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A revolução árabe e a esquerda latino-americana

Joaquín Villalobos, El País, 23/02/11

Nos últimos 50 anos, boa parte da esquerda latino-americana definiu sua identidade sob o paradigma da revolução social que o modelo cubano estabeleceu, com saúde e educação como seus grandes eixos de transformação. A democracia não foi considerada revolucionária, mas “burguesa”. As direitas e suas ditaduras tampouco tiveram como paradigma a democracia, mas a modernidade mediante o desenvolvimento econômico. Ambas as correntes consideraram que, se atendiam às necessidades sociais ou ao progresso econômico, as liberdades democráticas não tinham importância. Havia na América Latina um único autoritarismo de esquerda em Cuba, o resto eram ditaduras de direita. Na primeira preferiam expulsar os opositores e nas segundas assassina-los. O resultado, em ambos os casos, foi pobreza sem liberdades e instabilidade ao longo de décadas, com sociedades em conflito permanente.

Os Estados Unidos também desprezaram a democracia para a América Latina; a “aliança para o progresso” enfatizou o desenvolvimento econômico e não as liberdades. Com o anticomunismo como política, realizou intervenções, isolou Cuba e apoiou ditadores, golpes de estado, fraudes eleitorais e matanças. Esta situação começou a mudar com a política de direitos humanos do governo de James Carter, que foi fundamental na queda do ditador Anastasio Somoza da Nicarágua em 1979. A posição de Carter foi visionária em postular os direitos humanos e a inclusão da esquerda. No entanto, a reação conservadora americana trouxe, com a administração Reagan, o conflito mais sangrento que o continente viveu. Assim, na América Central durante a década de 80, centenas de milhares morreram numa guerra que, tendo raízes próprias, foi interpretada como um apêndice da guerra fria.

Depois de muitas lutas populares, os direitos humanos e a democracia começaram a se tornar valores hegemônicos da política e fatores de legitimação dos governos. A esquerda chegou ao poder e começou a alternância. A transição começou há cerca de 30 anos a partir das mudanças democráticas ocorridas em diferentes países. Este processo, apesar das suas imperfeições, permitiu que o continente esteja passando por um período prolongado de estabilidade política que dá sinais de se consolidar.

A queda do Muro de Berlim, com a reação em cadeia que ocorreu na Europa Oriental, foi uma revolução anunciada. O que está acontecendo no mundo árabe, ninguém previu. Antes da Tunísia e Egito, predominava a idéia de que a democracia era um valor ocidental, culturalmente incompatível com a cultura árabe. Não obstante, a mobilização revolucionária nos países árabes mostra que o desenvolvimento das classes educadas, comunicadas e informadas é incompatível com o autoritarismo. Isto consegue espaço em sociedades com grande atraso político, econômico e social. Por trás de cada crise terminal do regime autoritário há um conflito de representação e participação no poder de novos grupos sociais. A democracia está demonstrando ser um valor cada vez mais universal na medida em que o progresso econômico transforma a estrutura de classes dos países.

No momento em que as pessoas atingem um nível superior de ensino, a crítica o dissenso e a diversidade de pensamento inevitavelmente se multiplicam. É impossível que todo mundo pense da mesma maneira e as formas de pensar das pessoas tendem a se modificar com o tempo e com mudanças de condições. Não é possível serem todos de direita ou de esquerda, acreditar em Deus ou ter o mesmo Deus, isso é um absurdo. Quando o número de cidadãos com consciência crítica aumenta substancialmente, debilita-se a possibilidade de governar a partir da superstição, a religião, o caudilhismo, as dinastias familiares e as verdades únicas do dogmatismo político. A velha aliança Igreja, militares e latifundiários, que deu sustentação à maioria das ditaduras do continente, findou-se com o crescimento das classes médias e o surgimento de novos grupos de poder econômico.

A democracia e os direitos humanos não são apenas um assunto ético ou ideológico, são uma tecnologia de governo que manter a sociedade coesa em meio às diferenças e à natural diversidade que a compõem. Isso é possível quando há classes sociais mais educadas que entendem que a tolerância entre contrários é essencial para a convivência pacífica. Mas o mais importante é que nenhuma sociedade polarizada ao extremo e com divisões profundas entre seus habitantes é viável nem tem possibilidades de desenvolvimento. Por isso, a exclusão social que leva à exclusão política é uma questão vital para resolver. A América Latina não era viável sem a inclusão das esquerdas, assim como o mundo árabe não o será sem a tolerância para com os islâmicos até alcançar sua moderação.

Quando a sociedade se mantém coesa pode usar todas as suas capacidades e isso dá lugar a uma relação direta entre democracia e desenvolvimento. O empobrecimento social, moral, intelectual, institucional e econômico de Cuba após 50 anos de revolução contrasta com o desenvolvimento social, educacional, econômico e institucional da Costa Rica, Chile e Uruguai; os três países maior vigência e cultura democrática do continente. Algo assim ocorreu entre o fracasso da Europa Oriental dominada pelos comunistas e o desenvolvimento bem sucedido da Europa Ocidental sob a influência da esquerda social-democrata. A atual situação de grande violência, crise social profunda, extrema pobreza e risco de falência do estado no Haiti, Guatemala, El Salvador e Honduras são o resultado de terem vivido as ditaduras mais repressivas e prolongadas do continente. Os riscos autoritários e a extrema polarização que vivem a Bolívia, Venezuela e Equador resultaram de haver excluído social e politicamente uma parte considerável de sua população.

Depois de meio século de revolução cubana, a democracia demonstrou ser mais revolucionária, mais capaz de eliminar a pobreza e mais eficaz para alcançar uma participação cidadã por meio do voto e das organizações da sociedade civil. Na democracia, perde que divide seu país. Resolver a exclusão social às custas da exclusão política leva a conflitos permanentes e à perda de capacidades vitais para o desenvolvimento. Cuba perdeu milhares de cientistas, escritores, artistas e empreendedores, uma grande parte deles de esquerda e o mesmo está acontecendo na Venezuela. A sangria intelectual cubana foi tamanha, que não se pode separar o desenvolvimento exitoso da Flórida do exílio cubano.

É impossível que um único pensamento leve ao progresso. A chave do desenvolvimento está na interação dialética entre diversidade, diferenças, pesos, contrapesos, alternâncias, acertos e erros. As liberdades, as leis e as instituições são mais importantes para os pobres que o paternalismo autoritário. Não querer deixar os governos, envelhecer no poder e legar o governo a parentes não é revolucionário. A esquerda latino-americana precisa abandonar o mito cubano para assumir de uma vez por todas a democracia como sua identidade. A ditadura cubana e as pretensões autoritárias de Chávez são os últimos obstáculos para a maturidade política do continente e para o avanço político da própria esquerda. Não há regime autoritário eterno, Castro e Chávez não permanecerão, como não permanecerão as ditaduras centro-americanas, sul-americanas e agora as árabes, não importa sejam religiosas ou liberais, de esquerda ou de direita, os povos sempre acabam fartos e as derrubam.

Joaquín Villalobos foi guerrilheiro salvadorenho e é consultor para a resolução de conflitos internacionais.

Tradução: Eduardo Graeff

ideias · democracia, ditadura, socialismo
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