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A Internet não é o foco

Eduardo Graeff, 13/02/11

Alexia Tsotsis, do TechCrunch, copia o seguinte email como “microprova que isto foi de fato uma revolução da Internet”. Refere-se à derrubada de Hosni Mubarak, claro. O remetente do email é um egípcio residente no Canadá que começou participando da revolução online e acabou voando para o Cairo.

Estou no Egito desde 2 de fevereiro, e como você pode imaginar as coisas estão acontecendo rápido. Esta é a primeira chance que tenho de lhe escrever um email. Tenho ido à praça Tahrir todo dia desde que cheguei, e felizmente estou em segurança e inteiro até agora. O governo usou todos os truques violentos que pôde, menos usar o exército, para matar esta revolução. Recentemente eles resolveram mudar de estratégia, estão usando a TV e imprensa controladas pelo governo para ganhar a opinião pública e virar as pessoas umas contra as outras. Estão instilando medo nos egípcios medianos, medo de invasão estrangeira, espalhando boatos de agentes infiltrados e pessoas a serviço de estrangeiros na liderança da revolução. A verdade é que esta revolução está sendo liderada pela juventude egípcia de classe média e classe alta.

Neste momento, estamos usando a mídia social para reconquistar a maioria da opinião pública, amigo por amigo. É um trabalho duro, porque só 5 milhões de pessoas estão no Facebook e o Egito é um país de 80 milhões. Contudo, acreditamos que podemos educar as pessoas que estão na mídia social e elas acabarão ajudando a educar o resto da população. O governo está até facilitando isso para nós, usando boatos que são REALMENTE fáceis de desmascarar (i.e. as ameaças estrangeiras está vindo dos: EUA, Irã, Isael, Qatar, Europa. Então o mundo todo resolveu se unir numa conspiração para derrubar o regime egípcio).

Alexia e seu amigo egípcio soam totalmente ciberutopistas, como diria Evgeny Morozov. Mas, a esta altura, acho que nem Morozov deixaria de se contagiar um pouco com a vibração deles.

Não me parece, em todo caso, que eles pensem que esta revolução da Internet foi feita pela Internet. Não foi, como tampouco foi a eleição de Barack Obama. A revolução aconteceu, a eleição foi ganha porque a maioria dos egípcios e americanos estava pela tampa com George W. Bush e Hosni Mubarak, respectivamente. A Internet foi um instrumento que ajudou as pessoas a fazer o que elas tinham que fazer. A certa altura, tirar a Internet do ar apressou o fim do regime porque empurrou as pessoas para a rua.

Os mais velhos, como eu, podem lembrar do lema da Organização Latino-Americana de Solidariedade, criada em Havana em 1967: “O dever de todo revolucionário é fazer a revolução”. A partir dele, baseado no exemplo da revolução cubana, Régis Debray, um jovem francês semialfabetizado em marxismo, criou a teoria do foco revolucionário. Quase morreu junto com Che Guevara na Bolívia. No Brasil, muitos jovens morreram na onda do foquismo. Outros, como José Genoíno, José Dirceu e Dilma Rousseff, tiveram mais sorte: sobreviveram para contar a história. Mas até hoje não contaram direito.

Hoje, como ontem, é uma bobagem perigosa imaginar que revoluções são feitas por um ato de vontade de alguma vanguarda com verdades na cabeça e armas (ou teclados) na mão. Elas acontecem quando a maioria das pessoas comuns não aguenta mais as coisas como estão. Viradas eleitorais como a de Obama acontecem pela mesma razão.

Sem engano, portanto: ciberfoquismo, nem como piada!

comunicação · internet, revolução
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Comentários anteriores (2)
Sergio Caruso em 14/02/11 às 11:02

Graeff, como sempre, gostoso ler um bom texto.
Realmente é bastante oportuno lembrar que a Internet em si não faz nada. Quem faz são as pessoas, que acabam usando a internet, porque a usam em seu dia a dia. Porque é uma ferramenta cada dia mais próxima das pessoas, mais acessível.
Agora querer inverter a ordem, e dar essa importância como se a internet fosse um “ser” que tivesse vida própria, e essa vida própria é ainda por cima democrática, jovem e altruísta, é um pouco demais. #hello!

Sérgio Melo em 15/02/11 às 18:03

O texto mais delicioso que li sobre a cyberutopia de certa fração da juventude antenada. E, de raspão, uma bordoada nos foquistas de não tão antigamente. Perfeito. Movimentos de massa acontecem exclusivamente por causa de .... problemas de massa. Aqui e alí podem existir midias que ajudem na catalização. Mas só isso.

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