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A cultura do desemprego anunciado

José de Souza Martins, O Estado de S. Paulo, 15/02/09

Ela secundariza os indivíduos, amplia dependências e muda comportamentos, mesmo sem a perda da ocupação

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Filipe Araújo/AE
EM ASSEMBLÉIA - Descrédito dos valores mais arraigados de conduta

SÃO PAULO - Os sinais de que a crise econômica resultante da especulação financeira está chegando aqui nos vêm através do desemprego anunciado, uma relativa novidade no funcionamento do mercado de trabalho. Relativa novidade se comparada com o modo como, há meio século, o desemprego alcançava os trabalhadores. Ontem, havia uma cultura do trabalho, de que a perda do emprego, e não propriamente o desemprego, era um capítulo menor. O trabalhador chegava à empresa de manhã cedo e não encontrava na chapeira o seu cartão de ponto. Ficava amarelo, pois já sabia que ia receber o bilhete azul, a demissão. Ser demitido era um drama, pois era como receber uma marca depreciativa na biografia profissional, demissão que tinha que ser explicada ao novo potencial empregador. O desemprego aparecia como questão pessoal e não como questão social, que é o que ocorre hoje.

Não era natural ficar desempregado. Em boa parte porque o chamado mercado de trabalho era no Brasil um mercado dual: um setor urbano, industrial e moderno, em que tinham vigência as leis trabalhistas desde os anos 40; e um setor agrícola, rural e atrasado em que tinham vigência os costumes de formas semisservis de trabalho, resquícios de como se deu o fim da escravidão e a implantação do trabalho livre sem adoção do trabalho assalariado. Uma anomalia bem brasileira que assegurou a imensa acumulação de capital que empurrou o Brasil para o mundo moderno.

Entre os dois Brasis, a mão de obra escoava devagar do Brasil agrícola para o Brasil industrial, de modo que o atraso funcionava como um regulador do mercado de trabalho urbano, assegurando uma espécie de falso regime de pleno emprego que se expressava na estabilidade do trabalhador na ocupação, não raro várias gerações de uma mesma família trabalhando para os mesmos patrões durante décadas. Criou-se uma cultura laboral a partir dessa realidade semicapitalista que, de certo modo, norteia ainda hoje a mentalidade do trabalhador, sua concepção de emprego e trabalho e suas aspirações. Havia desempregados, mas não propriamente desemprego como estado social, como praga, como doença de paciente em UTI, cuja febre é medida regularmente pelo chamado índice de desemprego.

Já nos anos 50, com o boom da indústria automobilística e as secas no Nordeste, fluxos intermináveis de trabalhadores deixaram a roça pela fábrica. Falou-se muito na seca como causa das migrações internas, o que ajudou a criar nas grandes cidades um estado de espírito favorável ao acolhimento dos migrantes que chegavam em grandes grupos. Ao mesmo tempo emergia o preconceito contra o “baiano”, pelas tensões decorrentes da degradação urbana representada por favelas e cortiços, expressões da degradação salarial e do descompasso entre a oferta e a demanda de mão-de-obra. Praticamente não se falou nos efeitos perversos da acelerada modernização no campo, promovida e financiada pelo governo, que teve como imediata consequência a expulsão de milhares de trabalhadores da agricultura, a mão-de-obra substituída por máquinas, herbicidas e fertilizantes e terras inúteis para a agricultura comercial, usadas na subsistência dos trabalhadores, convertidas em terras economicamente aproveitáveis. O que outros países viveram cem anos antes, vivemos aqui tardiamente, numa prolongada agonia. Foi nosso recurso substitutivo para a chamada acumulação originária. A falta de uma reforma agrária que acompanhasse e compensasse o desemprego rural, num momento em que poderia ter sido feita justamente para atender ao aumento da demanda de alimentos pelo mercado interno, despejou nas grandes cidades os induzidos excedentes de mão-de-obra da agricultura. Até hoje, o desemprego urbano e industrial é em boa parte disfarce do desemprego rural. O Bolsa-Família é apenas o remendo que atenua para 11 milhões de famílias os efeitos da inserção econômica defeituosa.

Terminado o período de euforia econômica dos anos 70, disseminou-se o desemprego como estado permanente e problema social, como novo conceito no lugar do mero conceito de desempregado, os custos das oscilações da economia transferidos para os trabalhadores, bem como a responsabilidade pelo problema. No fundo, a nova mentalidade laboral diz a todos que o trabalhador é o responsável pela falta de trabalho. O desempregado individual passou a ser a vítima do desemprego social, cabendo-lhe definir as estratégias para superar ou contornar essa interiorização de um problema coletivo, que não causou. Hoje, um número extenso de famílias da classe trabalhadora e da classe média já experimentou ou tem experimentado continuamente a presença de ao menos um membro desempregado, subempregado, empregado precariamente ou à procura de emprego. Num momento da história social em que a independência pessoal é uma aspiração própria da modernidade, o desemprego reforça a dependência em relação à família e faz da família uma espécie de trabalhador coletivo substituto do trabalhador individual e da contratualidade do trabalho. Uma tensão entre tendências opostas da realidade, que justamente define a modernidade como a impossibilidade plena do moderno - no direito social, no direito econômico, na conduta pessoal e na vida social. De certo modo, nesses casos, é a família que, ao socializar as perdas do desemprego de um de seus membros, subsidia as empresas beneficiárias da redução dos custos do trabalho e mascara o que o desemprego efetivamente é.

De fato, o desemprego secundariza as pessoas, não só o desempregado, e dissemina a cultura dessa secundarização, que é uma cultura de medo, incerteza e conformismo. Mesmo que a perda do emprego não se confirme para a maioria, a cultura do desemprego anunciado chega a todos. Uma cultura que afeta todas as instituições, da família à religião, muda padrões de comportamento, reforça a dependência material de uns em relação aos outros, fragiliza a coesão social, promove o descrédito dos valores de referência da conduta de cada um e de todos.

José de Souza Martins é professor titular de sociologia da Faculdade de Filosofia da USP e autor, entre outros títulos, de A Aparição do Demônio na Fábrica (Editora 34)

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