“Bolsa-Família distribui renda, mas não reduz desigualdade”
Para Besserman, País precisa montar uma política eficiente de distribuição do conhecimento
Irany Tereza, RIO
Ex-presidente do IBGE, o economista e ambientalista Sérgio Besserman destacou o mercado de trabalho formal como o ponto alto da Pnad 2008, mas salientou que a mostra, mais uma vez, evidenciou “a nossa horrorosa distribuição de renda”. Analisando os resultados, Besserman, que hoje preside a Câmara Técnica de Desenvolvimento Sustentável e de Governança Metropolitana do Rio, afirma que é realmente lento o combate à desigualdade, que poderá ser obtido mais rapidamente com uma política de distribuição do conhecimento.
O agravamento da crise torna esse retrato da Pnad sem efeito?
Essa Pnad não capta ocasionais efeitos dos impactos da crise econômica no Brasil, que têm de ser acompanhados pelas pesquisas conjunturais, como a de emprego, industrial. No entanto, não creio que esse ano de crise tenha tido a capacidade de alterar muito as informações da Pnad, exceto no que diz respeito ao mercado de trabalho.
O ritmo lento dos ganhos sociais, como índice de Gini e taxa de analfabetismo, é coerente?
Combater a desigualdade é muito difícil, envolve mudanças estruturais. O combate à desigualdade não comporta demagogias ou factóides, nem políticas superficiais. Os indicadores citados (índice de Gini e analfabetismo) são indicadores de estoque. Distribuição de renda não se muda estalando os dedos, só se muda quando se distribui ativos. Por exemplo: o Bolsa-Família, um programa bem-sucedido de combate à pobreza. Alguns acham que é um instrumento também de combate à desigualdade. Não é. Ele realmente ajuda a tirar famílias do limiar da pobreza, mas para se conseguir avanços verdadeiros é preciso distribuir ativos, fatores capazes de gerar renda.
E o que poderia acelerar?
A distribuição de terras, no caso de uma reforma agrária, coisa que sou contra. Na Bolívia, em 1952, distribuíram o rebanho para toda a população. Seis meses depois, todos tinham comido a sua vaca e o rebanho bovino acabou. Poderiam ser usados outros ativos, tipo fábricas, como se faz em períodos revolucionários. Mas, como estamos no século 21, a desigualdade pode ser combatida com distribuição do conhecimento, porque esse é o principal ativo mundial e não se precisa expropriar ninguém. Não temos ainda no Brasil políticas públicas ou dinâmica social que permitam dizer que estamos no caminho de modificar a nossa horrorosa distribuição de renda.
E a estagnação da taxa de analfabetismo?
É um índice de estoque e, portanto, caminha devagar, mesmo. Isso é normal, não acho preocupante. Mas, quando falo em distribuição do conhecimento, não estou me referindo a alfabetizar, mas à escolarização - que aumentou -, à qualidade do ensino, cultura, valorização do conhecimento. Isso não é só inovação tecnológica na ponta, nos laboratórios das universidades de elite. O conhecimento é o garçom, o motorista de táxi, todo o mundo. E nós valorizamos muito pouco o conhecimento. É mais fácil a gente acreditar em duendes.





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