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A verdade dos nossos sonhos

José de Souza Martins, O Estado de S. Paulo, 18/04/10

Alexandre Orion
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Na terça-feira, participei de um debate no Centro Cultural do Banco do Brasil, em São Paulo, sobre a obra do artista plástico e grafiteiro Alexandre Orion, Ossário, uma intervenção realizada no túnel Max Feffer, na Avenida Europa. Descascando a película preta da fuligem do escapamento dos carros, depositada sobre as paredes do túnel, Orion foi criando um amontoado de caveiras. O objetivo de sua obra era o de chamar a atenção dos motoristas para a poluição e para o que provavelmente está acontecendo com os pulmões da população. Foi longo o tempo em que as paredes enegrecidas ali estiveram sem que ninguém se importasse com elas. Bastou que Orion nelas trabalhasse, madrugadas a fio, para que a fiscalização aparecesse, a polícia de trânsito o interpelasse e a Polícia Militar fosse chamada. O artista tentou explicar o que fazia, suas razões, sua obra. Foi vencido pela água das mangueiras da limpeza pública: o grafiti inacabado foi borrado, ficando intacto o restante enegrecido da parede.

Ao sair do debate, na Rua Álvares Penteado, cerca das 22 horas, percorrendo antigas e ricas ruas do centro de São Paulo, até o Largo de São Francisco, onde está a Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, monumento da nossa consciência cidadã, fiquei assombrado. Encostadas às portas e paredes, recolhidas a leitos e cafofos de papelão, pano e plástico, quase uma ao lado da outra, centenas de pessoas dormiam ou tentavam acomodar-se para passar a noite. Tudo diferente do que se vê de manhã, quando essa humanidade some para voltar na noite seguinte. Por coincidência, naqueles dias a Prefeitura autorizou a Guarda Civil Metropolitana a abordar os moradores de rua, mesmo durante a noite. Já antes fechara os abrigos do centro tentando deslocá-los para os bairros.

O que há de comum entre o artista notívago, que tenta arrancar da noite o lado invisível das nossas irracionalidades urbanas, e a visibilidade que a elas involuntariamente dão os que foram privados de destino e que pagam o preço de muitos desapreços? Aparentemente, nada. Nos dois casos, porém, e por diferentes razões, essas personagens da escuridão deram forma ao que forma aparentemente não tem, a forma estética da morte indevida que nos ronda e a forma social das insuficiências de nossa sociedade anômica e permanentemente inacabada. Eles nos revelam as ocultações da cidade enferma, os distanciamentos do poder e o próprio poder.

Neste país do esplendor diurno, a verdade é noturna. Há pouco menos de 40 anos, Georges Lapassade e Marco Aurélio Luz publicaram um livro instigante sobre O Segredo da Macumba. Nele, expõem o resultado da pesquisa que fizeram no Rio de Janeiro sobre a cultura religiosa da população negra. À meia-noite, nos terreiros de umbanda, chegava Exu, para revelar nossas encruzilhadas, abrir as ocultações do permitido e dar lugar ao Candomblé proibido e perseguido pela polícia.  Gostamos de nos pensar como se fôssemos franceses, ingleses ou americanos. Muitos vivem permanentemente na alienação dessas suposições, imitando mais do que criando, sobrevivendo mais do que vivendo, sonhando mais do que fazendo. Vem de longe essa matriz de indecisões culturais e sociais, essa duplicidade crônica que nos atormenta, o policialismo do dia sobre a noite, que nem mesmo nos incomoda.

Tanto na repressão ao artista e a sua obra de arte quanto na repressão à vítima de nossas misérias é a força dessa ambivalência constitutiva que se manifesta, o bifrontismo que abre um imenso abismo entre o poder e o povo, entre o que sobra e o que falta, o abismo de instituições fundadas sobre o medo em relação ao povo insubmisso e desconfiado. Como entender esta nova disputa eleitoral pelo poder senão no marco desse divórcio e nos reclamos de uma sociedade fraturada por primarismos como o das repressões indicadas? O sentido deste enfrentamento pelo poder não está nos exageros do populismo palavroso e irresponsável. Está muito mais no silêncio de nossa noite.

Professor Emérito da Universidade de São Paulo. Dentre outros livros, autor de A Sociabilidade do Homem Simples (Contexto, 2008), A Aparição do Demônio na Fábrica (Editora 34, 2008), O Cativeiro da Terra (Contexto, 2010).

cultura · grafiti
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