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Belluzzo e o insulto

José de Souza Martins, O Estado de S. Paulo, 23/11/09

A condenação do presidente do Palmeiras, o professor da Unicamp, Luiz Gonzaga Belluzzo, a nove meses de suspensão do exercício da função, é desses fatos que já entram para o folclore do futebol brasileiro, incluído no repertório das rodas de cerveja dos botecos, dos bate-bocas de esquina e até da macarronada dominical dos palmeirenses dos velhos bairros operários. Sobretudo porque Belluzzo é conhecido por sua cordialidade, sua sensatez e sua boa educação. Nem faltará no guia dos lugares emblemáticos das disputas verbais sobre futebol o Bar do Vô, da Rua do Hipódromo, onde se vê de longe a melhor coleção de cabeças grisalhas da Mooca, torcedores do Palmeiras e do Juventus, cujo estádio fica a poucos passos. É um dos poucos lugares em que a população torce lealmente para dois times, memória que se perde na história da imigração italiana.

A decisão punitiva da Comissão Disciplinar do Tribunal de Justiça Desportiva seria mais compreensível se se tratasse de julgamento relativo a fato ocorrido num colégio de freiras, dos antigos. Mais difícil de compreender na lógica popular do futebol, de que o insulto é constitutivo. Futebol sem xingamento e insulto não é futebol, é jogo da amarelinha. O futebol nasceu, justamente, na Inglaterra tensa do surgimento da sociedade de classes decorrente da Revolução Industrial. Nasceu como instrumento politicamente terapêutico e válvula de escape para as tensões sociais, para que o jogo da economia pudesse continuar. Veio para cá nesse mesmo espírito, não por acaso introduzido por Charles Miller, nativo do proletário Brás, empregado da São Paulo Railway.

Um muito bem feito filme etnográfico, de Wagner Morales - Preto contra Branco - documenta, justamente, os confrontos sociais e étnicos da favela de Heliópolis. Uma já famosa disputa de futebol de várzea, sempre às vésperas de Natal, laboriosamente preparada ao longo de um ano inteiro de discussões e de racismo dissimulado num boteco do lugar, tem por objetivo promover o confronto entre os que se julgam pretos e os que se julgam brancos, apesar do enorme número de mestiços. O racismo cotidiano vai nessa peleja ao seu extremo. Os palavrões e xingamentos que ali são ditos, todos de ofensivo conteúdo racial, em que especialmente as mães não são poupadas, deixariam todos os cabelos de todos os membros da Comissão do TJD de pé e ainda faltaria cabelo para eriçar.

A grande descoberta sociológica dos trabalhadores de Heliópolis foi a de que a tensão das disputas futebolísticas põe entre parênteses a vida cotidiana e até a civilidade. A indignação de Belluzzo e dos palmeirenses situa-se nesse intervalo do parêntese, o das tensões da disputa em campo, cujo tempo não se restringe aos 90 minutos do jogo, mas por tradição se estende pela semana inteira.

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