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A inércia como ‘estratégia’

Ruy Barreto Filho, O Globo, 13/01/12

O consumo do café solúvel cresce em ritmo acelerado em todo o mundo, a taxas de 3% anuais, mas o Brasil, que já foi o maior exportador do produto, está perdendo espaço neste promissor mercado. Somos alvo de injustificável discriminação comercial da União Europeia, sem uma efetiva reação do governo, que adota postura de nação coadjuvante, não de líder emergente.

Enquanto indústrias europeias exportam livremente café industrializado para o Brasil, não há contrapartida para a sobretaxa de 9% que a UE impõe ao solúvel nacional. A grande ironia é que o café industrializado europeu, o torrado e moído consumido aqui, é, em grande parte, produzido com café verde (grão) brasileiro.

O governo permite a importação do café industrializado europeu sem contrapartidas, privilegiando indústrias localizadas no exterior, mas não autoriza empresas brasileiras a importar o grão, a fim de reutilizá-lo como insumo e exportar o nosso solúvel com valor agregado (o chamado regime de drawback). Síndrome de colonizado?

O resultado da barreira tarifária imposta pela UE desde 2006, sob o falacioso argumento de estimular países menos desenvolvidos, levou a produção de solúvel para outras nações da América Latina, da Ásia e da Europa. Como resultado, veio a redução de nossa produção e de nossas exportações, justamente no período de maior aumento do consumo mundial.

As vendas de solúvel brasileiro para o Velho Continente, que chegaram a ser de 25 mil toneladas em 2004, quando éramos o principal exportador mundial, despencaram para 13,7 mil em 2010. Nesse período, países que sequer contavam com uma fábrica passaram a produzir e exportar solúvel.

O Vietnã montou plantas com capacidade para 20 mil toneladas anuais, totalmente voltadas para a exportação. A Colômbia, que produzia 5 mil toneladas anuais de solúvel, montou novas fábricas e agora produz 20 mil toneladas. A Índia, que contava com rudimentares fábricas e praticamente não consome café, instalou um moderno parque que hoje produz 40 mil toneladas anualmente, passando o Brasil como líder nas exportações de solúvel.

Nos anos 1990, o Brasil contava com 11 fábricas de café solúvel, que produziam em conjunto 130 mil toneladas, a maior parte (80%) voltada para a exportação. De lá para cá, a produtividade dessas empresas até aumentou — num impressionante esforço do setor para manter o seu mercado, a despeito das dificuldades —, mas o número de fábricas caiu para sete, com produção na casa dos 110 mil. Apenas no ano de 2008 a queda nas exportações de solúvel brasileiro foi superior a 20%.

Como além de maiores produtores de café em grão, somos o segundo maior consumidor de café do mundo (cerca de 18,5 milhões de sacas atendem ao mercado interno), para nos mantermos competitivos no mercado mundial deveríamos importar o produto in natura e usá-lo na industrialização, visando à exportação, dentro do regime de drawback.

Ressalte-se que todos os nossos concorrentes adotam esse mecanismo, aproveitando-se inclusive da oferta de grãos a preços mais competitivos em diferentes países. Além disso, a importação desses grãos em nada prejudicaria o produtor nacional, pois seria feita de forma seletiva, suplementarmente à produção interna e sempre voltada para a exportação.

Inexplicavelmente, as gestões que o setor de café solúvel tem feito para que o Ministério da Agricultura autorize o drawback mostram-se infrutíferas, como se a “estratégia” do governo fosse transformar o país novamente num mero exportador de produtos primários, num retorno aos tempos da Colônia. Chegou a hora de superar a “síndrome de colonizado” e reverter esse quadro, sob o risco de perda de mais divisas e do desmanche paulatino de todo um segmento industrial que emprega milhões de brasileiros direta e indiretamente.

RUY BARRETO FILHO é diretor da Café Solúvel Brasília, da Associação Brasileira da Indústria do Café Solúvel e da Associação Comercial do Rio de Janeiro.

economia · café, comércio exterior, indústria alimentícia
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