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A dureza de ser cidadão do limbo

José de Souza Martins, O Estado de S. Paulo, 28/06/09

Imigrar, migrar, emigrar são palavras que estão há várias gerações no vocabulário de milhões de brasileiros, tanto com sinais positivos quanto com sinais negativos. O Brasil, particularmente São Paulo, viveu o episódio épico e dramático da Grande Imigração, entre 1886 e 1888. Às vésperas do fim já previsível da escravidão negra, o governo intensificou sua política de recrutamento e imigração de camponeses europeus pobres, mais tarde, também de japoneses. Não propriamente para substituir nos cafezais o negro liberto. A imigração se impunha porque o café estava em acelerada expansão territorial, ocupando novas terras e precisando desesperadamente de mais mão-de-obra.
                                                   
Além dos que foram mandados para os cafezais, uma rede de núcleos coloniais, para efeito de demonstração e para contrabalançar a agricultura de exportação com produtos de subsistência, foi também espalhada pelo governo e por particulares, desde o Rio Grande do Sul até o Espírito Santo. Tentava-se, com isso, criar na Europa a impressão de que o imigrante que viesse para o Brasil se tornaria proprietário de terra, se “fosse morigerado, sóbrio e laborioso” como proclamou, em 1888, no Senado do Império, Antônio Prado, ministro da Abolição, grande fazendeiro de café e empresário. Teria aqui o que a Europa não lhe dera. Mas houve, também, multidões de trabalhadores temporários que migravam todo ano, a pé, de Minas Gerais e do Nordeste para trabalhar na colheita de café na Alta Mogiana, dos quais pouco se fala. O século XIX criou um mundo de peregrinos, que nos marca até hoje.

Se levarmos em conta unicamente a imigração de italianos e alemães para o Sul do Brasil e as sucessivas gerações de seus descendentes, podemos notar que esse movimento migratório não terminou: do Rio Grande migraram para Santa Catarina e o Paraná, na geração seguinte, e, na década de 1970, estavam migrando para Rondônia, Mato Grosso e Pará. Migrações motivadas pela impossibilidade de reproduzir a agricultura familiar no território do assentamento original, uma busca de lugares para manutenção de um modo familístico de ser com base no capital social de uma rica cultura agrícola e artesanal. Hoje muitos descendentes dos primeiros imigrantes estão retornando à terra de seus antepassados porque este já não é o país do futuro.

É que os tempos mudaram. O Brasil já não tem falta de mão-de-obra para os diferentes setores de sua economia, no campo e na cidade. O desemprego proclama todos os dias que há mais gente procurando emprego do que emprego procurando gente. Com ou sem dupla cidadania, muitos vão para a Itália, a Alemanha, o Japão, a Espanha, a Portugal, em busca da oportunidade que foi um dia negada a seus avós. E que o Brasil, de algum modo, lhes ofereceu, não por uma opção humanitária: o imigrante foi trazido para cá como mão-de-obra e não como pessoa, um outro modo de ser mercadoria e coisa, que estava na própria condição do escravo. Não é, por isso, casual que bolivianos venham hoje a ser escravos em São Paulo, no marco dessa mentalidade. para ganhar na indústria de confecções menos do que seu trabalho vale. Ou que imigrantes de outras origens não encontrem aqui o que vieram buscar e aqui padeçam a desumanização de que fugiram.

Na migração de retorno dos netos à terra dos avós, os tempos não mudaram tanto. Os decasséguis no Japão não são reconhecidos como japoneses e são temidos, porque estranhos. Os italianos, espanhóis, alemães e portugueses retornados à terra dos antepassados, não são menos estranhos, tratados como estrangeiros que de fato se tornaram. Padecem as consequências das mudanças que várias gerações de ausência inscreveram em sua personalidade, em sua cultura, em sua língua, em seus valores, em seu modo de pensar. Esse retornado já não pode ser reconhecido como um membro da sociedade a que retorna.

O passaporte da opção pela dupla nacionalidade não tem efeitos sociais na cultura e na sociabilidade do homem comum, que vê no retornado um ser que se inferiorizou pela ausência. S. N. Eisenstadt, sociólogo que se notabilizou por estudos sobre os jovens e sobre as migrações, criou um conceito fundamental para compreender os dramas de quem migra, o de dessocialização. Já na viagem, as pessoas se dessocializam, descobrem que seus valores de orientação perdem eficácia e função, entram na sociabilidade provisória própria da viagem, o que os abre para a ressocialização na sociedade de adoção, como se chegassem despidos. O migrante vive num limbo, não raro até o fim da vida, como cidadão de lugar nenhum.

Mais grave quando a migração não tem nem mesmo o respaldo de uma origem no lugar de destino. É o caso de um número imenso de migrantes de muitos países, dentre eles muitos brasileiros, que tentam a vida em outros países. Lugares dos que estão dispostos às ocupações inseguras e servis, justificadas apenas pelo ganho acima do que poderiam obter nas sociedades de origem, mas inferior ao que os locais exigem pelo mesmo trabalho. Sociedades da clandestinidade e da remuneração aquém do que os nativos do país de destino estão dispostos a aceitar. Não raro, não só a remuneração inferior, mas também a ocupação que humilha, recusada pelos locais porque desumanizam quem delas se ocupa; apenas pelo dinheiro maior que pode assegurar um retorno à pátria mais cedo, com meios para um recomeço mais alto.

O caso de Jean Charles mostra que mesmo a civilizada Inglaterra compartimentou a condição humana, reconhecendo em uns os que a tem e em outros os que não a merecem, discriminados pela cara ou pela cor da pele, que hoje são cara e cor de conflitos radicais, de injustiças históricas. Sobretudo, são cara e cor das vítimas de uma economia que banalizou o trabalho e privou o mundo das esperanças anunciadas. Uma cultura da maldição e da estigmatização cobriu o mundo nas últimas décadas, distanciando-nos das grandes conquistas anunciadas pela Revolução Francesa, relativas ao fato de que todos os homens nascem e são livres e iguais em direitos.

Professor Emérito da Faculdade de Filosofia da Universidade de São Paulo. Dentre outros livros, autor de Fronteira – A degradação do Outro nos confins do humano. Editora Contexto, São Paulo, 2009.

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