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Catástrofes vergonhosas

Roberto DaMatta, O Globo, 11/01/12

O início de cada Ano Novo nos apresenta as mesmas imagens das catástrofes causadas pelas secas e chuvas. Acidentes ocorrem em todos os lugares e são hoje agravados pela incômoda presença de uma não prevista “razão planetária” dentro do nosso mundinho individualista, construído debaixo do pressuposto de que somos motivados por uma racionalidade de interesses e desejos ilimitados. Alguém já disse que o individualismo só existe para ser perseguido pelo seu contrário. E o oposto de um individualismo consumista que beira a irresponsabilidade e o crime contra plantas, animais e clima é essa Terra que nos pariu, como diziam nossos esquecidos ancestrais, e que reage como uma totalidade na forma daquilo que chamamos de catástrofes porque a nossa cosmologia (fundada numa paradoxal fé científica) nos impede de concebê-la como uma pessoa.

Mas se todos os lugares estão sujeitos a acidentes nem todos respondem aos imprevistos de modo tão catastrófico como ocorre no Brasil. Para tanto, basta olhar o Japão ou qualquer país consciente de sua honra nacional. Pois se há acaso, deve haver prevenção, exceto no caso paradoxal desse nosso país abençoado por Deus, cuidado pelo lulopetismo, e bonito por natureza. Somente aqui as chuvas nos mesmos lugares e períodos resultam no vergonhoso desamparo de suas vítimas. Esses dependentes de larápios que não têm o menor pudor em embolsar os recursos destinados a reparar o seu sofrimento. O que os acidentes revelam no Brasil é uma gastança obscena e clientelisticamente direcionada. Elas expõem a gulodice eleitoral cujo alvo é enriquecer e permanecer no poder. Seu traço típico é distribuir pelo parentesco e pelos elos partidários. E assim jamais conseguimos sair do reagir para o proagir. As catástrofes desmascaram uma obscena gastança.

Elas também exibem a nossa profunda alergia ao republicanismo, pois os atingidos são sempre os “pobres”: os que vivem na passividade cívica e que, graças a autoridades irresponsáveis, vivem em locais arriscados. Eles são o espelho de nossa alergia à igualdade que — levada a sério — nos obrigaria a optar por planejamentos urbanos destinados a todos. É ofensivo descobrir que “conjuntos populares” são construídos sem infraestrutura! Insulta testemunhar a ladainha dos aflitos conformados com a “vontade de Deus”, sem a revolta contra os que foram eleitos para administrar a sua cidade e o seu estado. Esse conformismo de raiz mostra o quanto somos penetrados por valores hierárquicos que constroem o mundo como sendo feito por superiores e inferiores — aqueles mandando em tudo; estes, destinados ao sofrimento e à dor.

No Brasil, até a ideologia política moderna, que, a partir da Revolução Francesa, dividiu o mundo, como mostra o desconhecido estudo de J. A. Laponce entre “direita e esquerda”, dentro de um projeto igualitário, foi desmantelada pelas hierarquias que desintegram ministérios inventados para integrar a nação. Tudo em nome do povo, mas, de fato, operando vertical e pessoalmente: em favor do partido X ou de Sicrano ou Beltrano. Mas eis que surgem as catástrofes naturais para mostrar como as antigas verticalizações que Laponce situa como típicas dos sistemas tradicionais (divididos entre os que lutam e governam, os que rezam e salvam e os que trabalham; entre irmão, parente, compadre, amigo e o resto) retornam e canibalizam as orientações de índole mais igualitária que estão nas leis e organogramas republicanos, mas que jamais foram inscritas no coração dos que mandam. Daí o absurdo quando se descobre que o ministério destinado a socorrer o país apenas ajuda a região à qual pertence o seu ministro. E a vergonhosa revelação de que tudo o que foi construído — barragens, estradas, diques etc… — se desmantela nas primeiras chuvas porque foi malfeito e sem dúvida (com as notáveis exceções de praxe) hiperfaturado e construído por empresários amigos de infância.

A despeito de toda enxurrada modernizadora que tem corrido debaixo da ponte brasileira, continuamos a viver o dilema de construir uma sociedade coerente com uma nação republicana (como está no papel) ou de deformar a igualdade numa perversa hierarquia, na qual — como naquele famoso livro de Orwell, certos cargos são mais iguais do que outros. E, mais que isso, certos papéis sociais se confundem com seus ocupantes de modo que qualquer planejamento a longo prazo é impossível. O critério de nomeação é a família e a confiança; jamais a competência. Essa é a chave mestra — em que pesem as ideologias — da administração pública à brasileira. O chamado nepotismo é o maior inimigo das rotinas administrativas responsáveis pelos ideais de justiça social. E, sem rotinas, não há como ter instituições. Pois as instituições são animadas e dirigidas por meros mortais que passam, mas elas, como o Brasil, não devem morrer.

ROBERTO DaMATTA é antropólogo.

ideias · catástrofe, corrupção, loteamento político
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