A pedagogia do exemplo
O ministro da Justiça criticou as corregedorias de órgãos públicos que, por corporativismo, “resolvem colocar a sujeira debaixo do tapete”.
Já se disse que é mais fácil modificar um governo do que modificar uma cultura. As pessoas pensam que a coisa pública pertence ao governante, não veem como sua. Enquanto agentes do Estado temos que promover em conjunto com a sociedade ações pedagógicas capazes de denunciar o quanto a corrupção é nociva para a vida de cada brasileiro, o quanto cada cidadão perde com os desmandos, o quanto a corrupção guarda uma intrínseca relação com as organizações criminosas.
Certo. O problema é que a pedagogia das ações do PT, partido do ministro, principalmente de seu líder máximo, Lula, tem engrossado em vez de dissolver a herança patrimonialista-corporativista.
José Eduardo Cardozo sentiu isso na pele. Em 1997, ele fez parte de uma comissão de sindicância interna do PT sobre um esquema de desvio de dinheiro de prefeituras envolvendo Roberto Teixeira, amigo e compadre de Lula. A comissão concluiu que a denúncia era procedente. Mas Lula chorou, esbravejou, e a direção do PT fez mais do que varrer a sujeira para debaixo do tapete. Deixou quietos os denunciados e expulsou o denunciante, Paulo de Tarso Venceslau.
Cardozo, que eu saiba, não aprovou mas também não condenou publicamente o acobertamento. Pena. Suas palavras hoje teriam maior efeito pedagógico se fossem respaldadas por uma ação mais contundente naquele episódio.
Claro que, nessa hipótese, hoje ele não estaria falando contra o corporativismo e a corrupção como ministro da Justiça de Dilma Rousseff.
Os funcionários que o ouvem têm memória e têm olhos e ouvidos para registrar os exemplos de acobertamento da corrupção dados por Lula e seu partido.
Gandhi disse a jornalistas que lhe pediram uma mensagem sobre a violência religiosa que incendiava a Índia: “Minha mensagem é minha vida”. Dias depois, foi assassinado. A força moral do seu exemplo conseguiu amainar a violência.
Eu não pediria ao ministro que sacrificasse o cargo. Mas ele deve saber que, sem a força do exemplo, as palavras, inclusive as escritas na lei, são fracas.





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