Os autônomos da fé
Saber que o brasileiro deixa a religião, mas mantém a fé, propõe indagações sobre o que somos, mais do que sobre a religião que temos. Em princípio, num País de hibridismo cultural e de sincretismos religiosos reconhecidos, não é estranho que exista a religiosidade pessoal dos sem-religião e que seja esse o grupo que mais cresce no que se refere à opção religiosa.
A fé sem religião é um traço possível da sociedade moderna, particularmente nesta sua fase de modernidade, aquela em que o moderno, longe de se realizar em termos absolutos, cai sob a revisão crítica da consciência social do homem comum nos seus múltiplos tempos de referência. Nem tudo é moderno na modernidade. Mas, a modernidade, como consciência crítica, não rejeita o mundo moderno. Tampouco o aceita plenamente, não deixando de assinalar a tirania destrutiva que em nome dele se pratica na afirmação do primado do racional e do presente contra o passado e até contra o futuro. Sobretudo em relação às suas conseqüências corrosivas para valores, normas e orientações que procedem do mundo pré-moderno ou que antecipam o mundo possível das utopias.
No Brasil é constitutiva dessa modernidade a busca do refúgio religioso contra os excessos da modernização e contra a desordem que a muitos parece o advento apocalíptico do fim dos tempos. Mas a opção pela fé sem religião é, por sua vez, uma civilizada reação contra o radicalismo e a intolerância religiosas crescentes. Expressão, também, do desencanto pelas religiões que estão perdendo sua substância profética nas tentações e no oportunismo do poder. Sobretudo, é a inevitável reação contra o regrismo repressivo das igrejas, em especial a católica, nos âmbitos inevitáveis da liberdade pessoal, como o direito de cessação do contrato matrimonial, a questão do controle da natalidade e a questão profilática do uso da camisinha nas relações sexuais. A acentuada ocorrência de mobilidade religiosa entre divorciados, separados e unidos consensualmente é indicativa da insistência na opção por uma igreja quando ocorrências na vida pessoal colocam as pessoas numa situação prática de excomunhão em outra.
Ao contrário das suposições que podem ser levantadas a partir dos dados censitários sobre a óbvia e significativa evasão de católicos de sua Igreja, não estamos em face de um declínio espetacular da religiosidade do brasileiro. As práticas religiosas se intensificaram, mesmo entre os católicos. Os censos não tem indicadores da conversão de católicos ao catolicismo, isto é, católicos nominais que se tornam católicos praticantes. As evidências em romarias e nas manifestações religiosas de massa, como o Círio de Nazaré, no Pará, ou as romarias a Aparecida do Norte ou Pirapora do Bom Jesus, sugerem justamente que há hoje mais católicos efetivamente católicos do que havia há 30 anos. Há mais crença do que descrença, como tendência geral, não só entre os mais velhos, como também entre os mais jovens. A opção crescente pela esperança escatológica se explica, em boa parte, pela crise das formas alternativas de esperança, especialmente a esperança política.
Em meio século, o número e a proporção dos que não tem religião cresceu significativamente no Brasil, segundo a pesquisa de 2004 do Centro de Estatística Religiosa e Investigações Sociais (Ceris), ligado à CNBB: de 0,5% para 7,8% da população. Mas os propriamente ateus eram apenas 0,5% da amostra. Na católica Itália, em 1999, os ateus ou não crentes eram 9 milhões ou 13,6% da população. Portanto, não só temos no Brasil esse estranho fenômeno social dos sem religião que, não obstante, tem fé, como temos também um impacto muito menor da secularização que historicamente tende a acompanhar a urbanização e a industrialização e o aumento dos índices de educação.
A fé sem religião é, funcionalmente, expressão da afirmação da liberdade do crente contra igrejas que representam formas de dominação e de poder. Teríamos que aceitar o absurdo de que aqui a modernidade se difunde sem afetar as bases sociais da religião e da religiosidade se quiséssemos supor que esse processo teria aqui efeitos opostos aos de outros lugares. No Brasil, a religião pessoal provavelmente ultrapassa ao menos os 10% da população, se aos sem religião agregarmos os de religião indefinida e até múltipla. Embora mais difusa do que em países como a Itália, a Espanha, a Inglaterra e os Estados Unidos, a religiosidade entre nós está presente até mesmo nos interstícios da trama social, em que as igrejas não tem nenhuma presença.
Dos mais de 15 milhões de adeptos que o catolicismo perdeu no Brasil, 72% foram para igrejas evangélicas, dois terços dos quais para igrejas pentecostais e fundamentalistas, igrejas em princípio mais populares e menos impessoais, formais e burocráticas do que a Igreja Católica. Por outro lado, há uma tendência de novos trânsitos da mesma pessoa para outras igrejas evangélicas, mas um trânsito forte das igrejas pentecostais para as igrejas históricas e propriamente protestantes, mais formais, com um clero estruturado e relativamente burocratizado, ainda que menos do que o católico. Um trânsito sociologicamente significativo de uma religiosidade emocional, doutrinariamente difusa, para uma religiosidade historicamente marcada pela Razão, referida a doutrinas teologicamente definidas. Não é estranho que haja, na população dos convertidos, uma proporção não pequena de conversões ao catolicismo, que procedem das igrejas evangélicas, sendo 18% das igrejas pentecostais e 27% das igrejas históricas. Uma espécie de retorno à ordem, no âmbito religioso.
No meu modo de ver, os que tem fé, mas não tem religião, representam uma exacerbação da fuga do catolicismo como poder, mas também uma recusa do quanto há de poder e busca de poder nas igrejas evangélicas. Uma afirmação da liberdade civil do cidadão que, entre os seus direitos, inclui o direito de crer sem dar satisfações senão à sua própria consciência. Uma libertação, no sentido pleno.
José de Souza Martins é professor titular de Sociologia da Faculdade de Filosofia da Universidade de São Paulo.





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