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PT, Pirâmide dos Trabalhadores

Francisco Foot Hardman, O Estado de S. Paulo , 14/08/05

Como a construção estato-petista desabou sem que nenhuma transformação tenha se forjado

A única emenda constitucional consistente que o governo do PT fez o Congresso aprovar - hoje se sabe, à custa de apoios comprados pela via da corrupção “organizada” - foi a da Previdência. Alegavam-se rombos incuráveis nas contas do INSS, por conta da escala de aposentadorias e pensões dos servidores públicos. Estes se tornaram bodes expiatórios do déficit orçamentário. Alçou-se a previdência complementar privada como nova panacéia do mal. Na sombra, o PT geria a ilegalidade e ilegitimidade de votações rápidas e maciças, muitas triturando direitos sociais de trabalhadores em nome do equilíbrio fiscal, enquanto produzia a própria estatização. O pragmatismo cínico do ministro-chefe da Casa Civil e seu exército de aduladores e capatazes foi fazendo da máquina partidária apêndice da máquina estatal, e vice-versa. A esquerda petista parlamentar não-cooptada ficou relegada a um papel de bobo da corte. E a esquerda mais rebelde foi expelida sumariamente, bem aos moldes de tribunal de exceção, prática que, agora, os fariseus do templo petista, líder do governo Mercadante à frente, teimam em negar quando se trata de excluir do partido corruptores comprovados, corruptos e asseclas. Quantos pesos e quantas medidas! Quantas manobras protelatórias que só corroem, por dentro e por fora, a história gloriosa que tanto gostam de evocar na mesma proporção em que a soterram no pântano de escusas e mentiras!

A história recente do PT, coincidindo com Lula no Planalto, é a de uma grande PPPP (parceria publicitária público-privada) ilegal, ilegítima, feita mafiosamente sob o manto avassaladoramente protetor do Estado. O duto Duda-Valério não foi o meio maquiavélico para algum fim revolucionário sublime. Foi o começo e o fim de uma política particularíssima de interesses financeiros em que a perpetuação do controle central do Estado, à custa dos ideais rotos de um partido já sem causa e sem graça, cada vez mais alheio aos movimentos sociais que o constituíram, estabeleceu-se como programa mínimo e máximo.

O espelhismo Jefferson-Dirceu é, sim, triste e trágico, não porque não se possa comparar suas respectivas trajetórias políticas (o recurso monótono e redundante a certo autobiografismo edificante, de Lula a Dirceu, torna-se patético nesta grave hora), mas sobretudo pelos meandros sinistros do labirinto de pequenos golpes oratórios e gestos de procrastinação que hoje mais que nunca os irmanam, gêmeos num circo de horrores que desencadeiam contra toda a sociedade. Amantes de certa clandestinidade de bastidor, irrompem na cena como cegos sedentos de fama, órfãos que dependem dos frangalhos ainda poderosos do Estado patrimonialista como derradeiro bote para conduzi-los de volta à ilha megalomaníaca dos impunes de sempre, dos alforriados da farra feroz desse grande bolsão-família ao mesmo tempo impessoal e caudilhesco, sem origem e datado, num teatro que é a submissão da política aos ímãs de Mamon e à vertigem vazia do espetáculo sem fim.

Para onde leva o narcisismo operístico do espelhamento Jefferson-Dirceu? Parafraseando o poeta e ensaísta Octavio Paz, no iluminado Pós-data que acrescentou em 1969 à sua obra-prima O Labirinto da Solidão (1950), sobre as fraturas da identidade nacional mexicana, poderíamos dizer que a esquizofrenia posta por eles em palco, com requintes autistas, só poderia ter como destino preferencial, que é também o de tiranos ou candidatos a sê-lo, o monólogo ou o mausoléu. Momentaneamente ruidosas ou até monumentais, são formas historicamente perecíveis e relegadas a ruínas secundárias na evolução das coletividades. Contra a petrificação de toda imagem espetaculosa, em especial aquela que os publicitários fabricam em meio a milhões roubados do povo que segue pobre, resta-nos a nós e às forças sociais não engolfadas pelo bafo pútrido do Leviatã e seus agentes modernos o poder sem delegação da crítica independente, esse “ácido capaz de dissolver as imagens”.

É ainda Paz que nos inspira aqui, quando lembra que a crítica é apenas um dos modos de atuar da imaginação. Diz isso a propósito do juízo severo que tece sobre a continuidade de um Estado sacrificial na história do México, fazendo confluir as pirâmides solares que os astecas convertiam em plataformas ritualísticas de matanças, o genocídio dos conquistadores coloniais desde Hernán Cortés (não por acaso confundido por Montezuma como um enviado dos céus) e o Estado-partido pós-revolucionário, corrupto e repressor, representado por 70 anos de dominação do PRI (Partido Revolucionário Institucional, espécie de contradição em termos). Seria demais comparar o PT com o PRI, a diferença é gritante e, na melhor (ou pior) das hipóteses, estaríamos diante do abismo que separa aprendizes de feiticeiros. O PRI, bem ou mal, dirigiu uma revolução social, agrária e nacionalista; o PT, bem longe disso, iniciou seu processo de estatização em meio a um acomodamento mais realista que o rei aos ditames do capital financeiro e do FMI.

E neste instante a pirâmide estato-petista desaba sem que nenhuma transformação estrutural digna desse nome tenha se forjado no Brasil. De novo, fico com a faca afiada das palavras poéticas e lúcidas de Octavio Paz: “A crítica não é o sonho, mas ela nos ensina a sonhar e a distinguir entre os espectros dos pesadelos e as verdadeiras visões. A crítica é a aprendizagem da imaginação curada de fantasia e decidida a afrontar a realidade do mundo. A crítica nos diz que devemos aprender a dissolver os ídolos (os de barro e os de carne e osso, acrescento eu): a dissolvê-los dentro de nós mesmos. Temos de aprender a ser ar, sonho em liberdade”.


Francisco Foot Hardman é professor de Teoria e História Literária do Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp

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