Tempos de guerra
Há um aspecto preocupante em tudo isso: a repercussão do conflito nas comunidades sírias, libanesas e israelitas do Brasil
COMEÇO ESTE texto dizendo que não tenho nem uma remota simpatia por movimentos como o Hizbollah e afins, que até hoje se negam a reconhecer o direito à existência do Estado de Israel. Nem creio que o anti-semitismo seja um fenômeno do passado, permanecendo latente ou expresso, em maior ou menor grau, em todo o mundo.
Mas essas circunstâncias não justificam a guerra desencadeada por Israel no Líbano em resposta às ações de guerrilha do Hizbollah, e muito menos os bombardeios indiscriminados dos quais são vítimas milhares de civis inocentes e alguns observadores da ONU. Isso sem falar na destruição de um país que, a duras penas, ressurgira das cinzas de uma longa guerra civil e da ocupação.
Podemos estar certos de que o resultado dessa guerra não será a eliminação dos radicais e muito menos a obtenção da paz, à qual o povo judeu, como o povo palestino, tem direito. O próprio primeiro-ministro israelense, Ehud Olmert, declarou que, embora o Hizbollah deva sair do conflito muito abalado, seria ilusório acreditar que o movimento possa ser inteiramente destruído.
Seja como for, as conseqüências da ação israelense irão muito além dos destinos deste ou daquele movimento radical, tomado isoladamente. Entre outras coisas, líderes abomináveis, como o presidente do Irã, Ahmadinejad, estão ganhando crescente prestígio com as massas árabes, e o anti-semitismo, nesse quadro, tende a se espraiar. Além disso, lembremos que a fratura exposta do Oriente Médio se aprofundou com a ação israelense, e a paz, buscada há mais de 50 anos, ficou agora ainda mais distante.
Há um aspecto preocupante em tudo isso que, como brasileiros, nos interessa mais de perto: as repercussões do conflito nas comunidades sírias, libanesas e israelitas do Brasil.
Não creio estar vendo fantasmas, e, antes que certos sintomas ganhem corpo, convém apontá-los com todas as letras. Um desses sintomas é a reação insultuosa que têm provocado artigos de colunistas que analisam a situação do Oriente Médio, condenando fortemente o comportamento do governo israelense e a aliança entre Israel e os Estados Unidos.
Quaisquer que sejam as opiniões a respeito do tema, por mais que se considere que ele mobiliza sentimentos profundos, não é admissível que se reaja a argumentos com insultos. Insultos são um atentado à liberdade de expressão e se chocam com a vertente judaica iluminista.
É preciso assegurar a convivência pacífica entre as etnias síria, libanesa e judaica que convivem no Brasil há muitos e muitos decênios. São comunidades das quais só temos razões para nos orgulhar.
Quantitativamente menos importantes do que outras, elas ganharam destaque, a princípio, como “etnias comerciantes”, cuja emulação se situou, e em parte ainda se situa, no terreno da concorrência. Com o tempo, essas comunidades se diversificaram profissionalmente e deram, entre outras, uma importante contribuição à assistência hospitalar na cidade de São Paulo.
É o caso de dois empreendimentos que trazem marca de origem, mas que têm suas portas abertas a cidadãos de qualquer procedência, realizando também um importante trabalho social. Quase seria desnecessário dizer que estou me referindo ao Hospital Sírio-Libanês e ao Hospital Israelita Albert Einstein.
O bom entendimento tem resistido aos seguidos conflitos no Oriente Médio. Esperemos que ele se mantenha na atual conjuntura.
Não creio que uma atitude adequada seja a da “política do avestruz”, enterrando na areia os problemas como se eles não existissem. Necessariamente, a situação do Oriente Médio está no coração dos descendentes de sírios, libaneses e judeus e as perdas de vidas e as destruições são impossíveis de esquecer. Expressões contraditórias acerca do tema, mais do que compreensíveis, são necessárias. Mas é preciso não reproduzir aqui a exaltação nacionalista e o fanatismo fundamentalista que tantos males têm causado na região do conflito.
Se a convivência racial entre brancos e negros em igualdade de condições e de oportunidades é um mito da história do Brasil, o mesmo não acontece com o processo da imigração em massa, iniciado nos últimos decênios do século 19. Sem negar o preconceito de que foram alvo preferencial, mas não exclusivo, japoneses e judeus, esse processo desembocou num êxito -um dos poucos êxitos que temos para enaltecer.
Não podemos permitir que ele seja manchado, a qualquer pretexto, com as marcas da intolerância.
BORIS FAUSTO , historiador, é presidente do Conselho Acadêmico do Gacint (Grupo de Conjuntura Internacional) da USP. É autor de, entre outras obras, “A Revolução de 30” (Companhia das Letras).





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