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A guerra fria entre EUA e Irã esquentou

Rasheed Abou-Alsamh, O Globo, 13/01/12

O anúncio pelo Irã no início deste mês que poderia fechar o Estreito de Ormuz foi uma reação agressiva à nova lei americana assinada pelo presidente Barack Obama no último dia de dezembro, que diz que os EUA poderão impor sanções econômicas a qualquer país do mundo que tenha transações financeiras com o banco central iraniano.

Logo depois a União Europeia anunciou que ia impor sanções contra importações de petróleo iraniano para o continente. As duas ações foram vistas em Teerã como uma declaração de guerra econômica contra a república islâmica do Irã. Um pouco antes do Natal, os Estados Unidos anunciaram a venda de um pacote de aviões de caça F-16 para a Arábia Saudita e outros armamentos num valor fantástico de US$23.480 bilhões, parte de um contrato ainda maior, de US$46.960 bilhões, em armamentos para o reino.

Nada disso foi por acaso. Uma guerra fria permanente de contenção entre os EUA e o Irã tem ocorrido no Golfo Pérsico e no Grande Oriente Médio, com os países árabes do Golfo sempre na linha da frente dessa batalha.

O conflito entre o Ocidente, os reinados sunitas árabes do Golfo e o Irã já dura na verdade 33 anos, ou desde que a revolução islâmica do aiatolá Khomeini derrubou a ditadura pró-americana doXá Reza Pahlavi em 1979. Desde o começo do governo dos aiatolás, o Irã tem pregado a exportação de sua revolução islâmica e xiita para outras partes do Oriente Médio. Isso levou peregrinos iranianos a realizar manifestações anuais antiamericanas e anti-israelitas durante o Haj em Meca, na Arábia Saudita, começando em 1981.

Elas culminaram em um confronto mortal com forças de segurança sauditas em 1987, que deixou 400 peregrinos mortos e milhares feridos. Depois dessa tragédia, a Arábia Saudita rompeu relações diplomáticas com o Irã por vários anos, e as relações ficaram balançadas desde então.

Essa predileção iraniana de sempre querer ajudar seus correligionários e os mais fracos no Oriente Médio tem levado o Irã a dar apoio econômico, diplomático e moral ao movimento xiita do Hezbollah no Líbano, e até mesmo ao movimento sunita Hamas, na Faixa de Gaza. Mas isso tem levado a um choque frontal com os interesses americanos e sauditas na região.

O programa nuclear dos iranianos, que foi inaugurado nos anos 1950 pelo Xá com ajuda americana, e retomado nos anos 1980 pelos aiatolás, que receberam ajuda técnica até dos argentinos, é o pivô do mais recente confronto entre o Irã e o Ocidente. EUA, França, Grã-Bretanha e Alemanha acusam o Irã de estar desenvolvendo energia nuclear para fazer bombas atômicas, acusação que Teerã nega veementemente.

A realidade é que o Irã precisa de energia nuclear para produzir eletricidade para atender às necessidades dos seus quase 74 milhões de cidadãos. Até os Emirados Árabes e a Arábia Saudita anunciaram no ano passado o início de programas civis de energia nuclear bilionários com o apoio dos EUA e de empresas francesas e sul-coreanas. Todos esses países estão embarcando na onda de energia nuclear para liberar reservas petrolíferas — hoje usadas para gerar energia elétrica para seus povos a preços subsidiados — para a exportação.

Apesar de o Irã ser signatário do Tratado de Não Proliferação Nuclear, e de o ministro da Defesa americano, Leon Panetta, admitir, em entrevista à rede CBS de televisão este mês, que os iranianos não estão tentando desenvolver uma arma nuclear, mas sim uma capacidade nuclear, os que batem os tambores de guerra, infelizmente, parecem ter a vantagem por enquanto em Washington.

É irônico que um presidente democrata, como Obama, tem sido muito mais belicoso com os iranianos do que foi o presidente republicano George W. Bush. Mas o problema aqui é que os EUA estão enviando sinais mistos e não muito sinceros de querer dialogar com o regime de Mahmoud Ahmadinejad, e ao mesmo tempo ameaçando o Irã com um possível ataque a suas instalações nucleares se o país não parar de tentar, alegadamente, desenvolver uma arma nuclear.

Observadores já disseram que não acham que o Irã irá bloquear o Estreito de Ormuz porque o maior prejudicado seria ele mesmo, bem como os maiores compradores do seu petróleo — a saber, Índia e China. Os Emirados Árabes já estão adiantados na construção de um oleoduto que ultrapassa o Estreito e que, quando pronto, em junho, irá levar o petróleo de Abu Dhabi diretamente para o Golfo do Omã. A Arábia Saudita tem uma rede de oleodutos já prontos que poderia levar o petróleo bruto da província oriental para portos ocidentais na sua costa do Mar Vermelho.

O Ocidente, juntamente com Israel, que se sente ameaçado pelo Irã desde quando Ahmadinejad declarou alguns anos atrás que queria empurrar o Estado judeu para o mar, estão numa guerra subversiva contra o programa nuclear iraniano, com uma série de assassinatos de cientistas nucleares iranianos, o mais recente esta quarta-feira, e a introdução de vírus para sabotar computadores iranianos.

Todos sabem quão desastroso para o mundo inteiro seria uma guerra entre o Irã e o Ocidente, mas mesmo assim há muitos no governo americano que querem apostar em apertar as sanções ao Irã tão fortemente que provocariam uma mudança de regime em Teerã. Mas o Irã já sobreviveu a mais de 30 anos de sanções econômicas e uma guerra sangrenta de oito anos com o Iraque. O povo iraniano vê seu programa nuclear com olhos nacionalistas, e por isso qualquer ataque ao Irã fortaleceria o apoio popular ao regime.

O que o mundo precisa urgentemente é da intervenção de potências regionais, como o Brasil e a Turquia, para poder desarmar a tensão entre o Ocidente e o Irã, que, se ignorada, possivelmente irá nos levar a uma guerra desastrosa e totalmente evitável.

RASHEED ABOU-ALSAMH é jornalista, colaborador do “Al-Ahram Weekly” (Egito) e do site Tehran Bureau (EUA), foi colunista e editor do “Arab News” (Arábia Saudita) e do “The National” (Emirados Árabes). Blog: http://www.rasheedsworld.com. Twitter: @RasheedsWorld.

internacional · armas nucleares, eua, irã, islã
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