Bancos ganham, empresas perdem
Com resultado recorde do BB, setor registrou lucro 15% maior em 2009. Ganho de companhias não financeiras caiu 44%
Wagner Gomes
SÃO PAULO e BRASÍLIA
Impulsionado pelo forte crescimento da carteira de crédito e também por receitas extraordinárias com a Previ, o Banco do Brasil anunciou ontem um lucro líquido de R$10,148 bilhões em 2009, o melhor resultado da história do setor, deixando para trás os principais concorrentes privados. Em relação a 2008, a variação chegou a 15,3%. O ganho do BB — que sofreu pressão do governo para aumentar as operações de empréstimo durante a crise financeira e reduzir os juros — também bateu com folga o balanço já divulgado por algumas empresas não financeiras. Só perde, por enquanto, para a Vale, que fechou o ano passado com ganho de R$10,249 bilhões. Em bases recorrentes, ou seja, sem considerar os efeitos extraordinários, o lucro do BB no ano passado foi de R$8,506 bilhões, ainda assim uma alta de 27,2%.

Com 22 balanços de empresas não financeiras publicados até ontem, entre eles o de Vivo e Light, além da Vale, o lucro líquido foi de R$19,928 bilhões, contra R$35,697 bilhões em 2008, o que representa queda de 44,1%. A rentabilidade sobre o PL também sofreu maior recuo que nos bancos: de 19,8% para 12%. A amostra foi afetada pelos resultados de empresas que dependem do mercado externo, caso da Vale, cujo lucro em 2009 despencou 51,8% (para R$10,249 bilhões).
Com o resultado do BB, chegou a R$37,797 bilhões o lucro acumulado por uma amostra de 20 instituições financeiras que já divulgaram seu balanço em 2009, o que representou um aumento de 15,19% sobre 2008. Considerando apenas os seis maiores bancos de varejo, essa variação foi de 14,8% (para R$36,128 bilhões).
Banco do Brasil investiga vazamento
O presidente do banco, Aldemir Bendine, disse, durante a entrevista coletiva para anunciar os resultados, que a instituição está investigando o vazamento da informação do balanço. O lucro foi publicado ontem pelo jornal “Brasil Econômico”.
Como o BB tem ações negociadas em Bolsa, todo o mercado deve ter acesso a informações como essa ao mesmo tempo.
— Estamos investigando a origem dessa divulgação. O banco tem tomado um cuidado especial em relação a esse vazamento de resultado. Nós alteramos recentemente a nossa publicação no site e na CVM com horário mais tardio, para que não houvesse esse tipo de situação. Infelizmente, de novo, isso se repetiu. Nós vamos procurar apurar esses fatos — disse Bendine.
O balanço do BB, que já considera os números integrais da Nossa Caixa e de parcela do Votorantim (compradas no início de 2009), foi engordado por uma receita extra de R$3 bilhões referentes à contabilização de ganhos atuariais não reconhecidos do plano de aposentadoria de seus funcionários.
Ao longo dos anos, o BB e os funcionários contribuíram num volume maior do que a necessidade efetiva para financiar as obrigações futuras desse plano de aposentadoria. Esse excesso de
efetiva para financiar as obrigações futuras desse plano de aposentadoria. Esse excesso de contribuições acabou sendo investido em ativos que geraram ganhos extras para o fundo, segundo Marco Giovane Tobias, gerente de Relações com Investidores do BB.
O grosso do resultado no ano passado saiu mesmo dos empréstimos. A carteira de crédito total somou R$300,8 bilhões, 33,8% a mais do que em 2008, com destaque para o segmento de pessoa física (mais 88,1%, para R$91,79 bilhões). Nenhuma outra instituição registrou variação tão expressiva.
No Itaú Unibanco foi de 2,4%, enquanto no Bradesco foi de 6,8%. Já as receitas com empréstimos aumentaram 22%, passando de R$33,221 bilhões para US$40,515 bilhões. Para 2010, o BB prevê uma expansão de 18% a 23% de sua carteira de crédito.
— O reforço na carteira de crédito foi o principal componente para o resultado recorde. Adotamos uma estratégia perfeitamente correta e fomos ousados — disse Bendine.
O ministro da Fazenda, Guido Mantega, comemorou o lucro.
— Mostra o acerto da estratégia anticíclica que nós adotamos e coloca os bancos públicos em lugar de destaque. O BB foi um dos principais baluartes da nossa política.
De acordo com compilação da Austin Rating, os ganhos com crédito dos maiores do setor financeiro foi de 14%, enquanto as receitas da área de tesouraria (aplicação em títulos públicos) avançou 18,1%. Isso foi mais forte no caso dos bancos privados, que no ano passado reduziram a concessão de empréstimos.
No Itaú, as receitas com tesouraria subiram 44,7%, enquanto no BB cresceram 3,7% e na Caixa, 0,4%.
Bendine disse que, apesar de a crise ter provocado aumento da inadimplência, os índices de atraso se mantiveram abaixo dos registrados no sistema. Isso ocorreu porque os empréstimos foram concentrados em operações de menor risco, como o crédito consignado. A inadimplência média chegou a 3,3% no quatro trimestre de 2009, contra 2,4% em igual período de 2008 e 3,6% no terceiro trimestre do ano passado.







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