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Valha-me Deus!

Roberto DaMatta, O Globo, 27/07/05

Quando eu perambulava pelo sertão do Tocantins nas décadas de 60 e 70, estudando índios, dei com os costados numa comunidade que os sertanejos chamavam entre risos de Valha-me Deus.

Em Valha-me Deus, diziam meus anfitriões, todos eram sabidos, ninguém acreditava em coisa alguma, a norma era a da esperteza e, por isso, tudo era possível. Inclusive o ateísmo e o casamento de mulher com mulher.

De fato, Valha-me Deus dava cidadania plena não só aos homossexuais como também a um tropeiro que vivia maritalmente com sua mula, a qual tratava com carinho enternecedor. Pensei estar diante de um grupo autenticamente pansexual para logo descobrir que a paixão local não era o erotismo com suas previsibilidades um tanto batidas, mas o futebol jogado com paixão em campeonatos disputadíssimos pelos cinco ou seis times da comunidade.

O problema é que ninguém queria perder. Uma verdadeira obsessão pela vitória a qualquer preço transformava os jogos realizados em Valha-me Deus em elaboradas disputas jurídicas, envolvendo as autoridades e transformando-se em verdadeiras batalhas interpretativas. Numa partida entre os dois times mais poderosos da cidade, o Bacaba e o Castanha Futebol Clube, ao que assisti num iluminado domingo de sol, não foi jogo, mas um exemplo claro de burla das regras, com jogadores, juízes e próceres usando todos os expedientes para vencer. Em Valha-me Deus, constatei, um tanto perturbado, os limites entre a vitória e o desempenho, as regras e o inesperado do próprio jogo cediam a vez para a ambição da vitória.

Com isso, era costume a compra de juízes e bandeirinhas que se vendiam por cerveja choca, maços de cigarro e favores sexuais. A generalização desta prática, aliada ao desejo doentio de vencer a qualquer custo, levou o Bacaba a denunciar com veemência as falcatruas, o que lhe valeu um aumento de prestígio numa comunidade um tanto cansada de tantas roubalheiras que tiravam o sabor das disputas, impediam honrar as regras do jogo e cobriam de dúvidas as mais duras e belas vitórias. A venalidade generalizada contaminava aquele futebol, pondo em suspeição todas as pessoas ligadas aos seus times o que, logo vi, implicava toda a população do povoado.

Tal atitude coincidiu com a eleição de um “bacabense” à prefeitura local, elevando o moral do clube, que logo contratou um técnico muito bom de uma vila vizinha. O sujeito ordenou o time que conquistou sem dificuldades o campeonato local, tornando-se o mais popular de Valha-me Deus.

A vitória, a excelência esportiva e a fartura de recursos forjaram então um ambicioso plano de infalibilidade futebolística. Em vez do mero uso da venalidade de árbitros, técnicos, massagistas e membros das diretorias dos clubes, os “bacabenses” reuniram recursos da prefeitura e, num ato genial, decidiram fazer aquilo que nenhum outro clube havia ainda tentado antes: comprar os próprios jogadores! Ou seja, transformaram em valor e objetivo o conjunto de venalidades tidas como ocorrências deploráveis mas episódicas, passíveis de ocorrer num meio apaixonado pela bola.

Fez, pois, o Bacaba Futebol Clube uma revolução naquela comunidade. Mas, depois de vencer todos os campeonatos, acabou por aniquilar o futebol como jogo, transformando o sal de sua improbabilidade numa paulificante e previsível solenidade.

Um dia estourou uma crise em Valha-me Deus. Uma onda de denúncias havia liquidado a paz futebolística da comunidade, quando um dos juízes comprados resolveu “contar tudo”. Agora, diziam-me desanimados os moradores, como é que os campeonatos vencidos, mas obviamente roubados, iriam ser devolvidos? Como apagar os erros do passado se o passado era inatingível? Alguém propunha dissolver tudo e acabar com o futebol. Bacabenses fanáticos falavam numa conspiração da inveja. Outros, mais práticos, sugeriam mudar o sistema de disputas, liquidando a competição, esse mal do mundo que havia lamentavelmente contaminado Valha-me Deus. Alguns sugeriram mudar a forma da bola, do campo e dos travessões. O problema maior era a falta de referência que apagava as diferenças e embaçava os limites.

Algum tempo depois, retornei ao local para encontrar uma Valha-me Deus sem a menor paixão pelo futebol que seus habitantes mais instruídos e politizados diziam ter sido uma mania infantil e reacionária. Nessa ocasião, um jovem prefeito moderno, compenetrado, preocupado com a luta de classes, com a inclusão social e com a pobreza, elaborou: “Nosso interesse está na política. Política, mestre Ruberto, com ‘P’ maiúsculo. Agora estamos jogando o jogo certo, pois finalmente há aí um partido novo, formidável e favorável aos oprimidos. O nome do seu líder é?”

Talvez o leitor possa adivinhar o que tem ocorrido desde então em Valha-me Deus. De minha parte eu apenas digo que os eventos recentes são de estarrecer, pois afetam o centro do seu campo político. Engolfada no próprio cinismo, descobrindo não ter nem limites, nem a âncora das normas que já nos velhos tempos do futebol recusava honrar, Valha-me Deus subitamente se dá conta da imensa dificuldade de apurar-se a si própria. Falar desse purgatório, porém, seria, como dizia o poeta, uma outra história? (Volto, se os deuses assim quiserem, em setembro.)

ROBERTO DaMATTA é antropólogo.

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