivo de mudança social e política.

O que também explica um fato intrigante: Barack Obama se enxerga muito mais como um concorrente do que como um negro. De fato, entre Malcom X, Stokely Carmichael, Wiilie Ricks, os Black Panther, Martin Luther King e Barack Obama há uma boa distância. O senador não é o líder que, messianicamente, como ocorria na virada dos 1960 para os 70, promete inverter, pela vingança ou pelo resgate, uma ordem social contrária ao igualitarismo como valor que oprimia os negros. Seus temas, como é trivial nas discussões políticas dos países ricos, centram-se muito mais em receitar para o mundo. A questão de sua agenda é muito mais como tornar a “América” um centro mais eficaz de exportação de suas indiscutíveis virtudes para o planeta do que propor um programa que transforme os Estados Unidos por dentro, como era o caso das utopias sociais dos velhos tempos do “hipismo”, do feminismo e do esquerdismo. Isso engendra uma espécie de paradoxo.

O mais negro dos políticos negros americanos, justo aquele que tem um pé no conturbado Quênia, justo o mais autêntico afro-americano, não se define como um competidor negro. Muito pelo contrário, como muitos observadores têm percebido, Obama seria tão ou mais omisso do que Machado de Assis no que diz respeito à questão racial.

Um filme, o admirável “Adivinhe quem vem para jantar”, de Stanley Kramer, exemplifica os dois modos básicos de construção das identidades.

No momento mais crítico do filme, o cosmopolita Dr. Prentice (Sidney Poitier) diz para seu pai, um humilde carteiro (Roy Glen): “O problema, papai, é que você se pensa como um homem de cor, mas eu me penso como Homem!” Barack Obama não esconde sua condição de negro. Como um membro de uma sociedade de credo igualitário e valores universalistas ele se pensa, no plano do debate político, como um ser humano por natureza e como um americano (negro, jovem, professor etc…) por acidente ou circunstância; já nós, brasileiros, membros de um sistema de credo hierárquico e valores particularistas, fazemos o justo oposto. Como Lobato, pensamos que somos essencialmente negros (índios ou brancos, pobres ou ricos etc…), e seria por meio dessa condição que experimentamos a condição humana…

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