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Ao estilo mineiro

Antônio Carlos de Medeiros, O Globo, 27/10/11

Sem alarde, está em curso uma concertação política no Brasil do governo Dilma Rousseff. Os governadores ampliam a sua inserção nos diálogos políticos. Os movimentos sociais também. A mídia ocupa-se da “faxina” e contribui para melhorar a imagem simbólica da presidente Dilma. E os diálogos com o Congresso permanecem tensos, mas em processo de distensão. Enquanto isto, a imagem da presidente e do governo melhora nas classes médias.

Elementos para uma concertação não anunciada. Tímida ainda. Mas já em curso. No eixo dos governadores, tanto o programa Brasil Sem Miséria, lançado em São Paulo ao lado dos governadores do Sudeste, quanto a — mesmo tensa e prolongada — negociação sobre os royalties do petróleo, para citar apenas dois exemplos, colocam a Federação em movimento e ajudam o governo a ampliar a capacidade política.

Esta ampliação de capacidade política advém, portanto, da mudança de eixos e canais da ação governamental e da ação política. Trata-se de uma travessia que exige novas âncoras e uma agenda para o país.

Ao movimentar a Federação e fortalecer o federalismo, criam-se âncoras e ampliam-se as capacidades de interlocução e negociação, ou seja, de mediação política. Isto é muito importante. Uma agenda mais condizente com a realidade brasileira deve mesmo partir de uma visão político-institucional do federalismo, conforme têm sinalizado vários governadores, como Marcelo Déda e Eduardo Campos, por exemplo.

É importante colocar ênfase no eixo da relações políticas entre os três níveis de governo. O federalismo é fundamental na produção de flexibilidade e de mediação de conflitos do nosso (complexo) sistema político. Ele contribui para a canalização das complexas relações sociais que se movimentam na heterogênea sociedade brasileira. O nosso processo político real continua sendo tecido muito mais por situações de continuidade, do que por situações de ruptura. O “moderno” continua convivendo com o “tradicional”.

A política brasileira continua com inequívoca dimensão regional, centrada nos estados. Os partidos selecionam seus candidatos no âmbito estadual. Os políticos mantém estreitos vínculos políticos locais e paroquiais. Tudo somado, acaba-se reforçando a necessidade do federalismo na consolidação democrática. Ele desempenha importante papel de mediação política.

O governo Dilma Rousseff dá sinais práticos e inequívocos de articular o fortalecimento do eixo federativo tanto na articulação política quanto na prestação de serviços. Conjugando o eixo federativo com a melhoria das interlocuções com o movimentos sociais e com a política real e simbólica da “faxina”, Dilma também ganha aceitação nas classes médias e, portanto, fôlego político para atravessar a crise com poucos solavancos. São sinais de uma concertação sem alarde, bem ao estilo mineiro.

ANTÔNIO CARLOS DE MEDEIROS é cientista político.

política · congresso nacional, dilma rousseff, federação
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