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Analfabetismos pós-modernos

José de Souza Martins, O Estado de S. Paulo, 01/03/09

A alfabetização constitui apenas um dado formal. Ela só tem sentido num quadro de solicitações culturais

Não chega a ser surpreendente a notícia de que 75% dos analfabetos no Brasil têm mais de 40 anos e o declínio do analfabetismo é mais lento nessa faixa de idade do que nas outras. Há particularidades sociais que ajudam a compreender esse dado lastimável. Os de mais de 40 anos são, no geral, os que têm menos estímulos para superar a situação em que se encontram. No Brasil, as pessoas envelhecem cedo. O marco dos 40 é para muitos o marco de uma idade de angústia e apreensão, do fim das oportunidades estáveis de trabalho. A dificuldade que essas pessoas encontram para mudar de emprego ou mesmo para arrumar um e a facilidade com que ficam sem trabalho é um conhecido fator de marginalização social já na maturidade. Que estímulo pode ter uma pessoa de 40 anos ou mais para se alfabetizar tardiamente se a probabilidade de conseguir um emprego compatível com sua história profissional é muito menor do que a de uma pessoa mais jovem? A discriminação e o preconceito etários no nosso mercado de trabalho são em si mesmos fatores de degradação social que dificilmente podem encontrar um antídoto na alfabetização tardia, que, por ser tardia e ser mera alfabetização, é cada vez mais insuficiente. Ser alfabetizado já não garante nada a ninguém.

A pós-modernidade é uma era de multiplicação das formas de analfabetismo. As estatísticas referem-se aos estritamente alfabetizados, aos que aprenderam a ler e escrever. Mas raramente há referência ao analfabetismo funcional daquela larga parcela da população que, ainda que sabendo ler e escrever, de fato não está alfabetizada porque está aquém do manejo minimamente competente da informação cultural, como a interpretação daquilo que lê. A alfabetização constitui apenas um dado formal. Ela só tem sentido num quadro de solicitações culturais em que saber ler e escrever é mais do que o ato em si. Na zona rural, encontrei, não poucas vezes, pessoas desalfabetizadas, aquelas que frequentaram e completaram o antigo curso primário rural de três anos e, passado algum tempo, desaprenderam a ler e escrever. Porque o desuso da alfabetização torna-a inútil. De outro modo, isso acontece também na cidade. Não é raro que a escola esteja completamente desvinculada das atividades culturais que lhe dão sentido, como a leitura, a freqüência a bibliotecas, museus e teatros. Hoje vivemos num cenário em que não é incomum a combinação de alfabetização e ignorância, a capacidade de ler e escrever reduzida ao uso elementar dos simplismos do cotidiano, aos quais a própria escola se submete, renunciando à missão de estimular os estudantes a níveis mais altos e mais complexos de conhecimento, superadores e críticos do cotidiano e do repetitivo.

O universo cultural do analfabetismo tem sido ampliado no último meio século, anulando com facilidade os ganhos da alfabetização tradicional da escrita manual e da leitura do texto impresso. O advento do microcomputador pessoal criou, em curto tempo, uma massa de analfabetos até mesmo entre pessoas com nível superior e até mesmo entre professores universitários. A linguagem computacional invadiu nossa vida como indecifrável língua estrangeira e nos colocou da noite para o dia à mercê de técnicos que se esmeram em falar o computacionês incompreensível. A máquina de calcular livrou-nos dos sofrimentos da tabuada, mas criou uma geração de ignorantes que faz cálculos sofisticados sem saber como são feitos. Saber escrever corretamente a língua portuguesa já não é necessário, pois programas instalados no computador corrigem automaticamente a maioria dos erros e permitem a qualquer semialfabetizado escrever quase com o rigor de Machado de Assis.

Enquanto nos países desenvolvidos os museus estão cheios de crianças e adolescentes levados pelas próprias escolas, aqui estamos muito longe disso, do mesmo modo que estamos muito longe do ensino em tempo integral, necessário para cobrir a extensa área de cultura que deve ser assimilada antes da idade adulta para que a pessoa se mova num patamar próprio das demandas culturais crescentes do mundo moderno. Nesse sentido, a insuficiência da nossa escolarização é um instrumento de alargamento do número dos que podem ser classificados na moderna e ampla concepção de analfabetismo, não limitada estritamente ao saber ler e escrever.

Mudanças técnicas na indústria tornaram o que era conhecimento profissional para uma vida um mero conhecimento para uns poucos anos, aquelas tarefas suprimidas e substituídas por outras, que pedem nova e diferente escolarização. A simplificação do processo de trabalho, por outro lado, criou tarefas que podem ser desempenhadas por pessoas com menor qualificação profissional e escolarização menor. Não é casual que se registre entre nós mais desemprego entre trabalhadores mais qualificados do que entre os menos qualificados ou sem qualificação. Portanto, a escolarização está sendo continuamente questionada pelo mercado de trabalho, o que torna a mística da alfabetização uma aspiração obsoleta.

O cenário de desestímulo à alfabetização é agravado por uma cultura nacional historicamente marcada pela valorização do analfabetismo. Sociedade que teve escravidão, precisava, até há pouco mais de cem anos, apenas do trabalho braçal do cativo. Foram raros os senhores de escravos que alfabetizaram e educaram seus escravos, conscientes aliás de que alfabetização é incompatível com escravidão. Na imigração que substituiu a escravidão, os recrutadores aliciavam de preferência analfabetos, forma de evitar o protesto social, o analfabetismo como um fator de sujeição do trabalhador do eito. A cultura moderna e a cultura tradicional se encontram na mentalidade para a qual ser alfabetizado não é necessariamente um desafio e uma carência. O êxito econômico e político de milhares de semialfabetizados parece proclamar todos os dias que aprender a ler e escrever é cansativo. Como dizia o Jeca Tatu, de Lobato: não paga a pena.

Professor titular de sociologia da Faculdade de Filosofia da USP e autor, entre outros títulos, de A Aparição do Demônio na Fábrica (Editora 34)

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