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A economia capitalista como realização da ficção

José de Souza Martins, 17/05/09

Recebi e repasso-lhes esta historieta sobre a realidade cotidiana da economia. Não sei se, nestes tempos de crise, é para rir ou chorar.

Essa história me lembrou imeditamente os estudos de John Maynard Keynes e de Joan Robinson, dois professores de Cambridge, sobre a circulação da moeda, a importância econômica de sua velocidade, a realização do valor e seu efeito multiplicador na renda e no emprego.

Lembrei-me, também, de outro professor de Cambridge, Dennis Robertson, autor de um livro muito interessante sobre o dinheiro - “A Moeda” - no Brasil publicado pela Editora Zahar há muitos anos. Cada capítulo do livro é encimado por uma epígrafe tirada dos livros de lieratura do absurdo, de Lewis Carroll, o pastor anglicano que escreveu os dois notáveis livros inspirados na menina Alice Liddel, um deles “Alice no País das Maravilhas”.

A historieta de certo modo sintetiza o que li, há muitos anos, num estudo notável e muito bem documentado, do historiador David Joslin, também de Cambridge, sobre o Bank of London and South America Ltd., que usava o mesmo capital para comprar e viabilizar a economia da borracha na Amazônia, em seguida, uma vez realizados os valores, deslocava esse capital para a economia do açúcar no Nordeste e mais adiante, no mesmo ano, o mesmo capital era utilizado para movimentar a economia do café no Sudeste do Brasil, particularmente em São Paulo. A importância do capital da empresa não estava apenas na riqueza em si, mas em suas funções de realização de diferentes riquezas e economias com o mesmo dinheiro.

No fundo, mesmo, é por isso que o capital deles se multiplica e o meu salário se esvai.

Numa pequena vila e estância na costa sul da França, chove, e nada de especial acontece. A crise sente-se. Toda a gente deve a toda a gente, carregada de dívidas.

Subitamente, um rico turista russo chega ao foyer do pequeno hotel local. Pede um quarto e coloca uma nota de €100 sobre o balcão, pega uma chave de quarto e sobe ao 3º andar para inspecionar o quarto que lhe indicaram, na condição de desistir se lhe não agradar.

O dono do hotel pega na nota de €100 e corre ao fornecedor de carne a quem deve €100, o talhante pega no dinheiro e corre ao fornecedor de leitões a pagar €100 que devia há algum tempo, este por sua vez corre ao criador de gado que lhe vendera a carne e este por sua vez corre a entregar os €100 a uma prostituta que lhe cedera serviços a crédito. Esta recebe os €100 e corre ao hotel a quem devia €100 pela utilização casual de quartos à hora para atender clientes.

Neste momento o russo rico desce à recepção e informa ao dono do hotel que o quarto proposto não lhe agrada, pretende desistir e pede a devolução dos €100. Recebe o dinheiro e sai.

Não houve neste movimento de dinheiro qualquer lucro ou valor acrescido. Contudo, todos liquidaram as suas dividas e estes elementos da pequena vila costeira encaram agora otimistamente o futuro.

Dá o que pensar…

economia ·
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