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Os guerrilheiros no poder

Reinaldo Lobo, O Estado de S. Paulo , 07/08/05

Guerrilheiro não rouba. Expropria. Ele não mata, não seqüestra nem lincha. Promove justiçamentos democráticos.

Parece um jogo de palavras, mas não é. O guerrilheiro acredita possuir uma “ética especial”, típica das situações de exceção, de revolução e de guerra. Essa ética costuma ser a mesma com que se tenta justificar hoje o terrorismo: os defensores dos oprimidos têm direitos especiais de agir, em qualquer tempo, para mudar a sociedade e o mundo. Aplicada ao cotidiano da vida democrática, essa moral revolucionária resulta numa perversão da política.

Entre as muitas análises sobre a atual crise política brasileira, destaca-se uma curiosa tese elaborada pelos pensadores da “ala cubana” do PT: “A corrupção não é um problema moral, mas um erro político.” Ora, roubar dinheiro público, sobretudo numa democracia, é uma questão moral, sim, senhor! É também um trágico erro político.

As conseqüências já aparecem no descrédito do Congresso, do governo, na profunda desilusão da opinião pública e na implosão do próprio PT, partido outrora modernizador, ameaçado de ser varrido da cena política.

Subordinar a moral à estratégia política foi exatamente o grande equívoco da cúpula do PT e do governo, o que faz supor que não abandonaram a “ética especial” dos tempos da ditadura.
Essa complacência moral guerrilheira com a “informalidade” nos negócios já produziu exemplos patéticos, como a extemporânea guerrilha das Farc colombianas. Aditas ao narcotráfico, só sobrevivem dele.

Nesse caso, o meio se tornou fim. Houve ainda o episódio dos melancólicos ex-militantes do MIR chileno e da guerrilha salvadorenha, reduzidos a bandidos comuns ao seqüestrarem o empresário brasileiro Abílio Diniz. As ditaduras de direita acabaram na América Latina. A guerra acabou, como dizia Jorge Semprún, mas eles continuaram seu combate delirante.

A guerrilha é o perigoso romantismo da aventura em política. Ele induz a soluções simplórias, às vezes ao suicídio. Essa moral de limites extremos não combina com a política comum de uma sociedade democrática.

Fora do contexto revolucionário ou bélico, ela degenera em pura psicopatia, banditismo e violência. O pathós do guerrilheiro é o de um aventureiro, em geral com as melhores intenções. Ele sofre de impaciência política. Quer cortar caminhos e pegar atalhos para o poder.

Nutre, muitas vezes, um certo desprezo pelo cotidiano cinzento da política e pelo povo, concebido como uma entidade abstrata e sem alma. Acredita no golpe de mão e na força da vontade acima de tudo. Sua aura romântica recobre umas áreas sinistras, cuja demarcação costuma ser indefinível. Quando essa imagem se define, às vezes no poder, o que era paixão juvenil se torna frieza jacobina e ação destinada a destruir os inimigos. Um guerrilheiro não tem adversários, só inimigos. Quanto aos aliados, são circunstanciais, instrumentos de uma guerra. Só os objetivos contam.

O guerrilheiro convive apenas com o idêntico a si mesmo. O outro, o diferente, não interessa.
Certa vez, o ex-ministro Celso Furtado comparou e viu semelhanças entre a geração de revolucionários dos anos 60 e 70, dos Genoino, José Dirceu, Dilma, Gushiken e outros, e aquela dos “tenentes” dos anos 20 e 30, dos Prestes, Siqueira Campos e Juarez Távora. Ambas as gerações eram compostas de jovens de classe média com uma idéia na cabeça e uma arma na mão. Ambas dispostas a “mudar o mundo”, mas um tanto ignorantes, imaturas e despreparadas para as artes da política. Elas empurraram o Brasil para a democracia, mesmo sem o saber, apesar delas mesmas e de seus erros.

Alguns desses jovens foram torturados, vários deram a vida na luta contra oligarquias repressivas e muitos seguiram caminhos diferentes entre si. Houve quem se convertesse sinceramente à democracia, até por descobrir na cadeia a diferença que faz ter (ou não) um advogado e a proteção da “formalidade” da lei burguesa. Há gente séria no PT atual que concebe a democracia como um fim, não um simples meio tático. Mas existem os que mantêm o perfil de guerrilheiro, como outrora o teimoso Luís Carlos Prestes, com sua cabeça de militar.

Existe uma Lei de Bronze dos partidos, enunciada pelo célebre social-democrata Robert Michels: toda agremiação política nasce da mobilização de massas e, como o PT, tende a se burocratizar ao longo do tempo, degenerando em organização de funcionários, às vezes corruptos e medíocres. É possível enunciar igualmente uma Lei de Aço do ex-guerrilheiro na política: fora do seu contexto predileto - a revolução -, ele tende a se tornar um dinossauro numa loja de louças. Ressalvem-se as exceções de praxe.

O PT de José Dirceu não foi uma exceção, mas um desastre.

O PT DE JOSÉ DIRCEU FOI UM DESASTRE.
O QUE ELES FIZERAM É INDESCULPÁVEL

Menos do que “maquiavelismo”, houve imediatismo e uso de uma estranha dialética destinada a “combater o fisiologismo com fisiologismo”. Tudo não passou de uma aventura tática, sem conteúdo ideológico consistente. Inventou-se algo inédito, no dizer do ex-guerrilheiro e petista desiludido César Benjamin: “A esquerda de negócios.” O que fizeram é indesculpável. Puseram a perder o que poderia ser um dos projetos mais originais da esquerda mundial.

Note-se que Lula nunca foi um guerrilheiro, mas um “herói” típico dos inícios de partidos, sobretudo os socialistas. Cometeu erros fundamentais: deslumbrou-se com o poder, entregou-se aos métodos aventureiros e traiu boa parte do seu eleitorado. Dois presidentes anteriores cometeram o equívoco fatal de trair o próprio eleitorado: Jânio e Collor. É como cantou antes o tenor bufo Roberto Jefferson, num de seus shows: Lula já virou um triste Lech Walesa.


Reinaldo Lobo é psicanalista e ensaísta.
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