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Vingança da História

Demétrio Magnoli, O Estado de S. Paulo, 16/11/06

Os homens de George H. Bush, o pai, cercam agora George W. Bush, o filho, e se engajam numa operação de resgate. O que se tenta salvar já não é o lugar do governo na posteridade, mas apenas a ordem estatal no Oriente Médio.

Os neoconservadores procuram justificativas circunstanciais para o desastre iraquiano e voltam a artilharia contra Bush, o filho, que é sua criatura. Richard Perle afinou a orquestra, repetindo as críticas sobre os erros cometidos na ocupação, mas, surpreendentemente, afirmou que, se existisse uma segunda oportunidade na História, não voltaria a defender a invasão do Iraque.

Na Guerra do Golfo de 1991, sob Bush, o pai, os EUA derrotaram as forças iraquianas, mas preservaram o regime de Saddam Hussein, que era a solda da unidade do Iraque e o principal contraponto regional à influência do Irã. Na Guerra do Iraque, em 2003, os EUA de Bush, o filho, desafiando o realismo político, aboliram a ditadura iraquiana e anunciaram o renascimento democrático do mundo árabe-muçulmano. Hoje, a falência dessa política só é negada por um punhado de ideólogos delirantes.

‘Os interesses vitais dos Estados Unidos e as nossas mais profundas crenças agora se confundem. A melhor esperança de paz em nosso mundo é a expansão da liberdade em todo o planeta.’ Essas palavras, do segundo discurso inaugural de Bush, em janeiro de 2005, não pertencem ao domínio da retórica vazia. O petróleo representa, obviamente, um elemento estrutural no cálculo político americano no Oriente Médio. Mas, ao contrário do que reza uma lenda vulgar, Bush não decidiu invadir o Iraque para atender às companhias petrolíferas, que preferiam a estabilidade oferecida pela estratégia de contenção de Saddam Hussein. A invasão obedeceu à doutrina de ‘reforma do mundo’ que inspira o pensamento neoconservador.

A doutrina cruzadista vira as costas à História. O Estado iraquiano foi fabricado pelos britânicos, em 1920. Os campos petrolíferos de Kirkuk, no norte curdo, e a saída marítima do Porto de Basra, no sul árabe e xiita, estavam separados pelas terras árabes e sunitas da área de Bagdá. Para controlar o petróleo da Mesopotâmia, os britânicos inventaram o Iraque agrupando essas três vilayets (regiões) otomanas. Quando o país se tornou soberano, os sunitas de Bagdá surgiram como fiadores da unidade e, pouco mais tarde, um nacionalismo iraquiano floresceu ao abrigo da ditadura do Partido Baath. Os conservadores realistas do governo de Bush, o pai, reconheciam os riscos de dissolver a cola que unia o Iraque. Mas os neoconservadores nada reconheciam, a não ser os imperativos de sua ideologia.

Havia mais que desprezo pela História na decisão de invadir o Iraque. A idéia de que a ‘liberdade’ e a ‘democracia’ devem ser inoculadas no mundo árabe-muçulmano pelos soldados do Ocidente é um fruto extemporâneo do conceito do ‘fardo do homem branco’ que animou a aventura colonial européia. Na literatura ocidental sobre o mundo árabe, esse conceito se desdobrou como uma condenação histórica: os muçulmanos, presos a um lastro cultural que não foi varrido pela Reforma e pelo Iluminismo, seriam incapazes de combater sozinhos a tirania.

‘A doutrina ocidental do direito de resistir a um mau governo é estranha ao pensamento islâmico’, escreveu Bernard Lewis, o mais célebre dos orientalistas contemporâneos, sem se importar com os movimentos modernistas que fragmentaram e diversificaram o ‘pensamento islâmico’. Os americanos foram ao Iraque fazer aquilo que, de acordo com esses sábios ocidentais, os árabes não poderiam fazer nas suas próprias sociedades. Mas a soberba intelectual tem um preço.

Bush estabeleceu, como critério da vitória, a reinvenção do Iraque como Estado ‘democrático’, o que significava a implantação de um regime pró-americano em Bagdá. Os dirigentes político-religiosos xiitas traduziram a meta da ‘democracia’ nos seus próprios termos, que implicam um Iraque sob regime xiita em aliança com o Irã. É essa a moldura que explica o aprofundamento da resistência armada sunita e o fortalecimento do separatismo curdo.

As eleições para o Congresso dos EUA assinalaram o esgotamento da iniciativa americana no Iraque. Os democratas vitoriosos acenam com a exigência de um cronograma de retirada das tropas. O governo, sem plano ou rumo, aguarda as conclusões do Grupo de Estudo do Iraque, uma comissão bipartidária liderada por James Baker, ex-secretário de Estado de Bush, o pai.

Segundo os indícios disponíveis, a Comissão Baker prevê uma sangrenta fragmentação do Iraque em três entidades autônomas e sugerirá algo como uma ‘retirada para as vizinhanças’. Isso seria a saída das tropas de ocupação das cidades do Iraque, com o agrupamento de forças em bases no deserto iraquiano e em países limítrofes, a fim de oferecer sustentação ao governo de Bagdá e dissuadir o Irã e a Síria de interferirem diretamente na guerra civil iraquiana.

‘Guerras civis são boas para separar populações e estabelecer a paz civil’, afirmou Edward Luttwak. O consultor do Pentágono parece não enxergar com nitidez as conseqüências do fracasso. A fragmentação do Iraque, além do cortejo de horrores da limpeza étnica, dinamitaria os alicerces da ordem regional. Abdullah Gul, o ministro do Exterior turco, alertou os líderes curdos para o ‘erro histórico’ que cometeriam dividindo o Iraque e lembrou-lhes que, ao contrário dos EUA, ‘a Turquia permanecerá na região eternamente’. A Al-Qaeda sonha instalar um Estado jihadista no ‘triângulo sunita’ iraquiano. O Irã, de olho no Iraque meridional, aposta num ‘crescente xiita’ que se estende até o Líbano.

O fracasso da Doutrina Bush lança sobre o Oriente Médio a sombra da guerra geral. Os EUA sondam a hipótese de abrir negociações com o Irã e a Síria. Israel, por seu lado, prepara-se abertamente para uma guerra contra esses dois países.

Demétrio Magnoli é sociólogo e doutor em Geografia Humana pela USP. E-mail: .encoded_email

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