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Antes tarde do que nunca

Eduardo Graeff, 19/02/11

Num artigo que acabei de traduzir e copiar aqui, Manuel Castells discute as relações entre Internet, meios de comunicação de massa e revolução no Egito. Aqui há um artigo anterior dele sobre o mesmo assunto, a propósito do Wikileaks.

Em Communication Power, que lançou no ano passado, Castells destrincha as relações entre poder e comunicação em outros contextos, incluindo o papel da Internet na eleição de Barack Obama. Quem não quiser esperar o lançamento do livro no Brasil pode baixar da Amazon (recomendo). Há uma resenha do livro por Eduardo Viveiros que dá para baixar daqui.

Revolução e eleição são, de algum modo, formas antípodas de mudança política, uma típica de regimes autocráticos, a outra característica de sociedades (mais ou menos) democráticas.

Nós, felizmente, estamos no segundo caso. Isso não diminui - talvez até aumente - nossa fascinação pelo que se passa no Egito, mas limita as lições que podemos tirar de lá. A velocidade com que a revolta se espalhou na Internet e nas ruas é proporcional ao grau de repressão imposto ao seu povo pelo regime de Mubarak, como o estouro duma panela de pressão.

Eleições não são assim. Mesmo quando marcam uma virada política, elas são o coroamento de processos de mudança mais livres e, por isso mesmo, menos explosivos. Os Estados Unidos institucionalizaram esse tempo de maturação por meio das eleições primárias. No caso da eleição presidencial, a campanha começa cerca de dois anos antes da eleição. Um candidato “insurgente” como Obama dificilmente teria despontado de outro modo. Com ou sem Internet. As primárias são o catalizador da mobilização na Internet.

No Brasil, sem eleições primárias, a oposição tem que suar para disputar com o governo a atenção da mídia e do público. Sentimos essa desvantagem nas duas últimas eleições presidenciais.

José Serra tem razão: eleição presidencial é uma maratona que se começa a ganhar ou perder no dia da posse do presidente. Inútil tentar fazer em poucas semanas, na propaganda eleitoral, o que não se fez em quatro anos para projetar um partido e uma candidatura.

Acontece que a quatro anos de distância a eleição não mobiliza ninguém além dos políticos e mais uns poucos gatos pingados. Nesse contexto, a Internet pode fazer diferença, mas não como um canal para detonar a revolta. Ela pode servir de veículo para uma articulação muito mais lenta e trabalhosa de grupos e interesses fragmentados, que eventualmente vão convergir para uma candidatura presidencial.

A oposição, infelizmente, está atrasadíssima no aprendizado dessa arte.

comunicação · eleição, internet, revolução
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