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A melhor fase já passou para os Brics

Michael Patterson e Shiyin Chen, O Globo, 29/12/11

Na década passada, fundos mútuos despejaram quase US$70 bilhões em Brasil, Rússia, Índia e China, ações de empresas desses países mais do que quadruplicaram os ganhos no Standard & Poor’s 500 Index, e suas economias cresceram quatro vezes mais rapidamente que a americana. Agora, a Goldman Sachs, que cunhou o termo Brics, diz que o melhor já passou para os maiores países emergentes.

Os fundos dos Brics tiveram perdas de US$15 bilhões este ano, enquanto o índice MSCI Brics caiu 24%, segundo dados da EPFR Global. O indicador, que superou o S&P 500 por 390 pontos percentuais de novembro de 2001 a setembro de 2010, agora vem ficando abaixo dele nos últimos quatro meses, o mais longo período desde que o Goldman Sachs previu que os Brics se juntariam aos EUA e ao Japão como as maiores economias do mundo, em 2050.

“Nos mercados emergentes, achamos que as coisas vão piorar antes de tornarem a melhorar”, disse Michael Shaoul, presidente da Marketfield Asset Management, de Nova York, que em fevereiro previu que as ações de países em desenvolvimento cairiam este ano. O Marketfield Fund, que gerencia US$845 milhões, superou 97% dos concorrentes em 2011, segundo dados da Bloomberg.

Os índices dos Brics poderão cair mais 20% no próximo ano, golpeados pela redução de liquidez decorrente da crise da dívida soberana da Europa, segundo Arjuna Mahendran, responsável pela estratégia de investimento na Ásia do HSBC Private Bank, que gerencia cerca de US$499 bilhões. Países como Indonésia, Nigéria e Turquia podem ofuscar os Brics nos próximos cinco anos ao acelerar seu crescimento a partir de níveis mais baixos de desenvolvimento, diz Mahendran. E continua: “A desaceleração a que estamos assistindo nos Brics pode continuar no primeiro semestre. Comparando com os EUA, os lucros das empresas não têm sido o que se esperava, na medida em que elas enfrentam reivindicações salariais, juros mais elevados e volatilidade cambial. Na melhor das hipóteses, só começaremos a ver os efeitos de uma política monetária mais frouxa no segundo semestre de 2012.”

No último trimestre, o PIB dos quatro países teve o menor crescimento em quase dois anos e o Goldman Sachs atribuiu isto a uma menor oferta de nova mão de obra, concluindo que as taxas de crescimento desses países provavelmente chegaram ao pico. Apesar de as autoridades no Brasil e na Rússia terem começado a baixar o custo do dinheiro, o avanço do índice MSCI diminuirá para 5% no próximo ano, perdendo para o S&P 500 por cinco pontos percentuais, segundo estimativas de mais de 12 mil analistas compiladas pela Bloomberg.

A taxa média de crescimento nos países Brics desacelerará para 6,1% em 2012, contra 9,7% em 2007, de acordo com estimativas do FMI. Isto reduziria o fosso em relação à expansão da economia americana para 4,3 pontos percentuais, o menor desde 2004. A economia global deverá crescer 4% no próximo ano, contida pelo avanço de apenas 1,1% na zona do euro, informou o FMI.

Na China, a maior economia emergente, a expansão está sendo contida pela desaceleração das exportações para a Europa e pelas restrições impostas pelo governo aos investimentos no mercado imobiliário local. O crescimento da Índia tem sido dificultado pela mais rápida elevação das taxas de juro desde 1935 e pela queda recorde do valor da rúpia, o que causou inflação e desestimulou o investimento estrangeiro. Brasil e Rússia, cujo crescimento na última década foi impulsionado pelo aquecimento da demanda por commodities, foram prejudicados pela queda do preço dos metais e pela desaceleração da China.

O índice BSE India Sensitive liderou as perdas entre os instrumentos de avaliação de ativos dos Brics este ano, caindo 23%. O índice Xangai Composite, da China, também caiu 23%, enquanto o Micex, da Rússia, recuou 18% e o Bovespa, do Brasil, 16%. O índice MSCI Emerging Markets caiu 20%, enquanto o S&P 500 ganhou 0,6%.

As taxas de crescimento de longo prazo nos Brics deverão apontar para baixo à medida que sua população economicamente ativa aumente mais vagarosamente e eventualmente se reduza, segundo um relatório do Goldman Sachs. Nele, o economista Dominic Wilson escreveu: “Provavelmente teremos visto o ápice do crescimento dos Brics como um grupo.”

Embora o Goldman Sachs ainda preveja que os Brics se juntem a EUA e Japão como maiores economias do mundo em 2050, o banco antecipou que a contribuição desses países para a expansão global diminuirá nas próximas décadas. Em 2050, o crescimento econômico dessas nações poderá recuar para 4% à medida que sua população economicamente ativa encolha.

O número de pessoas de 15 a 64 anos na Rússia já começou a cair. Na China, o número de trabalhadores chegará a 1 bilhão em 2020 e declinará, segundo estimativas da ONU. O ápice no Brasil será em 2040 e, na Índia, em 2060. Já os EUA deverão continuar ampliando sua mão de obra até 2100.

MICHAEL PATTERSON E SHIYIN CHEN são jornalistas. © Bloomberg News

internacional · brics, crescimento, crise financeira
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