Sobre                        Contato                        Arquivo

Badalhoca

José de Souza Martins, O Estado de S. Paulo, 26/04/10

Quase todos os dias de manhã, ela me esperava ao pé da porteira, na estrada da Fazenda Santa Etelvina à Estação de Guaianases, quando eu ia para a escola, muito cedo. Era 1948. Dava-me um tostão e me dizia um número ou o nome de um animal, com que houvesse sonhado, para fazer por ela a aposta no jogo do bicho. Era jogo legal. O chalé ficava na rua da estação, ao lado do posto policial, mesma rua do correio, da papelaria, da padaria, do açougue, da farmácia. Na saída da estação ficavam o bar e o armazém de secos e molhados. Mais adiante, o Grupo Escolar Pedro Taques. Para o povo, o fundamental da república estava ali.

Eu dizia ao apontador qual o número da aposta ou o bicho. Quando no sonho que ela tivera naquela noite não havia número nem bicho, só gente, pedia para que eu contasse o sonho a ele para que o interpretasse e definisse o número. Certa vez sonhara com o marido. Ele pensou um pouco e sentenciou: “É burro!” E escreveu os números no papelucho da aposta.

Ela nunca ganhou nada. Era uma mulher pobre, caseira daquela chácara de beira de estrada. De vez em quando, expressava sua gratidão dando-me um lanche de pão e salame. O pão era duro. O salame, sempre rançoso.

Um dos meus amigos de escola, sabendo disso, contou-me um dia que a comida na casa dela era catada no lixo do Mercado Municipal, em cujos monturos ela garimpava o pão nosso de cada dia, como tanta gente ainda hoje. De fato, de vez em quando eu a via desembarcar do trem com uma pesada sacola em cada mão e outra acomodada numa rodilha na cabeça. Batia 6 quilômetros a pé até sua casa. O corpo desconjuntado por uma vida de trabalho pendia de um lado para outro, modo, também, de dar-lhe impulso e suavizar um pouco o trajeto. A partir daí, passei a jogar o lanche no mato.

Ela era bem velha e dava uma impressão de desleixo e sujeira. A molecada, pelas costas, a chamava de Badaioca. Só há pouco tempo resolvi conferir a palavra no dicionário. Lá está: é badalhoca, o nome que se dá à lã suja e embaraçada pendente do carneiro, que balança de um lado para outro quando ele anda.

Lá nos confins do Município de São Paulo, no meio da roça, a molecada recuperava palavra do português arcaico, pronunciando-a com sotaque nheengatu, a língua geral, em 1727 proibida pelo rei de Portugal. Os nheengatus falantes, forçados a falar português, passaram a pronunciar com o sotaque da língua brasileira. Dada a dificuldade dos nativos para pronunciar as consoantes dobradas, amenizaram-nas com vogais: badaioca, cuié, muié, zóio, oreia. Guaianases está no território do antigo aldeamento de São Miguel de Ururaí, São Miguel Paulista. Da antiga tradição jesuítica, no meio do caminho ficava a capela de Santa Cruz, onde todo início de maio havia três dias de festa, a mesma dos tempos antigos.

cultura · nheengatu
Enviar   Imprimir   Fonte

Corrupção de Sarney a Lula

image O ebook Corrupção de Sarney a Lula pode ser baixado gratuitamente em três formatos: PDF (para imprimir), EPUB (para iPad) e MOBI (para Kindle). Uma versão em inglês (capa acima) está a venda na Amazon.com.

Posts recentes


Olho no México

O Brasil não precisa deixar a captura do estado ir tão longe. O caso Cachoeira poderia ser o sinal de alarme para um pacto contra a corrupção política e o crime organizado.

Deixem o governador falar

O PSDB precisa resolver: ou defende claramente o governador Marconi Perillo, ou admite claramente que não tem condições de defende-lo.

Bem na foto

Não tem como negar: a atual presidente e os ex, todos eles, estão bem na foto da instalação da Comissão da Verdade.

Problemas na “Lei Dieckmann”

Os deputados não devem, na pressa, perder a oportunidade de ouvir mais quem entende do assunto e corrigir as falhas do projeto.

FHC e Jefferson

Sobre a concessão do Prêmio Kluge a FHC: "Não só é a primeira pessoa com uma carreira política pessoal relevante a ganhar este prêmio, como é também um representante acabado do que chamamos cientista social. Se quiser fazer uma comparação americana, ele é como Jefferson".

Salvo pelo BNDES

Opinão d'O Globo: "É necessário averiguar os vestígios de interferência política na compra da Delta pelo JBS".

Não dá para não ler

As suspeitas sobre os dois governadores são parecidas: ligações impróprias com Carlos Cachoeira. O tratamento editorial da Folha varia. Um governador, de Goiás, é "tucano". O outro, petista, é "do DF".

Para não dizer que eu não falei da Globo

A Virada Cultural paulistana foi um desastre e o Viradão Carioca um sucesso, segundo O Globo. Não sei se vou para o Rio na próxima virada ou assino outro jornal.

Quem merece essa jurisprudência?

Como a nota não cita fonte, nunca se sabe... Espero que não seja verdadeira. Se o PSDB se deixar enquadrar desse jeito, já era.

Mais inteligentes, menos violentos

Posso acreditar que a razão venha nos salvar das formas endêmicas de violência. Se não é verdade, é bem sacado. Os homicídios estão mesmo em queda em São Paulo e até no Rio de Janeiro. Podem muito bem continuar a diminuir no planeta.

Mais herança maldita

Governadores e prefeitos fariam melhor de não esperar sentados pela próxima onda de greves dos funcionários em geral e ameaças de motim da polícia.

Brecha na proibição do aborto

Para quem acredita em alma, o feto que não tem cérebro deve ser protegido mesmo assim porque tem alma.

A língua do PT

"Hegemonia", na língua do PT, é isso: a pretensão de reescrever numa penada o dicionário e a história do Brasil.

Até 2020

Tomando nota: três tendências ou fatos que devem ter forte impacto sobre o equilíbrio do mundo até 2020.
Mais posts