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Barack Kissinger Obama

Thomas L. Friedman, O Globo, 27/10/11

Quem poderia ter previsto? Barack Obama tornou-se mais adepto da política externa de George W. Bush que o próprio Bush, mas menos adepto da sua. Contudo, as razões são óbvias.

A seu próprio modo, Obama adotou a estratégia correta para a “guerra ao terror” de Bush. Trata-se de uma combinação séria e focada de coordenação global de inteligência, eliminação planejada de terroristas conhecidos e intervenções limitadas — como na Líbia. Também demonstra uso judicioso do poder americano, mantendo baixos tanto os riscos quanto os custos. Na Líbia, Obama evitou perda de vidas e deu aos líbios a chance de construir uma sociedade decente. O que farão com esta oportunidade é opção deles. Ainda estou desconfiado, mas Obama foi extremamente bem.

Sem dúvida George Bush e Dick Cheney pensaram que tanto o Iraque como o Afeganistão seriam precisamente esse tipo de operações limitadas, focadas. Em vez disso, cada uma delas se tornou algo parecido às hipotecas podres (subprime) — um pequeno pagamento de entrada com uma imensa bolha de dívida cinco anos mais tarde. Eles pensaram que poderiam lucrar vendendo a casa por um preço valorizado antes de a bolha estourar. Porém, em parte por causa de sua incompetência e em parte por falta de planejamento, eles demoraram para vender a casa a novos proprietários, e o preço que os EUA pagaram foi alto. O Iraque ainda pode ter um final decente — eu o espero e acho importante —, mas, mesmo se o país se tornar uma Suíça, o preço é alto demais para nós.

Então, sejamos claros: até agora, como comandante em chefe da guerra ao terror, Obama e sua equipe têm sido muito mais inteligentes, duros e econômicos em termos de segurança nacional que os “adultos” que os precederam. Esta é a razão pela qual os veteranos republicanos têm tanta dificuldade em admiti-lo.

Mas, enquanto Obama tem sido hábil ao implementar a política antiterrorismo de Bush, teve muito menos sucesso em sua própria política externa. Sua diplomacia para o conflito árabe-israelense é uma confusão. Sua esperança de atrair o Irã para um diálogo soçobrou. Ele pouco se esforçou para montar uma coalizão multilateral de apoio ao despertar árabe para lidar com os desafios pós-revolução. Sua decisão mal concebida de reduzir o contingente no Afeganistão poderá ser fatal. Ele trava uma guerra de palavras com o Paquistão. Sua política para o aquecimento global é um embaraço. E os frios e calculistas chineses e russos, embora de vez em quando lhe joguem um osso, lutam por seus interesses com escassa preocupação em relação às preferências de Obama. Por que isso?

Venho aqui para defender Obama, não para condená-lo.

Verdade, ele foi ingênuo sobre seu poder, ou o de sua secretária de Estado. Mas as frustrações do presidente em obter um grande feito não militar na política externa estão enraizadas num problema estrutural muito mais amplo — que também explica por que não produzimos um secretário de Estado capaz de mudar a História desde Henry Kissinger, George Shultz e James Baker, titãs da Guerra Fria.

A razão: o mundo ficou mais complicado e os EUA perderam influência. Quando Kissinger negociava no Oriente Médio, nos anos 70, tinha de persuadir três pessoas a fazer um acordo: o todo-poderoso ditador da Síria, Hafez Assad; um faraó egípcio, Anwar Sadat; e uma primeira-ministra de Israel com uma maioria avassaladora, Golda Meir.

Para fazer história, Obama e a secretária de Estado, Hillary Clinton, precisam extrair um acordo de um regime sírio em desintegração, de uma fraca e irascível coalizão israelense e de um movimento palestino partido em dois.

Nem nos preocupamos mais em negociar com o inconsistente governo civil do Paquistão. Vamos direto aos militares, que desejam apenas perpetuar o conflito com a Índia — e tirar partido do Afeganistão como uma ficha nessa guerra.

Fazer história através da diplomacia “depende de fazer acordos com outros governos”, diz Michael Mandelbaum, especialista em política externa da Universidade Johns Hopkins (e coautor comigo do livro “That used to be us”). “Mas agora, para fazer tais acordos, temos na realidade de construir os governos com os quais queremos negociar — e não podemos fazê-lo”, diz ele. De fato, em tantos lugares hoje temos de construir instituições antes de podermos entrar com a diplomacia. Tantos estados escorados na Guerra Fria estão fracassando.

E onde os estados são mais fortes — como Rússia, China e Irã — temos menos influência porque ela depende do poderio econômico. E, embora ainda haja muitas companhias americanas fortes, nosso governo está atolado em dívidas. Quando uma nação está tão profundamente endividada como a nossa — obrigada a fazer profundos cortes nos gastos militares — seu latido é sempre maior que sua mordida.

A melhor maneira para os EUA recuperarem influência sobre Rússia e Irã seria através de uma política energética que reduzisse o preço e a importância do petróleo. A única forma de obter mais influência sobre a China é aumentarmos nossa poupança e taxas de graduação, exportarmos mais e consumirmos menos. Isto não está nas cartas.

Então, mamãe, diga a seus filhos que, quando crescerem, não queiram ser secretário de Estado ou presidente preocupado com a política externa — pelo menos até que outros tenham construído mais instituições no exterior e nós tenhamos feito o mesmo em nosso país.

THOMAS L. FRIEDMAN é colunista do “New York Times”

Carlos Alberto Sardenberg voltará a escrever neste espaço nos próximos dias.

Obama evitou perda de vidas e deu à Líbia a chance de reconstrução

internacional · barak obama, eua, oriente médio, terrorismo
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