A aposta arriscada do Banco Central de Dilma Rousseff
Sobre meu post A Espanha é o Brasil amanhã? Bill Smith comentou no Facebook:
Sim, o [economista] espanhol identifica um problema real, serio. Porém há uma diferença FUNDAMENTAL, pois o Brasil tem sua própria moeda e seu próprio Banco Central. Portanto tem maior autonomia e capacidade para controlar os efeitos perversos do excesso de crédito e possíveis bolhas provocados por consumo excessivo.
Virgílio Campos, também no Facebook, notou que o endividamento no Brasil, tanto público quanto privado, é menos de 40% do PIB, menos da metade da Espanha.
Entendo as diferenças. Se ela não existissem, a Espanha não seria o Brasil amanhã, mas hoje, não é?
Hoje o Estadão noticia que o governo brasileiro continua a apostar na expansão do crédito ao consumidor, apesar do aumento acelerado da parcela do salário dos brasileiros comprometida com prestações.
Desde a crise de 2008, quando o governo aumentou a oferta de crédito para manter a economia aquecida, a dívida total dos brasileiros saltou 80,7% e o valor das parcelas pagas mensalmente cresceu 60%. Enquanto isso, o salário aumentou bem menos: 33,3%.
Dados do Banco Central revelam que o endividamento das famílias está no nível mais alto da história: pessoas físicas devem cerca de R$ 715,19 bilhões aos bancos em operações das mais simples, como o microcrédito e o cheque especial, até financiamentos longos, como o imobiliário e de veículos, passando pelo caro cartão de crédito.
Segundo o BC, cada brasileiro deve atualmente 41,8% da soma dos salários de um ano inteiro, um recorde. Há pouco mais de três anos, quando começou a crise de 2008, brasileiros deviam o correspondente a 32,2% de sua renda de 12 meses.
O Banco Central, segundo a mesma matéria do Estadão, acha que tudo bem, porque os bancos têm aumentado o prazo e diminuído os juros dos empréstimos. As famílias ainda têm margem para se endividar mais.
Estaria tudo bem, eu imagino, se o investimento e a produção nacional crescessem atrás do aumento do consumo alavancado por endividamento. Mas não é isso que acontece. O investimento e a produção estão perdendo o fôlego, por razões que José Roberto Mendonça de Barros analisa neste artigo. Ele alerta:
O Brasil tem um evidente problema na oferta, que é anterior a atual crise europeia, mas que pode ser agravada por ela. Alguma desvalorização cambial, dinheiro barato do BNDES, mais intervenção governamental e confeitos tributários não são mais capazes de mover decisivamente o investimento. A combinação da crise e das nossas limitações locais resulta num peso considerável para os próximos anos.
Nesse quadro, o otimismo do Banco Central me lembra o último pensamento daquele cara caindo do edifício: “Até aqui, tudo bem”.





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