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Aumenta distância entre Argentina e EUA

Joaquín Morales Solá, O Globo, 25/03/11

Nem George W. Bush expressou, como acaba de fazer Barack Obama, o grau de tensão entre a Argentina e Washington. Diferentemente do Brasil, país com o qual o governo americano sabe em que coisas coincide e em que coisas diverge, a atitude da Argentina é sempre um mistério. Nada mais expressivo desse enigma que o escândalo recente tendo como centro a carga de uma avião militar americano, que chegou a Buenos Aires no marco de um acordo de cooperação com a Polícia Federal.

As coisas, é verdade, já não vinham bem. Segundo material do WikiLeaks, publicado por “La Nación”, Cristina Kirchner deixou de praticar uma obamamania manifesta para cultivar rapidamente uma política de oposição à gestão do presidente americano. Alguns buscam as razões dessa mudança no ressentimento que provocou na presidente argentina a distância que o próprio Obama colocou. Ele recebeu na Casa Branca, com honras, os presidentes de México, Brasil, Colômbia, Chile e Peru. Mas jamais achou uma brecha em sua agenda para atender pessoalmente à presidente argentina.

Os porta-vozes de Washington nunca foram claros sobre as razões para essa frieza; limitaram-se a apontar “problemas de agenda” ou destacavam, quando avançavam um pouco mais, as características “imprevisíveis” do governo dos Kirchner.

Esse afastamento de Obama foi ainda mais inexplicável na última crise econômica internacional, que depositou a condução mundial do problema no G-20. A Argentina é, junto com Brasil e México, um dos três países latino-americanos que integram esse exclusivo clube da política internacional. Ainda assim, Cristina Kirchner só recebeu de Obama um encontro fugaz, de 10 minutos, numa reunião em que se discutia a segurança nuclear. Quase nada.

Esse desagrado argentino se converteu em tormentas de rancor quando se soube que Obama sobrevoaria o território argentino, sem pisá-lo, em seu giro latino-americano dos últimos dias. É realmente estranho para a política externa dos EUA que um presidente americano viaje do Brasil ao Chile sem passar nem um minuto na Argentina.

O governo americano escudou-se no pretexto de que a Argentina está em meio a um processo eleitoral, e que seu presidente dele não quer participar. Faltam sete meses para as eleições presidenciais argentinas. O argumento, a rigor, foi pouco consistente.

Não obstante, o posterior decurso dos acontecimentos pareceu dar razão aos analistas americanos, que aconselharam a seu presidente não aterrissar em Buenos Aires. O que se viu aqui foi um governo decidido a fazer campanha eleitoral contra os Estados Unidos.

“Já que não podemos fazer campanha com Obama, a faremos contra Obama”, admitiu há pouco, com uma dose de cinismo, um cristinista. Esse é agora um eixo muito visível da campanha presidencial do governo.

O escândalo do avião caiu no centro dessa estratégia. Algumas armas, cuja numeração não coincidia com o estipulado no inventário, serviram para confiscar parte da carga do avião. A Justiça argentina determinou que “não houve delito” por parte dos americanos, mas o governo argentino retém uma porção da carga.

Funcionários kirchneristas assinalaram que estão averiguando agora se houve intenção do governo americano de vender esse material no mercado negro argentino de armas. A ofensa chegou então ao cúmulo. O conflito é sério, como o classificou Obama, porque o Departamento de Estado continua reclamando esse material, que inclui algumas chaves secretas de comunicação do Departamento de Defesa dos EUA. Para piorar, o próprio chanceler Héctor Timerman (que foi embaixador em Washington a até pouco tempo) participou pessoalmente do confisco das armas e de valises com material militar sensível americano.

O governo argentino não resolveu nada ainda sobre esse conflito, apesar da insistência dos funcionários de Obama. Porta- vozes de Washington disseram que sentiam ter caído “numa armadilha argentina” e a compararam com o que aconteceu a Bush em Mar del Plata na cúpula americana de 2005. Tudo parecia ir bem nos preparativos até que os americanos pisaram no solo argentino; então, o governo dos Kirchner se converteu em beligerante frente a Washington.

As distâncias prévias aumentaram ainda mais quando, nos últimos dias, o chanceler Timerman expôs a única posição argentina que se conhece sobre a ação de tropas ocidentais aliadas para deter a carnificina de Muamar Kadafi contra os rebeldes ao seu regime despótico.

“Não tinham sido esgotados os meios diplomáticos”, disse o chanceler, num claro questionamento da decisão dos principais países ocidentais. O governo de Cristina Kirchner foi sempre refratário a criticar o regime de Kadafi desde que começou a revolução em vários países árabes. Kadafismo e peronismo estão unidos por laços imemoriais.

Chamou a atenção, contudo, aquela declaração de Timerman. Quantos civis mortos eram necessários para “esgotar os meios diplomáticos”? Quanta devastação devia perpetrar um dos ditadores mais pitorescos, e mais sanguinário também, do mundo? Como continuar sustentando que os direitos humanos são um eixo fundamental da política externa argentina quando se esquecem dos direitos dos líbios indefesos?

A condição “imprevisível” do governo dos Kirchner é, talvez, o argumento mais sincero do governo americano quando justifica seu afastamento da Argentina. Carece de razão? Um presidente americano só seria bom se tivesse de se moldar à política autorreferencial de Cristina.

Por sua vez, um ditador é bom quando faz parte da melodia do kirchnerismo. Essas contradições entre o discurso e a prática explicam, melhor que qualquer outra coisa, a frase curta e clara que Obama dedicou ao país dos Kirchner: “O conflito é sério.”

JOAQUÍN MORALES SOLÁ é jornalista. © La Nación

internacional · argentina, eua
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