A tara do adesismo
O Brasil já conta com um número significativo de pesquisas acadêmicas sobre partidos políticos. Contudo, dentre essas teses, a mais instigante é a obra ‘Estado e Partidos Políticos no Brasil’, de Maria do Carmo Campello de Souza (São Paulo. Alfa-Omega. 1976). O ponto essencial de seu argumento é o de que os partidos brasileiros privilegiam o acesso às arenas decisórias em detrimento do enraizamento social. Este raciocínio poderia ser aplicado à coalizão composta ao longo do governo Lula, e mantida no governo Dilma.
É ingênua a interpretação de que alianças devam ser formadas a partir de afinidades ideológicas ou programáticas. Mesmo nas democracias avançadas as coalizões são estabelecidas segundo conveniências eleitorais. O problema é que, o que se vive no Brasil hoje é uma verdadeira “tara do adesismo”, na qual o governo federal reúne na Esplanada dos Ministérios ex-integrantes de partidos vinculados à luta armada, e partidos originados no apoio ao regime militar.
Não pode ser considerado plausível o argumento de que há um mínimo consenso programático, posto que não existe nitidamente uma agenda política de reformas. O que há é apenas um conjunto genérico de boas intenções como erradicação da pobreza, crescimento econômico e distribuição de renda. Não se sabe, ao certo, as diretrizes das políticas públicas a serem adotadas para atingir estas “metas”.
Por outro lado, a oposição se mostra inerte, passando para a opinião pública a impressão de que não há como fazer politica partidária sem acesso às arenas decisórias. Dessa forma, os movimentos políticos mostram uma busca frenética pelo centro, o que desfaz as clivagens partidárias que davam sinais de sedimentação durante o governo Fernando Henrique. A maior prova desse desmantelamento das clivagens está no declínio da identidade partidária, declínio esse apontado pelas pesquisas do Datafolha. Afirmar que essa situação representa uma “ameaça” para a democracia seria um alarmismo desmedido. Todavia, o que se deve discutir é a qualidade da democracia que queremos.
Nos anos 90 o neoliberalismo foi taxado de “pensamento único”. Hoje antigos liberais ferrenhos buscam artifícios legais, como o a criação de novos partidos, para migrarem para a ambígua posição de centro, utilizando o bordão de que “apoiarão o governo naquilo que for bom para o país”, mantendo assim posições políticas que mudam ao sabor do vento e dos cargos.
O resultado desta “tara adesista” é que, diante de uma aliança tão heterogênia, o custo para a manutenção da coalizão do governo Dilma seguirá o sentido inverso da sua popularidade, ou seja, quanto menor a aprovação do governo pela opinião pública, maior o custo da coalizão. Por mais óbvio que este raciocínio pareça, a falta de empenho governamental no controle da inflação pode ser interpretado como um sinal de insegurança politica.
Gustavo Müller, 40 doutor em Ciência Política pela UFRGS. Professor de Ciência Política da Universidade Federal de Santa Maria





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